sábado, 29 de agosto de 2026

Motivos de sofrimentos

Motivos de sofrimentos

Joanna de Ângelis



Na busca incessante do prazer, o homem transfere-se, exteriormente, de uma para outra sensação, sem dar-se conta de que o desequilíbrio gerador de ansiedade é responsável pelo sofrimento que o aturde, ameaçando-o de desespero cruel. Enquanto não se resolva por selecionar os valores reais daqueles aos quais atribui significado e que são apenas fogos-fátuos, terá dificuldade em afirmar-se e seguir uma diretriz propiciadora de paz.

Vivendo sob a injunção de uma máquina, que lhe impõe necessidades a serem atendidas e o predispõe a outras falsas perturbadoras, ele opta pelas últimas, que são produto das sensações do ego dominador, empurrando-o para as aspirações mais grosseiras, em detrimento daqueloutras sutis e enobrecedoras, que adquirem resistência na renúncia, no esforço elevado, na abnegação, no cultivo da vida interior, no domínio da matéria pelo Espírito.

O corpo deve ser considerado um instrumento transitório para o ser eterno, temporariamente um santuário, em face da finalidade edificante de propiciar à alma a sua ascensão, mediante as experiências iluminativas que faculta, nos aspectos moral, espiritual, intelectual, pelo exercício das virtudes que devem ser postas em prática, e jamais para atendimento das sensações que lhe caracterizam a constituição
molecular.

Certamente, aqui não cabe também o comportamento asceta, alienador, que fomenta a fuga da realidade aparente, porquanto, o importante é a vida mental modeladora da física. Pode-se mudar de lugar sem alterar-se a conduta, vivendo-se um estado exterior e outro íntimo. Pela falta de sintonia entre as duas formas de vida, surge a desagregação do indivíduo, com aparecimento de neuroses e psicoses devastadoras, impondo sofrimentos que poderiam ser evitados, caso se permitisse uma melhor compreensão das finalidades existenciais.

O exame racional e lúcido das necessidades legítimas faculta o direcionamento saudável, com as compensações da harmonia íntima e do equilíbrio emocional.

A ambição desmedida pelas coisas, divertimentos e gozos nunca preenche os espaços do prazer, pelo contrário, frustra aqueles que lhe tombam nas armadilhas.

Há indivíduos que dispõem de somas consideráveis, prestígio social, fama e inteligência, graças aos quais adquirem o que lhes apraz, viajam para onde desejam, relacionam-se com as mais diferentes pessoas e, não obstante, são atormentados pelo vazio, pelo tédio, pela insatisfação, fortes causas de sofrimento.

Invariavelmente colocam os acontecimentos e interesses fora de sua realidade, no mundo exterior, passando a considerá-los a fonte dos sofrimentos ou dos gozos, conforme conseguem fruí-los ou não. Todavia, a questão é mais profunda e pertinente à sua vida íntima. Não havendo um real significado interior, o aparente sentido que demonstram perde-se tão logo sejam conseguidos. Nisso reside a maior soma de frustrações e de insatisfações que causam sofrimentos.

Algo vale somente quando inspira o mesmo sentido para todas as pessoas, que projetam as suas necessidades íntimas e aspirações legítimas na sua conquista.

Os lugares belos, as cidades ricas e cosmopolitas que a uns indivíduos causam impacto, provocando o desejo incomum de aí ficarem, noutros despertam mal-estar, desconforto e desagrado. Ilhas paradisíacas e refúgios de oração que a uns fascinam, a outros causam sensações desencontradas, angústias e desesperos insuportáveis. Vestuários luxuosos e joias cobiçadas, que aumentam a cupidez em alguns, noutros não conseguem a sensibilização, não lhes geram qualquer interesse, nem qualquer sofrimento, por não possuí-los.

A busca da realidade, do Eu, deve partir de uma análise profunda e interna das necessidades legítimas da vida, jamais da preferência de adornos, objetos e situações, que destacam o ego e perturbam-no, tornando-o jactancioso, prepotente ou, na sua falta, magoado, ressentido, receoso...

Primeiro, é necessário adquirir um estado de espírito de paz, para passar por tudo sem ater-se a nada.

A chama que clareia exteriormente projeta luz, mas faz sombra, enquanto a que se manifesta do interior, irradia-se por igual em todas as direções, sem gerar qualquer escuridão.

A mente e o corpo susceptíveis à dor pela posse ou perda das coisas externas sempre atravessarão largos períodos de sofrimentos, transferindo-se de uma para outra forma de sofrimento, sem conseguir a libertação. Essa ocorre quando o homem se esvazia de ambição, instalando a abnegação no íntimo e superando os desejos.

O ato de querer (desejar para si, manifestando apego) é fator prenunciador de perda (transferência para outrem, porque o que se detém se deve, não se possui), assim suscitando o domínio responsável pelas sensações de ansiedade, insegurança, medo, que são geradores de sofrimentos.

O autoconhecimento coopera para que se possa discernir em torno do que é útil ou supérfluo, indispensável ou secundário à vida feliz.

As conquistas dispensáveis pesam na economia emocional e passam a constituir preocupação que desvia a mente das metas que deve perseguir.

Jesus afirmou com sabedoria que o “Filho do Homem não possuía uma pedra para reclinar a cabeça”, embora “as aves dos céus, as serpentes e feras tivessem ninhos e covis”, demonstrando o Seu desapego total a todas as coisas que sobrecarregam a criatura de tensão, de inquietação.

A um jovem que O queria seguir, Ele esclareceu que uma coisa lhe faltava: “Vende tudo e dá aos pobres”. Ele, que afirmava ser justo, cumpridor das leis, permanecia, todavia, envolvido, perdido nas quinquilharias do mundo a que se atava... E ele não O seguiu.

É muito difícil liberar-se dos atavismos: pertences e hábitos que se impregnam ao comportamento, passando a constituir uma nova natureza, a predominante. Sob o fardo dessas dependências, o ser não logra ver a luz, discernir a meta, libertar-se para encontrar-se.

Confunde a paz com a tranquilidade dos recursos que possui, dos quais aufere conforto, destaque social; através dos quais desperta inveja, podendo perdê-los, de um para outro momento, na existência física, em razão das normais vicissitudes que a todos surpreendem, como da compulsória pela morte, que obriga a deixar tudo, nem sempre facultando a libertação, desde que o tormento prossegue além das vibrações orgânicas...

O sofrimento deve ser superado pelo amor, pela meditação, pela compreensão da sua presença na vida dos seres, fator de progresso, necessidade de reeducação, mecanismo da evolução que é, e que permanece nos indivíduos que discernem e pensam por eleição deles mesmos, já que a meta da reencarnação é a de lograr a vitória sobre ele.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Plenitude
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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Rogativa do estômago

Rogativa do estômago

André Luiz

1 – Sou a porta de sua sustentação.

Conserve-me limpo.

2 – Posso trabalhar com segurança.

Não me incline à desordem.

3 – Muita vez clama você contra a carestia.

E despende somas consideráveis para desajustar-me as funções e conturbar-me os serviços.

4 – Não me encha de excessos.

Carregando peso desnecessário, é possível venhamos a cair hoje mesmo.

5 – Não me faça depósito de condimento demasiado.

Obedecendo às leis orgânicas, transmitirei ao seu próprio sangue os venenos que você me impuser.

6 – Não me dê bebidas alcoólicas.

Se você fizer isso, não garantirei sua própria cabeça.

7 – Rogo a você afastar-me de todo entorpecente, a não ser por ocasião de tratamentos excepcionais.

Pequena drágea para repouso inconveniente pode, em verdade, aproximar-nos da morte.

8 – Não desejo e nem posso alimentar-me exclusivamente com recursos celestes.

Peço apenas a você discernimento e equilíbrio.

9 – Governe-me contra as sugestões da mesa festiva, mesmo nos mais simples prazeres familiares.

Tenho comigo a chave de sua própria harmonia.

10 – Não me diga que morrerá de fome porque não disponha de mesa lauta.

Por amor de Deus, não olvide que a maior parte das enfermidades vem do prato abundante e que nós não vivemos para comer, mas comemos simplesmente para viver.

(Em referência a O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. XIII / Item 8.)

André Luiz do livro: O Espírito da Verdade
 de Chico Xavier e Waldo Vieira (Espíritos Diversos)

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Holocausto pela verdade

Holocausto pela verdade

Vianna de Carvalho


Imagem gerada por IA.

As ideias revolucionárias de John Wyclife eram uma claridade esfuziante na terrível noite medieval. O eminente sacerdote e teólogo inglês havia compreendido que não é necessário qualquer intermediário a fim de a criatura alcançar o seu Criador. A Doutrina crista, que luzia na palavra de Jesus, era muito diferente daquela que se ensinava nos púlpitos das igrejas e que se vivia na intimidade palaciana, onde se homiziavam em luxo e poder aqueles que se diziam representantes do Mestre sem teto, despojado de quase tudo, mas enriquecido de Deus.

Foi o primeiro grande clarão que deveria incendiar o pensamento do futuro, abrindo os espaços para o amanhecer da cultura e da dignidade humana, ao lado das grandes conquistas da ciência, da filosofia e da arte.

A Boêmia então se encontrava sob a governança do imperador Sigismundo que negociava com a Igreja de Roma a segurança do trono. Todo o Império Tcheco-eslovaco obedecia cegamente à religião dominante qual acontecia praticamente com todo o mundo ocidental.

O tribunal da Inquisição levava à fogueira milhares de vidas em toda parte. Era o braço forte da doutrina católica estrangulando todos quantos se lhe opunham, realmente ou não, ameaçando igualmente o poder civil, que se lhe submetia sem qualquer disfarce ante a ameaça da ignominiosa excomunhão.

O terror dominava as mentes e a traição estendia suas malhas por toda parte. Denúncias covardes eram acolhidas como serviços à Fé, embora não ocultassem o interesse nos espólios das suas vítimas. A intriga abraçava a hediondez e o mundo respirava os tóxicos morbíficos do ódio e do temor.

Nesse clima de incomparável desconforto moral, o eminente pregador Jan Huss tomou conhecimento da revolução ideológica wyclifeana e por ela deixou-se tocar. Interiormente, também sentia a decadência da religião e a distância que existia entre os seus teólogos e o conteúdo cristalino do Evangelho, conforme Jesus o pregara às multidões que O buscavam. Ao ler as elucubrações e propostas novas, deixou-se arrebatar, e começou a expô-las abertamente, chocando os corifeus do poder e escandalizando a hipocrisia, enquanto as multidões esfaimadas na busca da verdade, acorriam pressurosas para escutá-lo na igreja que o tornara famoso. A cada domingo, a sua voz harmônica, expressando o seu pensamento inspirado que deveria preparar o futuro, atraía maior número de ouvintes ávidos que acorriam de toda parte, da cidade como do campo, incomodando as autoridades invejosas e prepotentes.

Ademais, explicava Huss, que a Doutrina deveria ser exposta no idioma nacional, a fim de que todos tivessem acesso aos ensinamentos libertadores de Jesus, o que mais preocupava os dominadores religiosos, que se ocultavam na ignorância das verdades evangélicas para intimidar e impor-se.

Desenhava-se a Nova Era pela palavra do missionário que, sem receio, invectivava contra o abuso do comportamento, exigindo o retorno à simplicidade, à fidelidade aos dias messiânicos em que vivera o Senhor.

Como primeira medida, os seus inimigos proibiram-no de pregar na igreja, expulsando-o para pequena paróquia nos arredores de Praga, o que levou as multidões fascinadas a seguirem o seu pastor intimorato.

Não podendo silenciá-lo com a medida arbitrária, fecharam todas as igrejas, impedindo que os fiéis tivessem onde e como se comunicar com Deus, apavorando-os.

As acusações e impropérios dos fracos dominadores não foram suficientes para silenciá-lo, quando a terrível ameaça de excomunhão pairou no ar.

Considerando a gravidade da doutrina que pregava, aquela que trazia Jesus de volta às almas aflitas, o imperador convocou o sínodo de Constança, para permitir ao pregador defender-se das graves acusações de heresia.

Informado da atitude imperial e convidado por Sigismundo, que o conhecia desde a Universidade e lhe admirava os ensinamentos, ofereceu-se para ir a Constança apresentar a defesa e expor que jamais se afastara das Escrituras.

Tratava-se de uma aventura muito arriscada e que poderia culminar em traição e morte inevitável.

O missionário porém, confiante na Verdade, escudado por dois cavaleiros que lhe enviara o Imperador, partiu de Praga entre lágrimas dos seus paroquianos e seguiu na direção do holocausto que o esperava.
Compreendendo a manobra dos inimigos do Bem, houvera recorrido ao auxílio de Sigismundo, que lhe era simpático às ideias, dele conseguindo um salvo-conduto, a fim de não ser molestado, podendo defender-se em liberdade.
A construção da verdade no mundo, porém, sempre se fez a esforço hercúleo e sob o elevado preço do sacrifício.
Todos aqueles que se atreveram a erguer a bandeira do idealismo transformador, experimentaram o escárnio e a perseguição gratuita dos seus coevos, que voejavam como abutres vorazes sobre o cadáver das multidões que se lhes submetiam inermes.
Eles, porém, nunca temeram a ignorância nem a crueldade, a ingratidão nem o holocausto, impostos por aqueles que acreditavam na vitória permanente da sombra e na sua imortalidade orgânica, na suposição falsa de que a enfermidade, a velhice ou a morte nunca os alcançariam, demonstrando-lhes a fragilidade física e a transitoriedade de todas as conquistas terrenas.
Esses hediondos promotores do crime dominaram gerações, que submeteram ao talante da sua perversidade, supondo-se inatingíveis, mas sucumbindo, logo
mais, ao peso dos desenganos, quando não da própria alucinação.
Ingênuos e confiantes, os expoentes do amor e do bem sempre se deixaram conduzir pela astúcia dos maus, salvadas raras exceções, por serem nobres e incapazes de trair ou enganar.
Chegando a Constança, o pregador de Husinec procurou o cardeal Antony para justificar-se, e após diálogo caloroso, que somente aumentou o ódio do adversá
rio, foi atirado ao cárcere infecto sem qualquer acusação formal.

O sínodo reuniu-se e começou a julgar o doutor de Praga, não lhe concedendo o direito de defesa.

Nas poucas vezes em que foi convocado, esteve sob os camartelos do ódio gratuito, não conseguindo expor suas ideias.

Coibido o imperador, ante a ameaça de excomunhão por estar defendendo um herege, esse, covardemente, anulou o documento, traindo o súdito que nele confiara, e deixando-o ao abandono, à própria sorte.

Foram inúteis os seus argumentos contra as artimanhas e soezes sofismas criados apelo cinismo e pelo fanatismo dos hábeis adversários, que o acusavam de ser discípulo do arquicondenado John Wyclife, sendo humilhado, destituído publicamente dos seus títulos, inclusive o de sacerdote, exposto ao ridículo público, e, por fim, condenado à fogueira...

Atado, mais tarde, ao poste infamante e acompanhando serenamente a farsa dos inimigos de Deus e da Humanidade, aguardou as chamas quase em êxtase, por constatar que seriam inúteis os esforços para silencias as vozes da verdade.

As suas obras igualmente seriam queimadas publicamente, a fim de que não ficassem vestígios dos seus ensinamentos para o futuro.

Acreditavam que fazendo arder nas chamas inclementes o idealista, apagariam as suas lembranças e destruiriam as suas ideias, o que jamais acontece, porque o martírio amplia a grandeza dos pensamentos daqueles que o experimentam.

Ao serem ateadas as labaredas, em um momento de percepção do futuro, ante o aturdimento dos tresloucados verdugos e as lagrimas daqueles que o admiravam, mas nada podiam fazer, exclamou:

- Vós hoje assais o pato (Huss, em tcheco). Um dia porém, virá um cisne de luz, que voará acima das vossas labaredas e essas não o alcançarão.

E enquanto enunciava com dificuldade uma Ave-Maria, conforme a fé que abraçava, não conseguiu terminá-la...

Era o triste e sombrio período medieval, na manhã de 7 de julho de 1414.

O seu holocausto, decorrente da sua mensagem, que já houvera tocado outro eminente teólogo, Jerônimo de Praga, que também foi preso ao vir defendê-lo, permaneceria vivo na palavra do extraordinário latinista, professor de grego, que o seguiria também na fogueira no ano imediato.

Nos séculos sucessivos vieram os vendavais da História e o pensamento iluminado de Lutero, de Zuinglio, de João Calvino, abriria as portas do porvir para a vivência do Evangelho livre da soberania romana...

Os seus adversários foram também consumidos pelo túmulo, vencidos pelas paixões a que se entregavam, enquanto ele, após a ressurreição gloriosa, passados quase quatrocentos anos, voltou à Terra, no momento em que outro clarão anunciava Novo Dia - a claridade da ciência que se libertara das masmorras religiosas - na indumentária de Hippolyte Léon Denizard Rivail, a 3 de outubro de 1804.

Mais tarde, adotando o pseudônimo de Allan Kardec, tornou-se o missionário do Consolador, assim restaurando a doutrina de Jesus que pôde ser confirmada pelo bisturi da investigação científica, pela óptica superior do pensamento filosófico e através do seu superior código de ética-moral, que é a do próprio Evangelho, vir a ser a Religião cósmica do amor, fundamentada, na lógica, afirmando que fe verdadeira, somente o é, aquela que pode enfrentar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade.

O progresso é inestancável e nada pode impedir-lhe a marcha. Toda tentativa de obstaculizar-lhe o avanço redunda em vá loucura, que cede lugar à realidade.

Apesar disso, ainda hoje se multiplicam os inimigos da Verdade e do Bem que, aferrados a conveniente materialismo, conspiram contra os idealistas que os ameaçam com os seus pensamentos libertários, buscando impedir-lhes o avanço.

O holocausto de todo missionário porém, transforma-se no combustível que irá sustentar as suas ideias e erguer continuadores que conseguirão implanta-las no mundo, ampliando os horizontes do progresso e abençoando o futuro.

Praga (República Tcheca), 03 de junho de 1998.

Vianna de Carvalho por Divaldo Franco do livro:
Luzes do Alvorecer

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Entre as rotas do mundo

Entre as rotas do mundo

Maria Celeste



Admira o trabalho do vento que desmancha a névoa a perambular no caminho...

Os raios caniculares do sol que alcatifam o horizonte, jorrando reverberações de ouro em chamas...

A leve poeira de pólen das flores que se eleva a dançar pelos ares fertilizando a campina em ondas de encantamento...

A brisa cantora, amansando as vagas espumosas e multicores no escachoar das catadupas, em sons dispersos...

O perfume que habita o seio da rosa ou que denuncia o fruto amadurecido...

As línguas de fogo que lambem o lixo informe, ao rufar das labaredas, em largo cortejo de esplendores...

A poalha de grânulos cintilantes da imensidade recheada de astros...

Em tudo isso, - criações que te não podem passar desapercebidas – há uma ideia básica que plasma, um pendor de bondade que provê, um toque de beleza que ameniza...

Tudo isso fala em amor, amor de Deus, - o Princípio da Caridade em todos os idiomas...

Quanto recebes da vida sem dependeres um só ceitil!

Tais espetáculos a Natureza oferece pelo contentamento maternal de ver-te feliz em seus dons inefáveis.

É o bem pelo próprio bem que Deus nos endereça.

É o bem, que se faz por simples prazer.

O Sol, o vento ou a água nada reclama.

Ensinam-nos a amar sem nada pedir; a amar sempre sem exigir cousa alguma.

Segue assim a Celeste Orientação entre as rotas do mundo.

Atende a todas as escudelas de pedintes, por onde passes, mas não te satisfaças apenas, com isso; o irmão comum é nosso próprio familiar.

Deixa que a emoção te tanja as fibras da alma em mil tonalidades de carinho, diante da eloquência de um sorriso infantil, da aflição de uma lágrima da velhice, da impetuosidade ou da incerteza de um olhar da juventude...

O exemplo é o mais poderoso imã do espírito.

A necessidade marcha em rodízio de vida em vida, de destino em destino.

O dinheiro e as posses do corpo, ao fim da viagem terrestre, são sempre quais punhados de lama e pó que tentamos reter debalde e que nos escapam, inapelavelmente, por entre os próprios dedos.

Aconchega em teu coração, os arroubos de fazer o bem pelo prazer que o bem te proporciona com a única ideia preconcebida; a de criar alegria para as criaturas de Deus e dar aos que te rodeiam pelo menos leve parcela de amor do Amor Infinito que Deus nos dá.

Maria Celeste do livro: Ideal Espírita
de Chico Xavier / Waldo Vieira

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