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terça-feira, 19 de maio de 2026

Os dois alforjes

Os dois alforjes

La Fontaine / Hammed


Imagem gerada por IA

"O QUE ESTÁ POR DENTRO É LANÇADO FORA."

As mentiras que mais nos causam danos e nos impedem o crescimento espiritual não são tanto as que verbalizamos, mas as que contamos inconscientemente para nós, aquelas que projetamos. - Hammed

 

OS DOIS ALFORJES

Um dia, Júpiter convocou todos os animais para comparecerem diante dele, a fim de que, comparando-se com os outros, cada animal reconhecesse o próprio defeito ou a própria limitação. Assim, Júpiter poderia corrigir as imperfeições.

E os animais, um a um, elogiavam a si próprios, gabavam-se de suas qualidades e só relatavam os defeitos alheios. O macaco, ao ser questionado se estava feliz com seu aspecto, respondeu:

- Mas claro que sim! Cabeça, tronco e membros, eu os tenho perfeitos. Em mim, praticamente, não acho defeitos. É pena que nem todo o mundo seja assim... - Os ursos, por exemplo, que deselegantes!

O urso veio em seguida, mas não se queixou de seu aspecto físico, até se gabou de seu porte. Fez críticas aos elefantes: orelhas demasiadamente grandes; caudas insignificantes. Animais grandalhões, sem graça e sem beleza.

Já o elefante pensa o oposto e se acha encantador; porém, a natureza exagerou, para o seu gosto, quanto à gordura da baleia.

A formiga, ao falar da larva, franze o rosto: - Que pequenez mais triste e feia!

Assim são os homens. É como se lhes tivessem colocado dois alforjes (duplo saco, ligado por uma faixa no meio (por onde se dobra), formando duas bolsas iguais; usado ao ombro ou no lombo nos animais, de forma que um lado fique oposto ao outro): no peito, o alforje com os males alheios, e nas costas, o - alforje com os próprios males. De tal modo que eles são cegos quanto aos próprios defeitos, mas enxergam com nitidez os defeitos dos outros.


"O QUE ESTÁ POR DENTRO É LANÇADO FORA"

Uma forma de evitar claramente que sensações, pensamentos, impulsos ou lembranças cheguem ao nosso consciente tem o nome de transferência ou projeção.

Projetar nossas ações e emoções nos outros, agindo como se elas não nos pertencessem, e recusar nosso mundo íntimo, não aceitando as coisas em nós como elas realmente são, pode se tornar um constante "acessório psicológico", um processo preferencial do ego.

O método para projetarmos nossa vida íntima em outra pessoa funciona de certa forma em duas etapas: negação e deslocamento.

Primeiro, um fato ou acontecimento que provoca um sentimento inadequado é negado, bloqueado do consciente e deslocado para o mundo externo. Tomemos por exemplo: um indivíduo que num determinado momento da vida teve um desentendimento com uma pessoa e desenvolve um sentimento de antipatia e aversão por ela pode, posteriormente, julgar que superou as diferenças e que aquele episódio é uma "página virada". No entanto, ele não consegue perceber que sua emoção pode ter sido inconscientemente projetada sob forma de uma suposta antipatia e aversão dessa pessoa por ele. O que estava dentro foi jogado para fora.

Uma vez que é atribuída a outras criaturas, a sensação de aversão é notada como completamente alheia, não nos pertence, não nos diz respeito. É, simplesmente, de outrem; jamais nossa. Nós somos bons e perdoamos, mas os outros são maus, rancorosos e não perdoam.

"Assim são os homens. É como se lhes tivessem colocado dois alforjes: no peito, o alforje com os males alheios, e nas costas, o alforje com os próprios males. De tal modo que eles são cegos quanto aos próprios defeitos, mas enxergam com nitidez os defeitos dos outros."

É comum encontrar no dia a dia indivíduos que apresentam comportamento idêntico. Ao invés de se dedicarem à tarefa de conscientização da própria vida íntima, evidenciam o argueiro no olho do vizinho e, por consequência, potencializam a trave que lhes obscurece a visão do mundo anterior.

As mentiras que mais nos causam danos e nos impedem o crescimento espiritual não são tanto as que verbalizamos, mas as que contamos inconscientemente para nós, aquelas que projetamos.

Vivemos ilusões quando desfiguramos a realidade de nossa experiência ou a verdade de nosso ser e adotamos um "papel" que não corresponde à verdade. Apresentamos aqui o que em linguagem informal denominamos "máscaras": são elas que turvam nossa verdadeira realidade interior; é delas que nos servimos para lançar fora o que está em nossa intimidade.

Projetamos e interpretamos papéis quando nossas reivindicações internas não são admitidas, ou são contrárias àquelas que estão sendo solicitadas pelo mundo externo.

Projetamos e interpretamos "scripts" quando nossas exigências pulsionais (processos psíquicos fortemente emocionais, impulsivos e basicamente irracionais) entram em choque com as regras e normas sociais, passando do campo da consciência para o da inconsciência.

Representamos como se fôssemos verdadeiros atores, interpretando uma personagem no palco ou no cinema, quando nos colocamos diante de alguém como sendo mais do que somos; quando dissimulamos um amor ou um desinteresse que não sentimos; quando nos mostramos alegres, e na realidade estamos tristes; quando aparentamos uma frieza que não experimentamos; quando escondemos e mantemos em segredo tudo aquilo que mais queremos e desejamos; quando aderimos a associações de caráter recreativo, cultural, artístico, religioso, político, social, etc., para obter benesses que não merecemos, recebendo elogios e reconhecimento.

O crescimento pessoal exige, acima de tudo, coerência, o que significa que o si-mesmo (Self em inglês) deve estar numa relação harmônica entre o que se sente e o que se vive; deve haver uma identidade ou semelhança entre as partes de um todo.

Por que falsificamos nossa realidade? Afinal, o que conseguimos com isso? Danificamos nossa própria intimidade e atravessamos toda uma existência com a angustiante sensação de sermos impostores ou farsantes. Além disso, vivemos aprisionados à angústia e ao medo de um dia descobrirem quem realmente somos.

O alvorecer do despertar manifesta-se no ser amadurecido quando a luz da consciência ilumina não apenas as áreas externas, mas, acima de tudo, as internas. Muitos indivíduos se satisfazem apenas por possuírem os olhos físicos, que lhes oferecem uma visão parcial ou incompleta da vida. Mas para vermos as coisas tais como são, é preciso desenvolvermos a acuidade do olho que esclarece, ilumina e guia - aquele voltado para o mundo íntimo. A partir daí, cessamos de projetar de forma contínua.

Como todos os nossos companheiros de viagem transcendental, desejamos preencher ou compensar o vazio existencial que sentimos por não vivermos a essencialidade de nosso ser.

(...) Deus suprirá todas as suas necessidades de acordo com as riquezas de sua glória ..." (Filipenses, 4:19)

Nossos anseios de ser e de possuir alguma coisa são, no fundo, a compensação da falta de não termos quase nenhuma consciência do que somos e nem para que fomos criados.


CONCEITOS-CHAVE

A - NEGAÇÃO

É a recusa de aceitar as coisas como são. Na negação, embora os fatos e as circunstâncias não estejam completamente apagados do consciente, como acontece na repressão, eles estão recolocados de tal forma que distorcem ou encobrem a realidade.


B - DESLOCAMENTO

É o mecanismo psicológico de defesa através do qual a pessoa substitui a finalidade inicial de uma pulsão por outra diferente e socialmente menos desastrosa. Durante uma discussão, por exemplo, a pessoa tem um forte impulso em esmurrar a outra; contudo, acaba deslocando tal ímpeto para uma garrafa, que ela quebra sobre a mesa. Também pode ser qualificado como uma ideia ou vivência que são trazidas simbolicamente na mente por uma outra ideia ou vivência que estejam emocionalmente associadas. Por exemplo: uma criatura que teve uma experiência amorosa desagradável com alguém no passado reage, no presente, com desprezo ou aversão por todos aqueles que se aproximam dela afetivamente.


C - SI-MESMO

Sustenta Carl Jung que trazemos em nosso íntimo um arquétipo principal, que ele denominou si-mesmo.

Segundo as teorias junguianas, "o si-mesmo não é apenas o centro, mas também toda a circunferência que contém em si tanto o consciente quanto o inconsciente". Jung afirmava que o "Self" preside a todo o governo psíquico, é uma autoridade suprema e é considerado a unificação, a reconciliação, o equilíbrio dinâmico, um fator interno de orientação do mais alto valor.


MORAL DA HISTÓRIA:

Sempre que distinguimos alguma coisa fora de nós e a reprovamos em demasia como sendo perniciosa, perigosa, pervertida, imoral, e assim por diante, é provável que ela represente conteúdos existentes em nós mesmos, sem que os reconheçamos como possíveis características nossas. A ameaça é tratada como se fosse uma força externa, e não interna. Se afirmarmos categoricamente "todos são desonestos", estamos, na verdade, tentando projetar nos outros nossas próprias tendências. Ou então, ao dizermos "tudo gira em torno de uma só coisa: sexo", podemos estar direcionando nossa disposição interna nas demais criaturas, por estarmos pessoalmente insatisfeitos. Muitas vezes dizemos "é inexplicável como aquela pessoa não gosta de mim", quando, na realidade, somos nós que não gostamos dela, sem nos darmos conta.


REFLEXÕES SOBRE ESTA FÁBULA E O EVANGELHO

"Um dos defeitos da Humanidade é ver o mal de outrem antes de ver o que está em nós. Para se julgar a si mesmo, seria preciso poder se olhar num espelho, transportar-se, de alguma sorte, para fora de si e se considerar como uma outra pessoa, em se perguntando: Que pensaria eu se visse alguém fazendo o que faço?" (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. X, item 10)

"Hipócrita! tira primeiro a trave do teu olho; e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão." (Mateus, 7:5.)

"DEPLORAMOS COM FACILIDADE OS DEFEITOS ALHEIOS, MAS RARAMENTE NOS SERVIMOS DELES PARA CORRIGIR OS NOSSOS." LA ROCHEFOUCAULD

Hammed por Francisco do Espírito Santo Neto do livro:
Fábulas de La Fontaine - Um Estudo do Comportamento Humano
Hammed: A partir de uma coletânea de fábulas de La Fontaine, que ilustram sempre um preceito moral, o espírito Hammed fez ponte na direção da Doutrina Espírita com o objetivo de levar a todos uma reflexão dos porquês da diversidade comportamental dos indivíduos.
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- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

A raposa e as uvas

A raposa e as uvas

La Fontaine / Hammed



Tornar aceitável o inaceitável
A racionalização é um dispositivo da mente que transforma vontades ou anseios em fatos fictícios supostamente reais. É quando usamos a inteligência para negar a verdade; é um procedimento íntimo que nos torna desonestos com nós próprios."    -     Hammed


A fábula 


A RAPOSA E AS UVAS

Contam que certa raposa astuta, quase morta de fome, sem eira nem beira, andando à caça de manhã, passou por uma parreira carregada de cachos de uva bem maduros, todos pendentes na grade que oferecia suporte à videira.

Mas eles estavam altos demais e a raposa não podia alcançá-los. De bom grado ela os trituraria, mas sem lhes poder tocar disse:

- Estão verdes... já vi que são azedas e duras. Só os cães podem pegá-las.

E foi embora a raposa, deixando para trás os cachos de uva, madurinhos e doces, prontos para quem por ali passasse e pudesse alcançá-los.

Tornar aceitável o inaceitável

Uma raposa com muita fome sai à caça de alimentos. Por sorte, vê uma parreira carregada de belos cachos de uva maduros. Apressa-se e chega à videira para alcançar as frutas. Todo o impulso interior da raposa está direcionado instintivamente para o ataque repentino.

Inicia-se, então, a movimentação e, depois de várias tentativas, ela não consegue apanhar nem sequer um dos cachos. Reúne-se à fome instintiva uma estranha e nova sensação: a decepção, o desapontamento de não poder atender à sua necessidade básica. As sucessivas investidas são em vão, e uma certa atmosfera de incapacidade começa infundir-se no seu mundo mental.

Nesse determinado momento, a raposa, frustrada, pensa, reflete sobre o seu fracasso. Ela não quer ser considerada um animal falido ou derrotado. A propósito, uma crise existencial provoca mais danos internos do que uma necessidade biológica não atendida.

A princípio, a busca de saciar a fome estava totalmente circunscrita ao "estado físico"; depois, a ocorrência leva a raposa a entrar em contato com um conteúdo agravante e dificultoso que atingirá sua essencialidade.

Antes uma façanha extraordinária; agora uma sensação de desestima e rejeição de si mesma. Que futuro a esperava daí em diante?

Ela não podia colocar a razão contradizendo os fatos reais. De agora em diante, estava em jogo a incoerência, a falta de nexo ou de lógica em sua casa íntima.

Mas, quando tudo parecia estar perdido, eis que a raposa põe as cartas na mesa, dá um "xeque-mate" e diz para si mesma: "Estão verdes... já vi que são azedas e duras. Só os cães podem pegá-las." Seu sistema mental precisava adaptar-se diante da frustrante e dura realidade, e daí tirou uma vantagem: fez uma afirmação contrária ao fato real, contou uma mentira para si mesma.

Admirável mentira (racionalização), uma conclusão que não condiz com a realidade, mas salva a estrutura íntima da raposa.

Racionalizar é inventar para nós mesmos uma história falsa. É um procedimento psicológico que permite a negação dos reais motivos, cobrindo as sensações desagradáveis que vivenciamos com justificativas equivalentes ou histórias similares.

Do mesmo modo que a raposa inventou desculpas e álibis convincentes para manter o autorrespeito, nós também, os homens, buscamos "boas razões", ainda que falsas, para nossas atitudes e fracassos; e criamos "explicações" altamente descaracterizadas para justificar nossa frustração.

Muitos racionalizam dizendo que falam mal da vida dos outros porque metade do mundo maldiz a outra metade. Na realidade, o que está subentendido nessa atitude é que gostamos de difamar ou desvalorizar as pessoas, porque quando fazemos isso nós nos sentimos pretensamente melhores, mais eficientes, mais capazes ou superiores perante os outros. Aí está a intencionalidade inconsciente ou não dos maledicentes.

A racionalização é um dispositivo da mente que transforma vontades ou anseios em fatos fictícios supostamente reais. É quando usamos a inteligência para negar a verdade; é um procedimento íntimo que nos torna desonestos com nós próprios. E, se não podemos ser honestos com nós mesmos, com certeza também não podemos ser honestos com nenhum outro indivíduo. Consequentemente, há uma ruptura ou violação no caráter da criatura. É uma forma de não expandir a consciência, e sim de desestruturar a individualidade do ser humano.

Conceitos-chave

Frustração

É a sensação de quem estabelece altos padrões e metas existenciais superlativas, mas não está preparado para aceitá-los com serenidade quando os resultados não atingem de imediato o alvo desejado.

Racionalização

É um mecanismo de defesa por meio do qual se utilizam motivos sensatos e racionais para pensamentos e ações inaceitáveis. Esse mesmo processo é o que faz uma pessoa apresentar uma explicação logicamente consistente ou eticamente aceitável para uma atitude, ação ou sentimento que lhe causa sofrimento moral.

Disfarça os verdadeiros motivos tornando o inaceitável mais aceitável.

Expansão da consciência

A consciência não exclui nenhuma conquista anterior, pois ela se amplia quando se integram todos os conhecimentos adquiridos para além dos limites conhecidos. Provoca experiências transformadoras, intensas e radicais na criatura, quanto à sua visão de mundo e à sua forma de viver. Ela ocorre em consequência de uma decisão do indivíduo e o leva ao crescimento espiritual e ao despertar dos potenciais inconscientes, tais como sabedoria, aptidões, capacidades inatas.

Moral da história

Um julgamento inadequado pode ser uma forma de objetivar e de compensar nossos fracassos. Objetivar é um processo pelo qual o ser humano experimenta uma alienação de real natureza subjetiva, projetando para fora e construindo uma suposta realidade externa. Uma objetivação pode ser salvadora, como a raposa da fábula dizendo para si mesma "estão verdes", quando uvas maduras e apetitosas estavam fora de seu alcance.

As objetivações são, portanto, formas que permitem resignificar um fato mediante uma certa afirmação ou conduta que compensa uma frustração. É comum encontrar entre os homens aqueles que, tais qual a raposa, quando não conseguem realizar seus negócios, acusam as circunstâncias, ou mesmo, por não atingirem um intento, tendem a denegri-lo, diminuindo dessa forma a gravidade de seu insucesso.

Reflexões sobre esta fábula e o Evangelho
"Não basta que dos lábios gotejem leite e mel; se o coração nada tem com isso, há hipocrisia. Aquele cuja afabilidade e doçura não são fingidas, nunca se contradiz; é o mesmo diante do mundo e na intimidade; ele sabe, aliás, que, se pode enganar os homens pelas aparências, não pode enganar a Deus." (ESE, cap. IX, item 6)
"Quem pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Cada um examine o seu procedimento. Então poderá gloriar-se do que lhe pertence e não do que pertence a outro. Pois cada um deve carregar o seu próprio fardo." (Gálatas, 6:3 a 5.)
"O interesse fala toda espécie de língua e faz toda espécies de papel, mesmo do desinteressado." - La Rochefoucauld
Hammed por Francisco do Espírito Santo Neto do livro:
Fábulas de La Fontaine - Um Estudo do Comportamento Humano
Hammed: A partir de uma coletânea de fábulas de La Fontaine, que ilustram sempre um preceito moral, o espírito Hammed fez ponte na direção da Doutrina Espírita com o objetivo de levar a todos uma reflexão dos porquês da diversidade comportamental dos indivíduos.
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