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quinta-feira, 12 de março de 2026

Extremismos religiosos

Extremismos religiosos

Carlos Imbassahy



De quando em quando, as criaturas recebem fragmentos da revelação divina, por intermédio de Mensageiros Superiores, e estes fragmentos formam, em regra, o conteúdo das religiões. Em breve, muitos dos seus princípios se confundem de tal jeito com os erros, as mistificações, as falsas concepções humanas, que não se lhes descobre o veio originário.

É isso que procuramos esclarecer em parte.

Digamos, de começo, que não nos move qualquer desejo atacar ou menosprezar os sentimentos religiosos de nossos semelhantes; não possuímos a menor animosidade contra as religiões e muito menos contra àquela que foi de nossos pais. Apenas não nos colocamos no ponto de vista dos que seguem, em geral, uma doutrina religiosa, e que se mantêm na intransigência sectária, na aceitação incondicional de princípios, quaisquer que eles sejam, na repulsa imediata a qualquer ideia, desde que ela possa ou pareça ir de encontro aos dogmas e pontos de fé estabelecidos.

Pior ainda que o emperrar, mesmo no absurdo, é a perseguição às crenças alheias, quando não aos próprios crentes. É a maldição, o labéu do herege, energúmeno ou condenado aos que não lhes seguem a trilha. Estas é que são as faltas lamentáveis que não podemos deixar de verberar, não só por infringirem elas os princípios cardeais da fraternidade, como por se tornarem um obstáculo ao progresso espiritual, tão necessário à evolução da criatura.

M. Sage lembra o seguinte caso:
Em suas primeiras sessões, George Pelham, Espírito, pediu para ver o pai. O velho Pelham foi avisado imediatamente e não fez como aquela dama italiana, cuja história lia eu recentemente na excelente Revue des Études Psychiques de Cesar de Vesme.

A filha dessa senhora, morta havia pouco, pretendia manifestar-se por um médium e pedia chamassem sua mãe. Esta, quando lhe comunicaram o pedido, em vez de acorrer ao chamamento da filha, foi solicitar permissão do seu confessor. Imagine-se o que respondeu o santo homem: - Estas manifestações provêm do demônio; uma mulher piedosa e submetida à Igreja não se vai entreter com tão perigoso personagem. A grande dama, então, fez saber que ela não podia ir.
Esse ponto de vista do confessor, como a de tantos quantos por aí que existem, é mais ou menos justificável, porque se trata de um ato de defesa. Não pode, porém, ser este o interesse dos espíritos emancipados, que coloca acima dos estreitos limites impostos pela religiosidade sectária, a pesquisa da verdade.

O mesmo autor nos diz, a propósito das excomunhões lançadas pelos religiosos de vários matizes:
Stainton Moses não sabia nada de Espiritismo. Se dele tivesse ouvido falar vagamente, apressar-se-ia sem dúvida a abater essa nova superstição que arrebataria as ovelhas de seu rebanho. Porque há que notar o seguinte: todos os ministros de todas as religiões que separam a nossa pobre humanidade, esmagam com o nome de superstição grosseira tudo o que não participa do seu próprio corpo doutrinário; cada um deles se crê iluminado pelo sol da verdade, enquanto todos os que não professam suas opiniões erram nas trevas da mentira.
Não são as religiões que pecam, mas os extremismos religiosos; o mal nem sempre está na fé, mas na intolerância, na acrimônia, na imposição da fé, com prejuízo do esclarecimento das consciências.

Mantemos essa atitude franca de pesquisa, o direito de opinar, o dever de crítica, a liberdade de refletir, mesmo entre os nossos irmãos em crença. Nem sempre temos sido felizes, que essa nossa independência nos tem custado, além de objurgatórias e censuras, até represálias.

Bem sabemos quanto é precário o entendimento humano, quanto é arraigado o espírito de seita, como é fraco o espírito filosófico, como é persistente a tendência para se firmarem os seres em determinados princípios onde não há firmeza nenhuma. A lógica não é material encontradiço e por isto não está barateada no mercado das inteligências. Tanto que o indivíduo se afasta do currículo das ideias, das proposições de grupo, das convenções, ou de doutrinas pessoais sem qualquer alicerce, é logo mal visto e posto à margem como rês contaminada.

Convém notar, enfim, que nem sempre uma controvérsia ou uma opinião fora dos paradigmas convencionais é isenta de perigos. Há indivíduos que não podem ser contrariados. Qualquer dúvida, por mais justificada que esteja, em referência a qualquer de suas afirmativas, ou se irrita e pode produzir uma rajada de impropérios, senão coisa pior. Eles passam do argumento verbal ao argumento braçal, o que não é nada interessante.

Não é nesta liça que nos empenhamos. É de esperar que o caminho esteja franco para uma explicação cortês, haja vista que a única arma que possuímos é a da razão e o único escopo a que miramos é o esclarecimento do assunto em foco.

Carlos Imbassahy do livro:
A Evolução

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quinta-feira, 14 de julho de 2022

A reencarnação e o esquecimento do passado

A reencarnação e o esquecimento do passado

Carlos Imbassahy



Escrevem-nos, perguntando: - “Por que o espírito que volta à Terra, isto é, que se reencarna, há de pagar por faltas cometidas em vida anterior, se não se lembra de coisa alguma?”

O consulente muito delicadamente nos pede desculpas do incômodo que supõe nos dar, e declara que, assediado por amigos que lhe fazem perguntas que tais, não sabe como responder-lhes.

Também não o saberíamos, se os espíritos que nos vieram trazer a nova revelação, já nos não tivesse dito alguma coisa a respeito, como que prevendo essas interrogações e dúvidas.

O esquecimento das vidas anteriores é uma necessidade.

Se não olvidassem o passado, as novas gerações, tendo na lembrança os rancores com que se foram, conservando vívidas, as imagens de antigas inimizades, viriam continuar na nova existência as mesmas lutas, engolfar-se nas mesmas contendas, praticar as mesmas iniquidades; seria uma nova existência com os mesmos ódios, existência, por consequência, ainda de fel e de crimes.

E não é só.

A lembrança das faltas passadas, caso o indivíduo tivesse o propósito de regenerar-se, trar-lhe-ia uma vida de remorsos e de vergonha. Teria ele que viver se escondendo daqueles a quem ofendera ou maltratara. Suplício ingente seria esse, e a que poucos poderiam resistir. E se ele, o indivíduo, soubesse que teria que pagar essas faltas, a expectativa contínua do momento da prova, ser-lhe-ia suplício ainda maior, que a maldade humana até agora não soube inventar.

Espere a criatura uma desgraça e essa desgraça tomar-se-á um castigo inominável.

Deus, porém, na sua bondade, escondeu aos homens a previsão do futuro, como lhes tirou a memória do passado. Assim, eles passam pela Terra, esquecidos do que fizeram e inconscientes do que lhes vai suceder. É essa a lei, lei de benignidade, para a qual só deveríamos ter agradecimentos e louvores.

Depois de passadas as nossas provas, depois de termos na nossa vida de relação, nos aproximado de pessoas outrora desafetas e inimigas, e extinto, por novos atos, por favores, pela convivência e pela amizade que então se forma, os antigos ressentimentos, é que, tornando ao espaço, vemos voltar a pouco e pouco as reminiscências das várias existências que percorremos. Mas aí, já as provas fizeram os seus efeitos; já os inimigos estão amigos, já os sentimentos de rancor estão apagados.

Deus assim fez para que os homens não prolongassem indefinidamente as suas raivas, os seus ciúmes, fugindo à lei divina que é a da estima, da fraternidade, do amor.

Amai-vos uns aos outros - é o grande princípio de direito divino; e para que nós nos amemos, força é que se apaguem, nas sombras do passado, os sentimentos de azedume que nos traziam desunidos.

***
- Por que há de pagar o espírito, se não se lembra, pergunta o amigo.
O fato de se não lembrar tira-lhe, por ventura, a responsabilidade? Deixa ele de ser o criminoso, porque o crime se lhe apagou da memória?

Muitas vezes, o tempo faz com que a justiça humana considere prescrito o delito.

Mas, nem por isso, deixa de ser o seu autor um delinquente. E a justiça divina, que não pode deixar impune o culpado, o traz de novo ao cenário de suas iniquidades para que ele pague o mal que fez.

Não se conta o tempo no além; para as coisas do além, ele é como se não existisse. As vidas são solidárias umas com as outras, e como o ser é o mesmo, qualquer que seja a sua vestidura carnal, uma segunda vida para ele é continuação da primeira, a sua consequência inevitável.

É como se uma criatura, na mocidade, cometesse uma falta que viesse a pagar anos depois. Ninguém acharia isso injusto. Todos diriam: pagou o que fez, ainda mesmo que o faltoso houvesse esquecido a falta.

Pois uma segunda existência é uma dilação no tempo, dilação que não é nada perante o Supremo Juiz e diante da Eternidade.

Temos inúmeras provas da sobrevivência, da solidariedade das existências, da justiça do Criador.

Platão dizia: aprender é recordar. Os casos de precocidade, os gênios, as aptidões extraordinárias, nada mais são que a armazenagem de conhecimentos anteriores. E isso vem demonstrar que nem sempre a memória do passado jaz completamente mergulhada em trevas. Mozart é um exemplo. Foram outros tantos exemplos, Paganini, Thereza Milanollo, Liszt, Beethoven, Rubinstein, que, antes dos dez anos de idade já se faziam admirar.

Pascal aos 12 anos descobriu a Geometria plana.

Jacques Chrichton, aos 15, discutia qualquer assunto em latim, grego, hebreu ou árabe.

Henrique de Heinecken falou quase ao nascer; aos dois anos já sabia três idiomas.

Mezzofanti conhecia setenta línguas e atualmente o Sr. Trombetti parece passar, em conhecimentos poliglóticos, o ilustre cardeal. Ele consegue aprender uma língua em poucas semanas.

O prof. Richet, no Congresso Internacional de Psicologia de Paris, apresentou uma criança, que sem saber ler nem conhecer música, aos 3 anos de idade, improvisava vários trechos musicais muito interessantes.

George Stephenson, o inventor da locomotiva a vapor, nunca entrou numa escola. Aprendeu a ler e a escrever já na maturidade.

Donde teriam vindo esses conhecimentos?

A hereditariedade não pode explicar o gênio. Nem sempre os pais inteligentes produzem filhos prodígios; nem os filhos prodígios são sempre nascidos de pais inteligentes.

Os filhos de Péricles, o grande Péricles, que deu nome a um século, eram dois tolos. E o de Cícero, de Carlos Magno, de Goethe, de Napoleão?

E quem eram os pais de Mozart, de Newton, de Shakespeare, de Dante?

Quem nos diz, ainda, a nós, que as pessoas só não recordam das vidas anteriores?

Lamartine, na sua viagem à Palestina, antes de chegar a certos lugares, descrevia-os como se já houvesse passado por eles. Era, no entanto, a primeira vez que os visitava.

São muitas as pessoas notáveis que declaram parecer-lhes ter vivido uma outra vida, de cujos episódios se recordam.

É muito comum, em algumas crianças, ouvi-las dizer que já viveram em outras regiões, que já tiveram outros pais, que já possuíram outro nome.

Tem-se mesmo procurado verificar se o que elas dizem é verdadeiro, quando mencionam nomes e circunstâncias que ninguém conhece, e, por várias vezes, conseguiu-se averiguar que tudo era de exatidão surpreendente.

Enfim, os livros sagrados nos falam dessas vidas sucessivas, doutrina que já vem de remota antiguidade.

Virgílio nos diz que a alma, mergulhando no Letes; perde a lembrança de suas existências passadas.

Assim é. E feliz daquele que, mesmo nesta vida, pode mergulhar no Letes do esquecimento, e assim amortecer na memória os dias que mal empregou, as injustiças que praticou, as más doutrinas que pregou, o que ruim aconselhou, todas as maldades que engendrou.

Feliz seria se tudo pudesse esquecer, como nos esquecemos dos fatos de uma existência para outra.

Mas a voz da consciência nos acompanha às portas da morte e mesmo depois da morte, até que um arrependimento profundo a faça calar. Transpomos, então, de novo o espaço, acalentados pela esperança da redenção e mergulhamos de novo no Letes da vida, onde vimos saldar as nossas contas, sem o peso temível das recordações do passado.

É essa a Lei.

Carlos Imbassahy
Revista Reformador Jan.1924 - FEB

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Recorte Revista Reformador Jan. 1924.