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quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Um caso de identidade relatado por Daniel Dunglas Home

Um caso de identidade relatado por Daniel Dunglas Home

Carlos Bernardo Loureiro

Relato que o extraordinário médium Daniel Dunglas Home incluiu na sua obra: 
LIFE AND MISSION.

Quando eu residia em Springfield (Inglaterra), tive uma grave moléstia que me reteve ao leito durante algum tempo.

Um dia, na ocasião em que o médico se retirava, um Espírito me deu esta comunicação: 
- Tomai o trem da tarde para Hartford, pois trata-se de um negócio importante para o progresso da causa; não repliqueis, fazei simplesmente o que vos dizemos.
Dei conhecimento à minha família dessa extraordinária ordem, e, apesar do meu estado de fraqueza, tomei o trem, ignorando completamente o que eu ia fazer e o fim de tal viagem.

Ao chegar a Hartford, veio ao meu encontro um estrangeiro, que me disse: 

- Só tive ocasião de vos ver uma única vez, mas creio que falo com o Sr. Home. 

Respondi-lhe afirmativamente, acrescentando que eu chegava a Hartford sem nenhuma ideia do que se queria da minha pessoa. 

- É engraçado! Replicou o meu interlocutor:

- Eu vinha exatamente tomar o trem para vos ir procurar em Springfield. 

Explicou-se ele, então, que uma família influente bem conhecida, me pedia para fazer-lhe uma visita e prestar o meu concurso às investigações que ela desejava realizar sobre o Espiritismo. O fim da viagem começava, pois, a desenhar-se, mas o mistério permanecia ainda velado.

Agradável trajeto em carruagem conduziu-nos logo ao nosso destino. O dono da casa, o Sr. Ward Cheney, que veio receber-me à porta, saudou-me, dizendo que não esperava que eu chegasse senão no dia seguinte pela manhã.

Logo que entrei no vestíbulo, a minha atenção foi atraída por um ruído semelhante ao farfalhar de um pesado vestido de seda. Olhei ao redor de mim e fiquei surpreendido de não ver ninguém; passamos, então, a uma das salas e não me preocupei mais com esse incidente.

Pouco depois, vi no vestíbulo uma velha baixa, com pesado vestido de seda escura, a qual parecia muito preocupada. Aí estava a explicação desse mistério; eu tinha ouvido, sem ver, essa pessoa que ia e vinha pela casa.

Repetindo-se o farfalhar do vestido, o Sr. Cheney, que o tinha ouvido ao mesmo tempo que eu, perguntou-me de onde vinha esse ruído. 

- Ora esta! Respondi, é do vestido de seda escura dessa velha que vejo no vestíbulo. 

- Quem seria essa pessoa? 

A aparição era, efetivamente, tão perfeita que eu não duvidava que fosse uma criatura em carne e osso. Como o resto da família chegasse naquele instante, as apresentações impediram o Sr. Cheney de me responder e, naquele momento, eu não tive mais ocasião de obter informações.

Tendo sido servido o jantar, fiquei admirado de não ver, à mesa, a senhora de vestido de seda; esse fato despertou a minha curiosidade e essa senhora tornou-se logo para mim um objeto de preocupação.

Quando todos deixaram a sala de jantar, ouvi de novo o farfalhar do vestido de seda e, também, uma voz disse: 
- Eu estou aborrecida porque colocaram um caixão sobre o meu; não quero que ele fique ali.
Tendo eu dado parte dessa comunicação ao dono da casa e à sua mulher, eles se olharam com admiração, e, depois, o Sr. Cheney rompendo o silêncio, me disse que reconhecia perfeitamente esse vestido, a sua cor e mesmo o seu gênero de seda espessa, mas que o fato do caixão colocado sobre o dela era um absurdo. Essa resposta me tornou perplexo; eu não sabia mais o que dizer.

Uma hora depois, ouvi de repente a mesma voz pronunciar exatamente as mesmas palavras, porém acrescentando o seguinte: 
- Além disso, Seth não tinha o direito de cortar essa árvore.
Tendo narrado ao dono da casa essa nova comunicação, ele ficou muito inquieto. 

- Há em tudo isso, disse-me ele, alguma coisa bem extraordinária. Meu irmão Seth cortou uma árvore que embaraçava a vista.

Dissemos-lhe que, se a pessoa — que ora pretende falar-nos — fosse viva, não consentiria no corte dessa árvore. Quanto ao resto da comunicação afirmo que nada tem de racional.

A mesma comunicação me foi dada à noite pela terceira vez, e me expus de novo a um desmentido formal. Eu estava sob o golpe de uma impressão muito penosa, quando me recolhi ao quarto, pois nunca tinha recebido comunicação mentirosa, e mesmo admitindo o bom senso do seu agravo, semelhante insistência da parte de um Espírito de não querer que um outro caixão fosse colocado sobre o seu, me parecia absolutamente ridícula.

Pela manhã, manifestei ao dono da casa o meu profundo desapontamento, respondendo-me ele que também estava muito sentido, mas ia provar-me que esse Espírito — se realmente era aquele que dizia ser — estava perfeitamente enganado. 

- Vamos até o jazigo de minha família, acrescentou, e vereis que, embora tivéssemos querido, não fora possível colocar um outro caixão sobre o dela.

Logo que chegamos ao cemitério, fomos procurar o coveiro que guardava a chave do jazigo. Na ocasião em que ele ia abrir a porta, pareceu refletir e disse com um ar um tanto embaraçado, voltando-se para o Sr. Cheney: 

- Devo participar a V. S. que, como restava justamente um pequeno espaço em cima do caixão da Sra..., coloquei ali o caixãozinho do filho de L... Penso que isso não tem importância, mas talvez fora melhor que vos tivesse prevenido disso. Ele está lá desde ontem apenas.

- Nunca hei de esquecer o olhar que me lançou o Sr. Cheney, quando me disse, voltando-se para mim: 

- Meu Deus, é pois uma verdade!

A noite, o Espírito manifestou-se de novo e disse: 
- Não acrediteis que eu ligue a menor importância ao caixão colocado sobre o meu; pode ser colocada até uma pilha de caixões, com isso não me incomodo. O meu único fim era dar, de uma vez para sempre, prova da minha IDENTIDADE, de vos levar à convicção absoluta de que sou sempre um ser vivo, a mesma. E... que sempre fui.
Dos Raps à Comunicação Instrumental
Carlos Bernardo Loureiro
Este caso também se encontra registrado na obra que se publicou, no Brasil (FEB), sob o título “FATOS ESPÍRITAS” traduzido por Oscar D'Argonnel que reuniu trabalhos escritos pelo sábio inglês William Crookes, durante os anos de 1870-1873, sobre fenômenos espíritas. Esses trabalhos foram publicados, inicialmente, no “Quartely Journal of Science”, de janeiro de 1874.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Luzes e Sombras do Espiritualismo

Luzes e Sombras do Espiritualismo

Hermínio C. Miranda



A prática do Espiritismo, ou seja, a participação em trabalhos mediúnicos, não desobriga o espírita do estudo da doutrina; pelo contrário, é aí, mais do que nunca, que se faz necessário o exame contínuo e repetido das questões doutrinárias que explicam e interpretam a fenomenologia, que nos orientam no meio da extraordinária multiplicidade de caminhos que vemos diante de nós. Nunca serão suficientemente repetidos esses conceitos. É bom que, de tempos em tempos, a gente repasse os fundamentos em que se apoia a nossa experiência. Quantos médiuns de excelentes perspectivas não se deixam extraviar porque julgaram dispensáveis os estudos doutrinários. Muitos, por acharem que os próprios espíritos ensinam a doutrina; outros por se julgarem já bastante instruídos na matéria, sem necessidade de "perder tempo" com leituras cansativas. Há, também, aqueles que desejam desenvolver uma prática mediúnica toda pessoal, inteiramente livres dos cuidados recomendados pela boa doutrina. Há os que não se interessam mesmo pelo estudo, como ainda os que somente desejam do Espiritismo a manifestação prática, o fenômeno. Quase todos se dizem espíritas, mesmo desconhecendo as obras básicas da Codificação. E é por isso que se perdem pelos desvios, levados com sutileza, pela habilidade de espíritos desencarnados, que se dizem portadores de revelações pessoais, mensageiros diletos do Cristo ou o próprio Cristo! 

Tais coisas não precisavam mais acontecer. Há um século a Codificação de Allan Kardec está aí para esclarecer, orientar e apontar os cuidados que o exercício da mediunidade deve merecer da parte de todos aqueles que se interessem pela fenomenologia. Mesmo antes de Kardec, já encontrávamos nos escritos do apóstolo Paulo - especialmente na sua Primeira Epístola aos Coríntios - advertências, conselhos e sugestões para o seguro desempenho das faculdades mediúnicas. Como qualquer fenômeno natural, a mediunidade é regida por leis próprias, que precisam ser estudadas e respeitadas. Sua prática nos coloca em relação direta com espíritos desencarnados que nos trazem uma verdadeira multidão de problemas, de dificuldades, de dúvidas, tanto quanto de ensinamentos preciosos, ao oferecerem a nós, encarnados, a oportunidade de aprender as leis de Deus no próprio desempenho das nossas tarefas de fraternidade. Para esse trato com irmãos desencarnados, muitos dos quais em penosíssimas situações espirituais criadas por falhas clamorosas de procedimento, precisamos estar preparados, não apenas com o coração aberto, iluminado pelo verdadeiro sentimento de amor cristão, como também munidos de conhecimento das leis mais elementares que regulam as manifestações. É indispensável uma sólida noção geral da Doutrina Espírita, da lei da reencarnação, da lei de causa e efeito, das condições do espírito desencarnado no outro lado da vida, dos aspectos morais contidos e implícitos em tudo isso. 

E se ainda agora, repetimos, tantos e tantos médiuns se perdem, tendo diante de si, ao alcance da mão, um roteiro seguro, imagine-se o que não foi no passado o exercício da mediunidade... Quanta aberração, quanta obsessão desencadeada, quanta gente fascinada por ideias fantasiosas, quantas tolices e ingenuidades cometidas, quantas doutrinas fantásticas que chegaram até a servir de apoio às mais absurdas seitas místicas.

Tive há pouco a feliz oportunidade de encontrar um livro bastante raro hoje, que nos leva àquele período em que a Codificação lutava bravamente contra uma enorme hostilidade do ambiente para divulgar o Espiritismo ordenadamente, racionalmente, cuidadosamente, alertando quanto às práticas perniciosas, advertindo quanto ao exame atencioso dos fenômenos e das ideias suscitadas nas sessões. Essa época de tumultuada fascinação diante do fenômeno foi a segunda metade do século XIX. 

Como se sabe, foi quase que exatamente no meio do século, isto é, em 1848, que a Espiritualidade deslanchou, como se diria hoje, o plano, na tentativa última de chamar o homem à realidade de sua condição espiritual. A celeuma foi enorme entre detratores apaixonados e negadores irredutíveis de um lado, e, os primeiros convertidos, do outro lado. De certa forma, a controvérsia continua, porque haverá sempre aqueles que se empenham em não tomar conhecimento do progresso irreversível da humanidade, mas a coisa está hoje bastante mudada, porque as questões religiosas não suscitam mais as paixões antigas que, por exemplo, levantaram toda a Alemanha no século XVI, por ocasião da Reforma. Naquele tempo, desde o humilde artífice até o Príncipe Eleitor, eram todos teólogos amadores, a discutirem acirradamente dogmas e pontos de vista religiosos. Hoje, as doutrinas religiosas que se opõem à concepção formulada pelos Espíritos junto a Kardec, estão muito esvaziadas do seu próprio conteúdo e de sua autoridade. Por outro lado, uma parcela significativa da humanidade encarnada, talvez a maioria, no momento, desinteressou-se das questões espirituais, voltando-se mais para as condições suscitadas pela vivência do ser encarnado, para os aspectos meramente materiais, imediatistas, oportunistas, numa sede insaciável de prazeres, que coloca todos os demais valores da vida em plano secundário. Em muitos círculos sociais, se hoje declararmos nossa condição de espíritas, a reação será normal, como se disséssemos que somos fluminenses, ou nordestinos, ou gaúchos. Na Idade Média, qualquer posição contrária à religião oficial acarretava punições tremendas. Com o passar do tempo, o "ódio teológico" abrandou-se, mas ainda no século XIX predominava um resíduo considerável de preconceito religioso.

Por isso, ao surgir a Doutrina Espírita, passado o primeiro momento de curiosidade e até de algum espanto, quando as diversas correntes do pensamento humano começaram a tomar posição, vimos um verdadeiro desatar de paixões contra ela e contra o seu codificador. E, coisa curiosa, não eram só os materialistas e descrentes, nem somente os religiosos das diversas seitas que se esforçaram por combater a jovem doutrina - foram também aqueles que tinham conhecimento do fenômeno mediúnico e sabiam por experiência própria que os fatos eram autênticos. Vemos essa posição no Barão de Guldenstubbé, no seu hoje raríssimo livro "Realité des Esprits" - que ainda examinaremos aqui, em outro artigo - e vemos igual posição nos escritos e pronunciamentos até de médiuns que, como ninguém mais, deveriam estar preparados para corroborar a doutrina revelada a Kardec com os exemplos abundantes suscitados pela prática mediúnica. Está neste caso o médium Daniel Dunglas Home, cuja vida de precursor estudamos em "Reformador" de abril de 1972.

***

Há muito andávamos à procura de seus livros. Localizamos um deles na preciosa biblioteca da Federação Espírita Brasileira. O original inglês chama-se "Lights and Shadows ot Spiritualism" ("Luzes e Sombras do Espiritualismo"). O exemplar da FEB é a tradução de Henry La Luberne para o francês, sob o título "Les Lumières et Les Ombres du Spiritualisme", datada de 1883. Baseia-se no original inglês escrito em 1876, há quase um século, portanto. Ao ser publicado o livro de Home, fazia 19 anos que saíra "O Livro dos Espíritos" e apenas 7 anos que desencarnara Kardec. A obra tem, pois, o valor de um depoimento pessoal, retrato de uma época difícil para o Espiritismo em que, a despeito da sua rápida expansão no seio da classe média, a doutrina enfrentava terrível campanha de oponentes de muitas cores, tendências e propósitos. Uniam-se nessas lutas contra o Espiritismo, correntes religiosas e agnósticas, materialistas e crentes, e até médiuns!

A prática mediúnica desordenada e descontrolada se desenvolvera fantasticamente, porque sob o impacto da novidade e diante do insólito dos fenômenos suscitados, toda a gente queria ver espíritos, conversar com espíritos, receber mensagens, dar notícias, pedir informações, buscar conselhos, solicitar curas de seus males e resolver problemas humanos, sem nenhum conhecimento doutrinário orientador. Funcionou aí, também, a velha lei econômica da oferta e da procura. O assédio aos médiuns foi tão intenso que a mediunidade tornou-se rendosa. Ainda que o médium não procurasse ficar rico, pelo menos gostava da projeção e da fama que alcançava facilmente. Se as faculdades lhe eram retiradas, aprendia a forjar os fenômenos, a fingir comunicações, enfim, a enganar o próximo, pois a clientela, pagante ou não, ali estava para ser atendida. Quando começaram a se popularizar os fenômenos de materialização, por exemplo, foi um Deus nos acuda: os médiuns de efeitos físicos eram solicitadíssimos, principalmente pelas altas rodas sociais da nobreza. Todas as portas se abriam e os acolhiam principescamente. Os grandes médiuns se hospedavam em palácios e levavam uma vida mansa e farta, adulados, cercados pela admiração de gente importante: imperadores, reis, príncipes, poderosos de toda a sorte e damas da nobreza e da riqueza. 

Com o conhecimento que hoje temos da doutrina e com a experiência que se acumulou ao longo de todos esses anos, é fácil imaginar as enormes tolices que foram cometidas em nome do Espiritismo, mascaradas de Espiritismo ou supostamente acobertadas pelo Espiritismo.

O livro de Home é, pois, um testemunho valioso dessa época. Ele próprio, a despeito de suas notáveis faculdades - sua mediunidade era multiforme -, não compreendeu Kardec, nem aceitou a sua doutrina, que combateu energicamente. Foi, no entanto, um médium honesto no exercício de suas faculdades, prestou-se docilmente à experimentação científica, trabalhava às claras, sem mistificação, e jamais foi apanhado em fraude. Quando os Espíritos lhe anunciaram certa vez que sua mediunidade seria suspensa por um ano - e foi -, retirou-se discretamente, recusando-se a qualquer prática fraudulenta para manter-se em evidência. O próprio imperador da Rússia, que desejava conhecê-lo, foi fielmente informado pelo médium de que suas faculdades haviam sido retiradas. O imperador, muito diplomaticamente mandou dizer-lhe que desejava conhecer o homem e não apenas o médium, no que foi gentilmente e com alegria atendido por um Home extremamente lisonjeado.

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O livro de Home apresenta um esboço histórico das antigas crenças da humanidade, desde o tempo dos caldeus, babilônios e egípcios até gregos e romanos, passando pela Índia e pela China e estudando, em algumas páginas breves, as crenças dos judeus e depois o Cristianismo. Entra, a seguir, na apreciação do espiritualismo moderno, em cujo terreno se sente mais à vontade. Home é um autor inteligente e dono de razoável cultura. Sem ser um escritor no verdadeiro e amplo sentido da palavra, expõe suas ideias com facilidade e, às vezes, com certa veemência. As farpas do estilo ele as reserva para Kardec e sua doutrina, principalmente para a reencarnação, que combate tenazmente, com argumentos insustentáveis e até infantis. (Veremos isso.) 

Sente-se na obrigação de escrever o livro, como um testemunho pessoal, cuja autoridade se apoia na sua experiência de longos anos de prática mediúnica: ao escrevê-la, em 1876, estava com 43 anos de idade e viveria ainda mais 10. É, pois, uma obra destinada a colocar as coisas no seu devido lugar, tal como ele, Home, entendia que deveriam ficar. A ideia de escrever esse livro não foi bem recebida por vários de seus amigos, enquanto outros o apoiaram, invocando a autoridade de que ele se achava investido para opinar sobre a matéria. Seu famoso amigo William Crookes foi de uma franqueza algo rude ao dizer-lhe, sem rebuços: "Duvido que um livro como o seu possa prestar grandes serviços. Os médiuns, você sabe, são muito ciumentos uns dos outros. Ora, uma acusação por mais bem provada que seja, do momento em que seja levantada por um médium contra outro médium torna-se, por esta simples razão, duvidosa; é posta, logo de início, na conta do ciúme e perde seu valor." E por aí vai. Home, no entanto, deixou-se convencer pelos que apoiavam seu projeto e meteu mãos à obra.

***

Depois da exposição histórica e de uma breve apreciação do espiritualismo moderno, o autor, já no capítulo VI, intitulado "Ilusões", entra na apreciação da balbúrdia em que se encontrava o exercício da mediunidade no seu tempo e dos médiuns que se perdiam em fantasias e induziam tantas pessoas a prática de loucuras e infantilidades. Dois desses "profetas", ambos ex-reverendos protestantes, cometeram os maiores desacertos. Chamava-se um J. D. Scott e o outro T. L. Harris. Mantinham em Auburn, (Nova York), um círculo mediúnico a que deram o nome de "The Apostolic" ("O Apostólico"), onde pontificava como médium uma senhora Benedict. Os espíritos manifestantes se diziam todos pertencentes aos primeiros anos da era cristã, tendo vivido na Judeia. Dentro em pouco havia um boletim para divulgar as ideias dos espíritos que, declarando-se seres sobrenaturais, portadores de uma revelação superior, conseguiram criar uma seita fanática, cuja sede fizeram deslocar-se para Mountain Cave, na Virgínia, onde uma comunidade foi fundada para dar início à idade de ouro da fraternidade. Dentro de algum tempo, Scott, cuja ambição fora crescendo incessantemente, declarava ter visto o próprio Deus face a face. Tornara-se seu médium absoluto, dizia. A entrada obrigatória para o céu era o templo sagrado de Mountain Cave e em torno dessa comunidade muitos e poderosos interesses começaram a se agrupar. "Ao cabo de alguns anos, diz Home, a "Nova Jerusalém" - pois assim designavam a comunidade - virou Pandemônio" e a fortuna entregue aos profetas pelos crentes ingênuos desapareceu para sempre.

Em Genebra, em 1856, apareceu uma obra intitulada "Roma, Genebra e a Igreja do Cristo", ditada - dizia a primeira página - por meio da mesa, pelo próprio "Filho de Deus, o Salvador do mundo".

Uma pobre senhora conta a Home como se deixou envolver, e ao marido, numa lamentável aventura mediúnica, na qual o casal perdeu uma fortuna considerável que foi entregando, por vários meios e processos, ao médium, seus familiares e amigos. O marido, professor de matemática, morreu ao cabo de alguns anos, deixando a viúva numa terrível miséria sob a indiferença total dos antigos beneficiados de sua fortuna.

"Os únicos espíritos que produzem esse tipo de monomania religiosa são os vaidosos e orgulhosos", diz Home e continua: "O mesmo se pode dizer das fantasias de Allan Kardec, cujos adeptos são recrutados sobretudo nas classes burguesas da sociedade. É um consolo para essas pessoas que nada são, acreditarem que foram grandes personagens antes do nascimento e que serão ainda importantes depois da morte." 

Home oferece aqui uma pequena amostra da sua posição diante de Kardec e principalmente ante a reencarnação, mas é no capítulo seguinte, "A doutrina de Allan Kardec", que ele desenvolve mais longamente suas críticas ao Espiritismo. Vejamos.

"Classifico a doutrina de Allan Kardec, diz ele logo de início, entre as ilusões deste mundo e tenho boas razões para isso, como se verá. Conheci o iniciador, ou antes, o renovador dessa fase moderna do velho paganismo"... Prossegue dizendo que não põe em dúvida a sua boa fé (ainda bem), mas que ele pretendeu iluminar o mundo com a velha doutrina pitagoriana das vidas sucessivas. Para isso, segundo Home, Kardec magnetizava os médiuns e fazia-os dizerem aquilo que ele, Kardec, queria que eles dissessem. Muito simples. Estranha o médium-autor que Jâmblico tenha aprendido tão bem a escrever em francês nas suas comunicações a Kardec e que Pitágoras tenha esquecido o grego. Julga-se com direito a fazer essas críticas ao dizer: "Sou conhecido por ser o que se convencionou chamar um clarividente; tenho, assim, o direito de falar com conhecimento de causa quanto a essa fase particular da psicologia." E volta a insistir na sua tese: Kardec não era médium e sim um mero magnetizador. "Sob o Império de sua vontade enérgica, seus médiuns não passavam de máquinas de escrever, que reproduziam servilmente seus próprios pensamentos." E junta um testemunho pessoal, da seguinte maneira: "Atesto a veracidade do seguinte fato. Antes mesmo que eu tivesse conhecimento da morte de Allan Kardec, recebi dele, na presença do Conde de Dunraven, hoje Visconde Adare, uma mensagem nos seguintes termos: "Lamento haver ensinado a doutrina espírita. Allan Kardec." 

Como as nossas paixões são artificiosas e como descobrimos mil modos e meios para satisfazê-las ... O próprio Home, em exemplos pelo seu livro afora, recomenda que se acautele o médium com o exame cuidadoso do que dizem os espíritos e tome suas precauções contra as falsas identidades e fantasias. Quando chega, porém, o momento de manifestar um ponto de vista que lhe é próprio, qualquer mensagem é considerada autêntica. Essa mensagem, no entanto, nem o Sr. Jean Vartier, (Vide o artigo "Allan Kardec e o Mistério de Uma Fidelidade Secular", publicado em "Reformador" de abril de 1973, pág. 101.), um século depois, conseguiu aceitar como autêntica. Não era mesmo para desconfiar que logo em seguida à sua desencarnação, a primeira coisa que o Espírito Kardec se lembra de fazer é vir atestar junto a Home o seu arrependimento por ter pregado o Espiritismo? 

Mas isso ainda não é tudo. Home reproduz uma mensagem que teria sido recebida por Morin que, segundo ele, Kardec considerava "um dos seus melhores médiuns". Nessa mensagem, Kardec, também arrependido, teria feito sua "confissão póstuma", repudiando os ensinamentos que difundira "em vida" e se acusando de "orgulho insensato" por ter desejado passar por um semideus salvador da humanidade, quando tudo não foi além de um egoísmo ridículo que somente conseguiu impressionar as classes mais humildes da população!

A evidente falsidade da mensagem e sua total discordância com o verdadeiro espírito de Kardec, não impressionam ao médium Home, que não põe em dúvida sua autenticidade.

***

Passa em seguida à crítica de alguns pontos da doutrina, concentrando-se sempre na espinhosa - para ele - questão da reencarnação. Não se conforma com a resposta dos Espíritos de que a doutrina reencarnacionista é fundada na justiça e oferece condições para expiação das nossas faltas passadas. Evidentemente Daniel D. Home não se aprofundou no estudo da Codificação, pois suas críticas, nesse particular, revelam irreparáveis lacunas. Para Home, Kardec pregou que a conquista do céu se dava através do "baralhamento total da identidade das criaturas" através das encarnações sucessivas e que a ordem que reina em toda parte na natureza não encontra a sua contrapartida no mundo dos Espíritos. Onde está isso em Kardec, meu Deus? Acha ele também que os Espíritos são dominados pelo constante temor de se esquecerem de suas experiências terrestres "porque se eles perdem a lembrança de um único incidente, são reenviados cá para baixo para adquirirem um pouco mais de memória" e, por isso, submetem-se a inúmeras encarnações"... 

Em seguida, manifesta sua estranheza e repulsa ante as situações que a reencarnação pode criar, no que manifesta, mais uma vez completo desconhecimento do problema. A seu ver, são incalculáveis as perplexidades contidas nessa "doutrina monstruosa". A avó pode vir a ser a sua própria neta. (E daí?) O Nero do primeiro século pode metamorfosear-se (palavra sua) na mística Madame Guyon do último século, o que é um tanto duvidoso, mas não impossível. "A alma de um criminoso pode transformar-se na de um São Vicente de Paula." E isto não é maravilhoso? Um Espírito pejado de crimes saber que com arrependimento sincero e muito trabalho regenerador pode chegar a tornar-se um verdadeiro santo, no sentido lato da palavra? Que há nisso de monstruoso ou errado?

Outros aspectos da questão parece perturbarem sobremodo o famoso médium. Partindo do ensinamento doutrinário segundo o qual o Espírito pode renascer ora como homem, ora como mulher, Home imagina "corolários revoltantes", que mal se arrisca a indicar, de tanto pavor que lhe inspiram. Um exemplo: duas pessoas se unem pelo matrimônio. Têm filhos, depois morrem e renascem com as posições trocadas. "Se se casassem novamente, como explicar o enigma de sua paternidade e da paternidade de seus filhos?" Não entendi. Não há enigma algum. Os componentes de um casal que renasce na mesma família guardam novas relações de parentesco, qualquer que seja o sexo escolhido para a encarnação. O relacionamento anterior é meramente histórico. Sou hoje o pai do meu filho, tanto quanto poderei ser amanhã seu neto, seu genro, ou seu sobrinho. Qual é o problema? Para Home, o problema está em que a doutrina da reencarnação "destrói toda a consanguinidade". É que os Espíritos não se ligam pelo sangue, pela matéria; unem-se pelas afinidades espirituais ou se repelem pela ausência delas. Os laços de sangue, a hereditariedade biológica, física, representam vínculos ocasionais. As vezes confirmam antiquíssimas relações de amizade ou de amor, mas nem sempre o Espírito renasce dentro dos seus grupos habituais; somos às vezes "desterrados" para grupos estranhos, onde os vínculos de sangue realmente nada representam senão uma situação transitória que temos de suportar com tranquilidade, paciência e amor, a fim de que possamos aprender a lição da fraternidade. É até provável que no novo grupo, com o qual não temos grandes afinidades, venhamos a fazer grandes e inseparáveis amigos novos.

Diversamente do que pensava Home, a doutrina da reencarnação não nos prende, como condenados, a uma cadeia eterna de vidas sem remissão. Ao contrário, se não estivéssemos submetidos à lei da reencarnação é que ficaríamos para sempre a errar por aí, como almas perdidas, sem perdão e sem condições de reparar o mal que praticamos.

Para Home, "o mundo reencarnacionista é como um teatro onde as marionetes aparecem, fazem umas piruetas e desaparecem, sujeitas à vontade de quem manipula os cordéis". Diz ele que a natureza humana "se revolta diante de tais exageros". Mais adiante, apresenta outras "confusões revoltantes": ele próprio teve "a honra de encontrar pelo menos doze Marias Antonietas, seis ou sete Marias Stuart, uma porção de São Luizes e outros reis, além de uma vintena de Alexandres e Césares, mas jamais um simples joão-ninguém". E que tem isso a ver com a justeza da doutrina reencarnacionista? Não é por causa disso que a reencarnação vai deixar de existir. O que ele testemunhou, se são exatos os dados que apresenta, foi a existência de uma porção de Espíritos vaidosos, iludidos, fantasistas, mal informados, que se julgam figuras eminentes do passado. 

As pesquisas de regressão de memória revelam, às vezes, uma ou outra personalidade eminente, mas revelam também - e sempre - existências em que o Espírito mergulhou no anonimato, no sofrimento, na miséria, na ignorância, na dor, exatamente para redimir faltas cometidas quando estava lá em cima na escala social ou no ápice do poder temporal. A paixão do argumento leva Home a observações totalmente infantis: Onde estariam hoje, pergunta ele, os heróis do passado, Turenne, Bayard, Condé, que não vêm socorrer a França no momento em que os exércitos alemães se acampam sob os muros de Paris (refere-se, naturalmente, à Guerra de 1870). "Onde estavam esses heróis no dia da agonia de sua pátria? Ou a ausência de patriotismo é uma virtude na doutrina de Kardec ou toda grandeza da alma "é uma impureza da qual os espíritos devem se despojar"?

Sua confusão é total. Supõe ele, a certa altura, que um Espírito que foi sucessivamente Nero, Constantino, Maomé, Carlos Magno, Bacon - uma impossibilidade flagrante em tão curto espaço de tempo - "e se vê subitamente encarnado no corpo do primeiro, a vida inteira não lhe bastaria para decidir-se a adotar uma das quatro proposições" que apresenta a seguir: botar fogo em Paris e tocar violino enquanto a cidade se incendeia; mudar a capital da França; reunir numa só crença católicos, voltaireanos, protestantes e positivistas; inventar um novo produto para matar os homens. (A invenção da pólvora é atribuída a Bacon, o Roger, não a Francis.)

Acha ele, portanto, que as faculdades espirituais que compõem a personalidade de Nero, por exemplo, se encontram no corpo tísico de Nero e não no seu Espírito. Não sabe ele - e se diz autorizado a falar como médium - que é o Espírito que impõe suas tendências, vícios ou virtudes à personalidade do homem encarnado. O corpo físico nada é senão um instrumento de trabalho; uma vez abandonado pelo Espírito, é matéria que se decompõe e deixa de oferecer condições para abrigar a alma. Como é que o corpo de Nero, já apodrecido há milênios, vai receber um Espírito -que Espírito? - e influenciá-lo com as suas tendências? Além do mais, decorridos tantos séculos, é de esperar-se que Nero já esteja bastante diferente do que foi, pela evolução irreversível da alma através do tempo. Seu Espírito, hoje reencarnado num corpo que ele próprio formasse deveria, por certo, apresentar-se de maneira mais tranquila e moralizada, pelas duras lições que deve ter estudado ao longo de vinte séculos de muitas dores. Que seria do pobre Nero - já que Home se refere a ele mais de uma vez - se não fosse a maravilhosa lei das vidas sucessivas? Que seria de nós?

E assim, sem entender os princípios sobre os quais se apoia a doutrina da reencarnação, Home não entende nem aceita as suas consequências. Por exemplo: se os Espíritos evoluem de vida em vida, como ensina Kardec, para ele "a Grécia de hoje seria mais inteligente que ao tempo de Homero e Sócrates e a França menos imoral que era há quinze séculos". Isto seria verdadeiro se ao longo de todos esses séculos, exatamente os mesmos Espíritos voltassem continuamente a se reencarnar nas mesmas regiões da Terra; sabemos, no entanto, que aqueles que atingiram um estágio superior na evolução espiritual, ficam liberados da dura condição de renascerem na carne. Só virão se e quando desejarem, em missões especiais de sacrifício ou de esclarecimento, ditadas pelo mais puro amor. Para aqui só voltam, obrigatoriamente, aqueles como nós, que ainda muito devemos perante a lei do nosso Pai. Não que Ele nos venha cobrar, como um Deus implacável e temível, mas porque Ele colocou em nossa própria consciência o sonho imortal da felicidade e o anseio invencível da paz que vamos encontrar nas realizações superiores do verdadeiro amor.

Para demonstrar as "incongruências" da reencarnação, Home cita alguns casos. Diz ter conhecido um homem que se lembrava de ter permanecido no seio da terra por longos séculos "como um metalóide"! Depois, encarnou-se no corpo de um tigre real e a essa "encarnação" atribuía seu temperamento fogoso e atirado. Outro seu conhecido lembrava-se de ter sido "uma lâmina de aço"! Casos evidentes de pobres seres ingênuos, montados numa ignorância comovente e servidos por uma imaginação fértil e fantasista, que são tomados como exemplos para demonstrar a falsidade da doutrina da reencarnação. Assim não dá nem para argumentar.

Home conclui seu capítulo dizendo que, fora essas ilusões, nada resta da doutrina de Allan Kardec. "É um sonho, uma alucinação como tantas outras." Kardec não passaria de um escolar da idade média, discípulo de Tomás de Aquino, que veio ao século Dezenove para perturbar as pesquisas de um grupo de sábios positivistas. Traz na mão direita um pergaminho com as seguintes palavras enigmáticas: "Minha missão é dupla: tomo o lugar do Cristo e confundo a identidade da criatura"...

* * *

Tais são, segundo Home, as sombras do Espiritismo. As luzes ele reserva para o último capítulo, no qual narra alguns episódios interessantes, mas banais, de sua própria mediunidade, nos quais identificou Espíritos, fez tocar acordeão por mãos invisíveis, apanhou brasas com as mãos, na lareira, moveu peças de mobiliário, etc., tudo muito legítimo e muito interessante, mas a velha pergunta retorna: e daí? Para substanciar esses relatos, transcreve depoimentos pessoais de amigos seus, quase sempre da nobreza da época. Modestamente, reproduz até elogios como este da Condessa Catarina Lugano di Panigai, de Florença: "Uma noite de julho de 1874, tive a felicidade de assistir a uma sessão dada pelo Sr. Daniel Dunglas Home, médium célebre, do qual não farei aqui o retrato; o Sr. D. D. Home é muito conhecido pelas suas distintas qualidades e por aquela leal e franca conduta que distingue o verdadeiro cavalheiro." O que, aliás, é estritamente verdadeiro, diga-se em favor da justiça. Home foi realmente uma pessoa de excelente educação, grande desembaraço social, de conduta irrepreensível e que jamais comerciou a sua mediunidade e nem procurou fraudar fenômenos para ganhar prestígio ou dinheiro. Sua dificuldade esteve em conciliar os fenômenos que produziu com um corpo doutrinário coerente, racional e amplo como a Codificação de Allan Kardec. Todo o seu trabalho - e foi extremamente valioso - concentrou-se em comprovar a sobrevivência do Espírito. Muitos seres humanos atraiu para essa ideia redentora e, com isso, dava-se por satisfeito. De certa forma, deixou passar a sua oportunidade, naquela encarnação. Sendo contemporâneo de Kardec, não quis ouvir o chamado da Doutrina. Mas, afinal de contas, a reencarnação, que tanto combateu sem entender, já o trouxe, segundo suspeitamos, de volta à carne, para espalhar por toda parte, a palavra redentora do Espiritismo puro. O mestre lionês, a quem então não entendeu, é hoje objeto de sua profunda e respeitosa veneração; nele reconhece o mensageiro que nos trouxe a ciência e a moral, a lógica e o amor, a explicação e a esperança, contidos num só corpo doutrinário. Que mais poderia desejar o ser humano, além e acima desse breviário de paz, desse roteiro para as mansões da luz a que Kardec chamou de Espiritismo?

Graças a Deus, Daniel Dunglas Home também encontrou um dia a sua estrada de Damasco e, algo aturdido, perguntou como Saulo: - Senhor, que queres que eu faça? E Jesus lhe mostrou a grandeza da obra e o trabalho que ela exige para expulsar, com as novas luzes, as sombras dos nossos descaminhos.

Hermínio C. Miranda
Revista Reformador Jan. 1974.

Incluído posteriormente no livro:
Sobrevivência e Comunicabilidade dos Espíritos.

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Recortes da revista Reformador com a publicação original.




 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Um precursor esquecido: Daniel Dunglas Home

Um precursor esquecido: Daniel Dunglas Home

Hermínio C. Miranda



A observação desapaixonada do imenso painel da História revela a nítida interferência dos poderes superiores nos impulsos criadores e renovadores da humanidade. Em outras palavras mais simples: A História é um jogo inteligente de forças espirituais, com motivações e destinação espirituais. Se fosse preciso demonstrar a tese, bastaria tomar o exemplo do movimento espiritual desencadeado em 1848, em Hydesville, nos Estados Unidos.

E mais ainda: vemos que as genuínas correntes históricas trazem em si mesmas um ímpeto irresistível, que mesmo as imperfeições, fraquezas e deserções humanas não conseguem deter. As meninas da família Fox, certamente incumbidas pelos seus mentores espirituais do trabalho inicial, não resistiram à pressão insuportável das forças adversas e acabaram passando a si próprias atestados de fraude, para, de­pois, desmentirem o desmentido, isso levou Harry Price (in “Fifty Years of Psychical Research”) a oferecer ao leitor duas alternativas: Margaret Fox foi médium fraudulento ou uma grande mentirosa. As alternativas de Price - como, aliás, inúmeros dos seus comentários - são impiedosas e extremadas. É inegável que elas produziram fenômenos autênticos que, na época, despertaram paixões violentas naqueles que não suportam ver seus interesses e suas crenças sacudidos pela base.

Posteriormente, comercializaram suas faculdades — caminho mais fácil e direto para a fraude consciente. É possível que, para se verem livres da pressão social, tenham resolvido “confessar” que fraudavam, do que mais tarde se arrependeram. Não é justo pregar rótulos cruéis em seres humanos dos quais não conhecemos direito as motivações, o ambiente em que viveram, as crises que experimentaram, as coações que sofreram e as aflições por que passaram.

O que se pretende evidenciar aqui é que, a despeito da fragilidade humana, a marcha da espiritualização da humanidade segue em frente, e, como nos é permitido saber às vezes, aqueles que perseguem e ridicularizam médiuns costumam voltar mais tarde, em outras vidas, como médiuns...

Uma vez disparados os dispositivos da “revolução espiritual”, em 1848, vemos que uma verdadeira constelação de médiuns, das mais variadas faculdades, começou a despontar pelo mundo afora. No espaço de algumas décadas, de meados do século dezenove até principio do século vinte, viveram centenas de bons médiuns, muitos dos quais foram experimentados a sério pelos grandes cientistas da época. Mencionemos apenas alguns, dos mais famosos: as três Jovens Fox, Daniel Dunglas Home, Eusapia Palladino, Florence Cook, Eva C. (Carriére), Madame d’Espérance (Elizabeth Hope), Willi e Rudy Schneider (conterrâneos de Adolf Hitler), Franeck Kluski, Leonore Piper, Julian Ochorowicz, Henry Slade e outros.

Claro que, na posição de pioneiros de um movimento criado para renovar o pensamento humano, não foi fácil a tarefa desses precursores. Precisamos conceder a cada um deles uma larga margem de compreensão e tolerância pelas falhas humanas que porventura tenham demonstrado, mesmo porque não tinham ainda um corpo doutrinário consolidado em que se apoiassem para compreender suas próprias faculdades e orientar o exercício de suas tarefas. Além do mais, como portadores de recursos insólitos, mal compreendidos e pouco estudados, viam-se, de repente, sob o foco de atenções e solicitações, como figuras de um outro mundo que todos queriam ver, apalpar e examinar. Era difícil resistir às tentações, às ofertas de dinheiro e ao cortejo dos grandes e poderosos da época, tanto quanto aos ódios e à hostilidade de muitos.

Ninguém enfrentou maiores dificuldades nesse campo do que Daniel Dunglas Home, cuja existência é uma legenda que ainda hoje parece a muitos enigmática. Há uma verdadeira torrente de livros e referências sobre esse homem curioso, que tinha livre acesso às brilhantes cortes européias do século passado.

Home nasceu numa vila chamada Currie, perto de Edinburgh, na Escócia, a 20 de março do 1833. Sabe-se que sua mãe também possuía faculdades psíquicas. Seu pai era ligado à nobre família dos Homes, de Dunglas. O médium dizia que seu pai era filho ilegítimo do décimo “Earl” de Home. (1)

Jean Burton, na excelente biografia de Home -“Heyday of a Wizard”, publicada por George G. Harrap em 1948 -, comenta a dificuldade que enfrentaram os contemporâneos do médium para entendê-lo o classificá-lo. Não era um artista de palco nem um religioso. Gostava de ser recebido como igual e que jamais alguém se lembrasse de oferecer-lhe dinheiro pelas suas sessões. Aceitava, porém, jóias - do que muito gostou, até o fim da vida - roupas, casacos de pele, temporadas em elegantes estações de água e coisas desse teor; dinheiro, não. Como seria sua aparência?

A Princesa de Metternich o descreve assim: “Estatura razoável, magro, corpo bem construído; vestido de boas roupas, com gravata branca, parecia um “gentleman” da mais elevada posição. Seu rosto era atraente na sua expressão de suave melancolia. Era pálido, de olhos azuis de porcelana - olhos penetrantes, um tanto sonolentos - cabelos avermelhados, espessos, abundantes, mas não longos demais; mão gaforinha de pianista ou de violinista; em suma, era de aparência agradável, nada do extraordinário, a não ser, talvez, a palidez da pele, que parecia natural, no seu contraste com o cabelo vermelho e a barba.”

Por motivos que não ficaram bem claros, com um ano de idade o menino foi viver com uma tia casada, sem filhos, a Sra. Mary McNeal Cook, com quem passou uma infância normal, num lugar chamado Portobello. Quando Daniel tinha nove anos de idade, a família Cook mudou-se para os Estados Unidos, onde já se encontravam os pais de Home, desde 1840, com os seus sete filhos. Tia Mary foi morar em Greenville, no Estado de Connecticut. Como os pais viviam por perto, Daniel visitava-os de vez em quando.

Sua saúde era precária, tossia muito e tinha desmaios. Mais tarde, transmitiria sua tuberculose à primeira esposa, Sacha, sobrevivendo-lhe, no entanto, por muitos anos. Já então começavam suas experiências psíquicas; uma das primeiras foi a visão do Espírito de seu amigo Edwin, recentemente falecido, informam também os biógrafos que o menino foi ora­dor precoce, muito fluente e com entonações de pregador sacro, gostando de recitar versos sentimentais e religiosos e pequenos discursos sobre pecado, a prece, a morte.

A tranquila vida na casa dos Cook, no entanto, começou a ser perturbada pelos fenômenos de efeito físico que assustavam toda gente, a começar pelo jovem Home. Eram batidas por toda parte e movimento de móveis e utensílios pela casa. Certa vez, uma cadeira perseguiu-o no seu próprio quarto. Daniel, apavorado, não sabia o que fazer, pois a peça ficara entre ele e a porta de saída. A um passo, a cadeira parou, ele saltou rápido por cima dela, apanhou o chapéu e saiu para a rua, para botar as ideias no lugar, tentando compreender o fenômeno. Para encurtar a história: tia Mary, de rígida formação protestante, deve ter achado que o sobrinho tinha parte com o demônio e que era melhor ele deixar a casa, o que fez imediatamente. O curioso que não tenha procurado a casa dos pais e sim a de uns amigos.. Foi assim que iniciou sua vida de peregrinação de casa em casa, ali mesmo por New England (2), prenúncio da futura peregrinação de palácio em palácio na Europa.

Suas maneiras eram gentis, “ora efusivo na ex­pressão de gratidão — diz Jean Surton —, rápido em tomar a cor local, eminentemente adaptável, sempre pronto para ajudar as crianças nos seus deveres, brincar com o gato ou admirar o desenho de uma nova mania. A natureza preparou-o, em suma, para ser o hóspede perfeito”.

No verão de 1851, o Dr. George Busch descobriu Home e quis fazer dele um pregador da New Church. (3) Busch, homem de grande cultura, era professor de Línguas Orientais na Universidade de Nova York. Home achou boa a idéia e aceitou o ofereci­mento, mas em 48 horas voltou ao professor para desfazer o trato, porque o Espírito de sua mãe o aconselhara nesse sentido. “Meu filho, dissera ela, você não deve aceitar essa bondosa oferta, porque sua missão é mais ampla do que pregar do púlpito.”

E assim foi feito.

Já então o jovem Home começava a incomodar o clero das religiões estabelecidas, muito embora durante a sua vida buscasse viver em bons termos com elas. Foi sucessivamente metodista, congregacionista e católico, terminando na Igreja Ortodoxa Grega. É que suas sessões mediúnicas passaram a despertar enorme interesse do público e da imprensa. Sacerdotes e ministros certamente não se sentiam bem diante daquele rapazinho que fascinava suas ovelhas com fenômenos insólitos. Home, com modéstia e sinceridade quase inocente, devolvia “as mais amargas vituperações”, dizendo mansamente: “Ao passo que as igrejas estão perdendo seus prosélitos”, seus fenômenos estavam “trazendo mais conversos às grandes verdades da imortalidade do que todas as seitas cristãs, tornando impossível as idéias materialistas e céticas, infelizmente, tão preponderantes nas classes educadas”.

Esse engano de achar que a Igreja deveria receber o Espiritismo de braços abertos foi comum entre os médiuns da primeira hora e até mesmo entre alguns espíritas. O raciocínio é perfeitamente lógico e razoável: se um dos principais pontos de sustentação do Cristianismo é a sobrevivência da alma, era de esperar-se que a igreja acolhesse com sofreguidão os métodos experimentais que demonstravam tal realidade. Mas, nem sempre os homens agem dentro da lógica, especialmente quando estão em jogo suas posições, seus interesses, suam crenças, seus temores e suas paixões.

Foi nessa época que Home se tornou amigo de uma das figuras lendárias do Espiritismo nascente, o Juiz John Edmonds, da Corte Suprema de Nova York.

Em 8 de agosto de 1852, em casa de Ward Cheney, de conhecida família de industriais da seda, Home levitou pela primeira vez.

Repetiria esse fenômeno inúmeras vezes, ao longo da sua carreira, sob as condições mais estranhas e sob os olhos atônitos de testemunhas do mais alto gabarito.

Gostava de que as sessões se realizassem com pouca gente — seu número ideal eram nove pessoas, inclusive ele, Home. Os Espíritos insistiam em que não houvesse cães no aposento das sessões, que ninguém fumasse e, por alguma razão obscura, não gostavam que Home se sentasse em almofadas de seda.

Os fenômenos eram muitos e variados e quase sempre em plena claridade. Os móveis levitavam, dançavam e batiam ritimadamente. Sinos e campainhas sobre os móveis eram sacudidos; mãos materializadas moviam objetos menores e flores, ou tocavam acordeão. Espíritos se materializavam de corpo inteiro, traziam “aportes”. De uma vez trouxeram uma plantinha que foi colocada num vaso de terra e “pegou”. Fenômeno curiosíssimo era o alongamento do corpo de Home, repetido sob condições de controle, no qual o médium crescia à vista de todos, sete ou oito polegadas, ultrapassando o tamanho da roupa. Mais para o fim de sua carreira extraordinária, desenvolveu a faculdade da incombustibilidade: apanhava brasas vivas com as mãos, sem queimar-se. De uma vez, mergulhou todo o rosto num braseiro, sem que sofresse absolutamente nada. Além disso, transmitia mensagens escritas ou faladas — hoje chamadas psicográficas e psicofônicas — de Espíritos relacionados com os presentes.

É fácil de imaginar-se a tremenda sensação que esses fenômenos provocavam entre aqueles que tinham a ventura de desfrutar a amizade do jovem Home, pois ele insistia em realizar suas proezas apenas para os amigos, que o hospedavam às vezes por longas semanas e até meses. Um certo Dr. Gerard Hull, que lhe ofereceu um dia dinheiro pelo seu trabalho, acabou reconhecendo que tinha cometido erro imperdoável; havia proposto a Home pagar-lhe as despesas e mais cinco dólares por dia. O médium ficou ofendidíssimo e Hull desculpou-se, hospedando Home em sua casa em base puramente social.

Nesse tempo alguém lembrou que o médium tinha ainda muito pouca instrução e que convinha prepará-lo melhor, pois pensavam em destiná-lo à medicina. Com esse propósito, o Dr. Hull matriculou o jovem num instituto local — isso em Newburgh, sobre o Hudson, para que Home estudasse alemão, francês e fizesse um curso pré-médico. No outono, ele seguiu para Nova York a fim de matricular-se na Faculdade de Medicina, mas uma série de acontecimentos impediu que isto se concretizasse e assim se perdeu um médium-médico. Home voltou para Nartford, esteve em Springfield e depois seguiu para Boston, onde ficou conhecendo a família Jarves, amigos do famoso casal Browning. Os caminhos de Home e dos Brownings haveriam de cruzar-se várias vezes, de futuro, sob estranhas condições e extrema tensão.

Nessa altura, com a saúde precária, Home resolveu partir para a Inglaterra, cujo clima, certamente, não se recomendava para ele. Não era fácil, ainda mais, separar-se de seus bons amigos que o acolhiam e o respeitavam e partir para a grande aventura do desconhecido, mas seus amigos espirituais lhe diziam que ele deveria ir “e seus conselhos não poderiam ser ignorados”. E assim, a 31 de março do 1855, parte ele, “pálido, magro, tuberculoso, com a voz e a roupa muito bem cuidadas, 22 anos de idade - para empreender a conquista da Inglaterra”. São pa­lavras de sua biógrafa.

Levou uma carta de apresentação para um certo Mr. William Cox, dono de um hotel do mesmo nome, onde se hospedou. Cox recebeu o jovem médium como a um filho. E com certeza não lhe cobrava a hospedagem.

Dentro em pouco, Home estava causando sensação com as suas extraordinárias faculdades mediúnicas, especialmente nas rodas mais sofisticadas da sociedade britânica. Continuava a insistir em que não compreendia suas faculdades, pois era simples instrumento de seus amigos espirituais, aos quais não podia comandar à sua vontade. Eles vinham quando queriam e faziam o que desejavam fazer.

Foi nessa época que Home e os Brownings se encontraram pela primeira vez. Robert e Elizabeth - depois da fuga sensacional que realizaram para casar-se -  voltaram à Inglaterra pela primeira vez em visita, pois viviam em Florença desde o casamento. Elizabeth, poetisa tão famosa quanto seu marido, não cabia em si diante das notícias das fantásticas demonstrações de Home. Em 13 do julho do 1855 escreve para sua irmã Henrietta: “... Quanto a Hume (4) — vamos vê-lo, e eu te direi. É a pessoa mais interessante para mim na Inglaterra, tanto de Somersetshire como do número 50 da Wimpole Street. . .“ (5)

Elizabeth não se decepcionou com Daniel Dunglas Home; ao contrário, viu confirmadas as suas expectativas, não só pela fama do médium e autenticidade dos fenômenos, como também pela certeza que ele lhe trazia da sobrevivência do Espírito, que, para ela —que há algum tempo vinha lendo e experimentando nesse campo —, era pacífica. Quanto a Robert, não se pode dizer o mesmo. Ao contrário, o poeta manifestou, com relação ao médium, uma hostilidade agressiva, da qual não fazia o menor segredo. Mais tarde, escreveria um longo e elaborado poema no mais duro estilo satírico, Inspirado em Home. Chamou-lhe “Mister Sludge, the Medium”. Sludge, que aí aparece como nome próprio, significa lama, massa barrenta ou untuosa. Em carta a um amigo, certa vez, Robert usou uma expressão tão rude que não poderia ser aqui reproduzida.

O desacerto Home-Browning teria sequência em outras oportunidades, de modo especial em Florença, pouco tempo depois, durante uma visita do médium à colônia inglesa rica, aristocrata e intelectual, que lá vivia por causa do bom clima e da vida barata. Quando Elizabeth soube que ele estava em Florença, escreveu com grande entusiasmo à sua infalível irmã Henrietta, dizendo que uma amiga — a Sra. William Burnet Kinney, esposa do ministro americano (embaixador) na Sardínia, “que costumava ser tão violenta com os Espíritos como Robert”, acabou se convencendo de que era totalmente impossível atribuir à fraude os fenômenos produzidos por Home. “Os fenômenos em Florença — prossegue Elizabeth — parecem ser de natureza espantosa. Uma princesa polonesa (Princesa Lubomirski) recebeu uma comunicação em sua própria língua.. .“ A sessão foi realizada na casa dos Trollope (Anthony Trollope, novelista inglês). Um vidro de água destilada, comprada na farmácia, deixou desprender, à vista de todos, um “vapor” e ficou perfumada. Disse­ram os Espíritos — é Elizabeth quem conta — que a água era chamada “ódica” e que a Sra. Kinney, que estava doente, deveria conservar o frasco em lugar escuro e tomar uma colher de chá por dia... “which she does. . . “...conclui a carta, ou seja, “o que ela está fazendo”.

Robert, indignado com o interesse de sua esposa pelo Espiritismo, que ele julgava uma grossa mistificação, transferia facilmente a sua revolta para Home, a quem não poupava, tanto em conversação social como em suas cartas e depois no poema famoso. Numa sessão realizada, entre outros, com Robert e Elizabeth, houve um incidente sério, que já tivemos oportunidade de ler aqui mesmo em “Reformador”. Elizabeth, extremamente chocada, agarrou ambas as mãos do médium e pediu que perdoasse Robert.

Home sentiu-se profundamente desapontado com as situações que ali viveu. Em carta a Henrietta (18-11-1850), Elizabeth conclui, vitoriosa: “Todo mundo adoraria deixar de crer em Home, mas ninguém o pode. Eles detestam-no e acreditam nos fatos.” Home, por sua vez, escreveu, desanimado: “Minhas experiências da vida e de suas falsidades já deixaram marca tão indelével na minha alma, por causa das minhas recentes experiências em Florença, que eu gostaria de afastar-me de tudo quanto pertence a este mundo.” Chegou mesmo a pensar em entrar para um convento. E a sério. Um certo Monsenhor Talbot encarregou-se de instruí-lo e dentro de três semanas Home foi crismado, no domingo da Páscoa, por um sacerdote jesuíta. O Conde Branicka e a Condessa do Orsíni foram seus padrinhos. Pio IX concedeu-lhe audiência pessoal. Fez-lhe muitas perguntas “penetrantes, mas bondosamente formuladas”. Acabou despedindo o novo converso com sua bênção. Disseram nessa ocasião que ele havia prometido ao Papa abandonar o exercício de suas faculdades, o que ele negou enfaticamente depois: “Eu não poderia fazer tal promessa, e nem ele a exigiu de mim...”

Nada mais se falou da sua entrada para o convento e de Roma ele se dirigiu, com a família Branicka — que o tinha tomado aos seus cuidados —, a Paris, para estudar francês, segundo ele mesmo declarou. Mui gentilmente, o Papa recomendou-lhe seu próprio confessor, o erudito jesuíta, Padre Xavier do Ravignan, pregador da capela das Tulherias.

Essa temporada de Home em Paris foi um extra­vagante período na vida do médium. Padre Ravignan desempenharia junto dele um papel significativo. Mais uma vez, o caminho dos Brownings se cruzava com o de Home. O casal de poetas estava em Paris e Elizabeth imediatamente escreveu a Henrietta para anunciar, algo aflita, a presença do médium, preocupada em que ele e Robert pudessem encontrar-se e reacender antigos rancores, pois, segundo suas próprias expressões, Home era “ainda um osso na garganta do leão”, mas Robert prometeu a ela comportar-se bem e limitar-se a ignorar o médium se, por acaso, cruzasse com ele na rua, o que já era muito. Por via das dúvidas, Elizabeth pede na carta que, na resposta ou em futuras cartas, Henrietta jamais mencionasse o nome de Home, certamente para que Robert não soubesse que elas ainda se ocupavam de tal indivíduo.

O momento era particularmente difícil para Home. Abandonado subitamente pelos Branickas — que se cansaram dele — ficou em Paris sem dinheiro e sem muitos amigos. Corria mesmo a notícia — segundo apurou Elizabeth Browning — de que o médium es­tava muito mal de saúde ou até mesmo nas últimas, por causa da fraqueza de seus pulmões.

Padre Ravignan revelou-se um bom e paciente companheiro, certamente pelo interesse em conquistar aquela alma para a sua fé e sua igreja, mas inegavelmente também porque era homem de excelente conteúdo humano e tolerante com o seu curioso catecúmeno. Além de tudo, Home fora também abandona­do pelos seus amigos espirituais que, descontentes com algumas práticas, retiraram-se, anunciando que somente retornariam às suas tarefas junto ao médium de­pois de passado um ano inteiro. Toda a Paris especulava sobre o estranho fenômeno da suspensão da mediunidade e sobre quando e como poderia ela ser restaurada, como se Home fosse um famoso cantor de ópera, temporariamente afastado das luzes da ribalta.

A sociedade sofisticada do Segundo Império achava que se tratava simplesmente do que hoje se chamaria um “golpe de publicidade”. Era um “vedetismo” de Home, nada mais. No entanto, os Espíritos cumpriram a palavra; deixaram-no um ano sem atividades mediúnicas. Completou-se o prazo a 10 de fevereiro de 1857. No dia 11, pela manhã, Home foi procurado pelo Marquês do Belmont, enviado pessoal do imperador Napoleão III. Teriam os poderes do Monsieur Home retornado? Tinham. Precisamente ao soar meia-noite, no dia 10, um Espírito veio saudá-lo, levantar o seu moral o dizer que tudo estava bem. Logo em seguida, Padre Ravignan também apareceu ansioso para saber das novas. Não precisou nem falar: foi recebido com batidas espirituais por toda parte. O sacerdote explicou a Home que aquilo tinha de parar, senão ele não poderia conceder-lhe a absolvição. Home argumentou que os Espíritos estavam satisfeitos por encontrá-lo em tamanho estado de pureza, o que certamente facilitava os contatos. Mas o padre manteve-se firme, a despeito de Home ter acrescentado, como sempre o fazia, que as manifestações não estavam sob o controle da sua vontade. Ravignan, que não queria abandonar a alma do seu pupilo ao “demônio”, insistiu em que uma vez que Home não podia evitar as “alucinações” pelo menos poderia desencorajá-las, pois quanto a ele, padre, somente via quando queria ver o somente ouvia quando queria ouvir. Depois desse conselho, preparou-se para partir, e, ao levantar a mão para dar a bênção a Home, o barulho dos “raps” recomeçou por toda parte. Era o fim. Padre Ravignan se retirou e, a despeito dos seus entreveros com a igreja, o médium manteve agradável lembrança do bondoso jesuíta.

Com a volta dos Espíritos, voltaram também os amigos e Home foi apanhado novamente pela roda-viva dos compromissos o dos convites para as reuniões elegantes. Já na sexta-feira, 13, “estreou” perante Napoleão III, de maneira dramática.

Quando se abriram para ele as portas do Salão Apolo, nas Tulherias, Home deu com uma multidão de nobres, tão grande que o ambiente sufocava. Chegou a recuar. A imperatriz Eugênia tinha convidado toda a sua “entourage”. Recuperado do impacto, Home explicou, com muitas desculpas e habilidade, que sessão mediúnica não era exibição teatral; que era melhor limitar o número de pessoas presentes a oito ou nove apenas e que mesmo assim ele não poderia garantir nada de positivo, dado que tudo dependia dos Espíritos. Deve ter sido uma senhora cena. A impera­triz, muito ofendida, e sem dizer palavra, retirou-se e Home também preparou-se para sair, extremamente confuso, quando o imperador, subitamente, ordenou que desocupassem o salão. Formou-se um pequeno círculo de privilegiados e a sessão desenrolou-se maravilhosamente, com fenômenos abundantes e inequívocos. Napoleão, “com seus olhos de peixe” — diz Jean Burton —, observava pensativo. Ele passava por ser um razoável mágico amador e certamente apreciava com olho critico a “performance” do seu “colega’. A questão é que os “raps” — ou seja, as batidas —respondiam a perguntas que ele fazia mentalmente. Tão entusiasmado ficou que achou por bem interromper os trabalhos, declarando que a Imperatriz tinha de ver aquilo. Mandou chamá-la e em pouco entrou a grande dama, com toda a imponência do seu porte e de sua posição. Não é preciso acrescentar que Home conquistou toda a corte francesa — exceto um ou outro, como, por exemplo, o Conde Waiewski, filho de Napoleão 1 e de Maria Waiewska, a bela polonesa.

O Conde tudo faria para desmoralizar Home e fazê-lo cair em desgraça na Corte, o que, aliás, não conseguiu, (6)

O médium passou a ter acesso praticamente livre ao palácio, chegando até mesmo a viver ali algum tempo, enquanto assim o desejou. Ganhou presentes riquíssimos e pouco depois foi aos Estados Unidos buscar sua irmã Christine, que, como protegida da imperatriz, matriculou-se no próprio colégio em que Eugênia havia estudado vinte anos antes.

Jean Burton chama a atenção para a notável posição dessa moça, colocada num colégio católico grã-fino, sob o bafejo do trono, de um lado, e ligada, de outro, a um irmão que as doces freiras consideravam um tremendo “feiticeiro”. Ao cabo de alguns anos, Christine voltou para os Estados Unidos, onde se casou. Home tem parentes nos Estados Uni­dos até hoje.

É uma pena que não seja possível, nas escassas dimensões de um artigo, reproduzir tantos pormenores interessantes dessa vida fascinante. Temos que nos limitar aos episódios mais importantes.

Em 1858, Home foi à Holanda, onde realizou sessões para a Rainha Sofia, em Haia. Ganhou um belo anel de uso pessoal da soberana. Em Bruxelas, apanhou um severo resfriado e novamente suas faculdades falharam. De volta a Paris, o médico aconselhou uma permanência na Itália. Home partiu para Roma, onde se tornou amigo de um jovem nobre cossaco, o Conde Kucheleff-Besbordka.

Da amizade pelo Conde surgiu o amor por Alexandrina, sua cunhada, pouco mais que uma menina, pois contava apenas 17 anos. Sacha — como era conhecida na intimidade — era bela, viva, encantadora. Filha do General e Conde de Kroll e nada menos que afilhada do próprio Tzar. Home, convidado para jantar, sentou-se à direita da dona da casa e, ao ser apresentado à encantadora Sacha, teve a estranha impressão de que ela seria sua esposa. A menina disse-lhe, rindo, que ele se casaria dentro de um ano, porque, segundo uma superstição folclórica russa, era infalível o casamento quando um homem se sentava entre duas irmãs que acabasse de conhecer. As impressões de ambos se realizaram.

Depois de sessões verdadeiramente notáveis para o Tzar e sua corte — a convite do Imperador, naturalmente —, Home partiu para a Escócia, onde foi apanhar documentos pessoais, e a 1º de agosto de 1858 casou-se com Sacha. No peito de muitos convidados luziam condecorações imponentes. O Tzar foi representado por dois figurões do império, o Conde Bobrinski e o Conde Alexis Tolstoy, irmão do genial romancista (Leon). Elizabeth Browning, maliciosa, brincava com a Irmã, por carta: “imagine só o mobiliário conjugal flutuando pelo quarto, à noite, Henrietta !”

Sacha foi uma boa e dedicada esposa e deu a Home um filho, Gregoire, apelidado Gricha. Home transmitiu a ela a tuberculose, da qual morreria, lúcida e conformada, em 3 de julho de 1862, após uma doce convivência de menos do 4 anos, seguida de uma disputa judicial demorada por causa da herança da jovem esposa. Gricha nasceu a 8 de maio de 1859 e, com a morte da mãe e as andanças do pai, acabou gravitando para o ramo russo da família, Os Home dos Estados Unidos souberam mais tarde que ele havia entrado para o exército russo.

Mas nem tudo eram flores no caminho de Home. Havia detratores gratuitos e inimigos impiedosos, como Robert Browning. Charles Dickens, o grande novelista inglês, foi um deles. Não fazia segredo algum da sua opinião, tachando Home de impostor. Achava, porém, que a coisa não tinha jeito, porque mesmo que se provasse a falsidade de Home “em cada célula microscópica de sua pele e em cada glóbulo do seu sangue, ainda assim os seus discípulos acreditariam nele e o adorariam”.

Foi o que escreveu em carta do 16 de setembro de 1860 à Senhora Linton. Diria e escreveria outros horrores do médium. Pobre Dickens! Depois de desencarnado, voltou em Espírito, para terminar, através de um médium humilde, o seu notável romance “O Mistério de Edwin Drood”, que deixara pela metade...

Pelo final de dezembro do 1863 achava-se Home novamente em Roma. A pressão do Vaticano começou a tornar-se insuportável. Home pretendia ficar na cidade eterna para estudar escultura. Um livro de William Nowitt, sua monumental “History of the Supernatural”, havia, de certa forma, contribuído, in­voluntariamente, para açular a hostilidade dos católicos e protestantes contra os médiuns em geral e contra Home em particular, o médium mais eminente e celebrado do seu tempo. “As luzes espirituais — dizia Nowitt —, o tremor das casas, a transposição de portas fechadas, ventanias poderosas, levitação, escrita automática, comunicações em línguas estrangeiras — tudo isso ocorre todos os dias, tanto em Londres como nos Atos dos Apóstolos.”

Seguia-se um trecho em que, se não era feita a apologia de Home, pelo menos se buscava entender a sua missão e natureza do seu trabalho. Com a segurança de um espírito lúcido e dono de profunda Intuição, achava Howitt que as manifestações físicas, “desprezadas e ridicularizadas”, deveriam preceder acontecimentos mais importantes. Ao demonstrar suas faculdades perante o testemunho de imperadores, reis e rainhas, Home estava desempenhando sua tarefa de precursor, lançando alicerces.

Admirável inteligência dos fatos a de Howitt, mas que ajudou a agravar em hostilidade aberta o que antes era simples desconfiança da Igreja pelo médium. O famoso Cardeal Manning disse coisas incríveis, declarando que através de trabalhos espíritas o demônio se materializava, ora como mulher, ora como homem, e desses encontros resultavam criaturas híbridas de natureza diabólica, mas de forma humana! Segundo narrativa de W. H. Mallock, autor de “The New Republic”, o cardeal usou linguagem de tal modo grosseira (“unvarnished”) que os detalhes não poderiam ser reproduzidos.

Assim, a 2 de janeiro de 1864, Home recebeu intimação para comparecer à polícia. Dia 3, pela manhã, lá foi ele, em companhia de um amigo, chamado Gauthier, cônsul da Grécia. Preservou-se o diálogo do médium com a Policia, um documento do próprio punho do Home, que vale a pena reproduzir, conservando o seu estilo telegráfico:

“Janeiro 2, recebida carta solicitando minha presença na Polícia, no dia 3, entre as 10 e uma hora. Em 3 de Janeiro fui e me levaram à sala do advogado Pasqualoni. Eu estava acompanhado do meu amigo Senhor Gauthier, cônsul da Grécia em Roma. As perguntas foram as seguintes: Nome do meu pai e de minha mãe? Publicou algum livro? Sim. Sua profissão? Estudante de arte. Sua residência? Via dei Tritoni, 65. Quando você chegou? Há seis semanas. Quantas vezes você esteve em Roma? Duas. Quanto tempo ficou de cada vez? Dois meses da primeira e três meses da última vez. Quanto tempo pretende ficar desta vez? Até abril. Você tem residência permanente na França? Não. Quantos livros escreveu? Um. Quantos exemplares vendeu? Como não sou o próprio editor, seria impossível dizê-lo. Depois que você se tornou católico exerceu seus poderes mediúnicos? Nem antes, nem depois eu exerci meus poderes mediúnicos, de vez que não é poder que dependa da minha vontade. Não poderia usá-lo. Como é que você faz Isso? Acho que a resposta que acabo de dar é suficiente para esclarecer. Você considera seu poder um dom da natureza? Não; considero um dom de Deus! Que é um transe? Um estudo de fisiologia explicaria melhor do que eu. Você vê os Espíritos quando dormindo ou acordado? De ambas as maneiras. Por que os Espíritos procuram você? Para me consolarem e para convencer aqueles que não acreditam na sobrevivência da alma! Que religião eles pregam? Isso depende. Que é que você faz para eles se manifestarem? Eu estava para responder que eu nada fazia quando na mesa em que ele escrevia soaram batidas claras e distintas. Ele então disse: Mas a mesa não se mexe. Exata­mente enquanto ele dizia isso, a mesa moveu-se. Qual é a Idade do seu filho? Quatro anos e meio. Onde está ele? Em Maivern. Com quem? Dr. Gully. Dr. Gully é católico? Não. Quando você viu seu filho pela última vez? Em abril. Então, ele disse, sem nenhuma justificativa, que eu deveria deixar Roma dentro de três dias. Está de acordo? Não, decididamente não, ainda mais porque nada fiz para infringir as leis deste ou de qualquer outro país. Falarei com o cônsul inglês e seguirei seu conselho.”

Há um pormenor que Home omitiu no seu documento autógrafo. Quando as manifestações começaram na polícia, o excelente Dr. Pasqualoni, enormemente surpreendido, perguntou a razão dos ruídos. O Cônsul Gauthier informou tranquilamente que eram os Espíritos.

- Espíritos! - exclamou Pasqualoni, olhando assustado em volta da mesa.

E em seguida: “Vamos continuar nosso interrogatório.”

Não adiantou a interferência — de má vontade — do cônsul inglês. Havia “ordens superiores” para despachar o médium para fora de Roma, e assim foi feito.

Segundo a biógrafa, as autoridades do Vaticano eram de opinião que o demônio estava metido naquilo e seria totalmente impossível tolerar aquele bando de Espíritos nos domínios da soberania papal.

Ademais, não era de admirar-se a expulsão, depois da audaciosa demonstração de seus amigos espirituais nas barbas da Polícia! E assim Home foi expulso do Roma, se­guindo para Nápoles, depois de uma despedida co­movente na estação, onde compareceram muitos dos seus amigos nobres, inclusive Sua Alteza Real, o Conde de Trani.

Outro problema bem mais sério teria Home com a lei. Foi o famosíssimo caso com a Sra. Lyon. Vamos resumí-lo.

Jane Lyon era viúva de 75 anos de idade, sem filhos. Encantou-se com o jovem Home e resolveu adotá-lo como filho, exigindo mesmo que o médium aceitasse até o seu nome. Por algum tempo — muito breve —, ele assinou Daniel Dunglas Home-Lyon.

A velhinha, a despeito da sua aparência extremamente mo­desta, era bastante rica e, em sucessivos e repentinos impulsos, entregou a Home cerca de sessenta mil libras esterlinas, uma fortuna considerável para a época.

Além de rica, Jane Lyon parecia pouco segura de suas faculdades mentais e estava agindo daquela maneira para chamar a atenção sobre si mesma, para atiçar o disputa dos parentes de seu marido e provar que era dona do seu próprio dinheiro, podendo fazer dele o que quisesse.

Dizia que o Espírito de seu marido havia mandado entregar a importância a Home. O certo é que dentro de pouco tempo ela se arrependeu de tudo e, desejando recuperar o seu dinheiro, levou a questão à Justiça. O escândalo foi enorme e danoso para a reputação de Home. Muitos amigos deram-lhe apoio maciço; outros se omitiram. Seus detratores exultaram. Browning escreveu uma carta extremamente cruel a Isa Blagden, para narrar a infelicidade do aturdido médium, alegando mesmo que Home pretendia casar-se com a Sra. Lyon, o que parece fantástico. Por fim, Home foi condenado. O juiz achou que não ficara provado que Home se utilizara de “influências in­devidas”, mas que também não ficara provado o contrário e que o ônus da prova de sua inocência cabe­ria a ele próprio. Por conseguinte, disse o juiz, “decido contra ele; porque, como acho que o Espiritismo é uma burla, sinto-me no dever de considerar a queixosa como vitima de uma burla e não há evidência que me convença do contrário”.

Home devolveu o dinheiro e o nome à Senhora Lyon, mas saiu endividado e arrasado do episódio doloroso. Muitos foram os amigos que lhe manifesta­ram sua simpatia, entre eles católicos eminentes e até sacerdotes, como Monsenhor Talbot, que fora seu instrutor na tentativa de levá-lo para o seio da igreja.

Ainda estava pendente a questão judicial com a família de Sacha, mas essa ele ganhou e entrou na posse de consideráveis recursos. Em 18 de outubro de 1871, Home casou-se novamente com uma jovem russa, Julie, filha de Michel de Giumeline, Conselheiro de Estado do Imperador da Rússia, prima do eminente Alexandre Aksakoff, também Conselheiro de Estado, brilhante pesquisador de fenômenos psíquicos, autor de livros respeitáveis como “Animismo e Espiritismo”.

Julie também foi esposa compreensiva, suave e dedicada. Sobreviveu a Home e escreveu uma excelente biografia do marido. Deu-lhe uma filha que morreu em alguns dias. “A extrema beleza da criança é inacreditável”, escreveu Home, ao ver a recém-nascida. Julie tratou Gricha com “angélica paciência”, pois o menino, altamente nervoso, constituía problema.

Por alguns anos, Home e Julie viajaram pela Europa visitando amigos, enquanto ele consentia, aqui e ali, em realizar uma sessão. Suas forças, no entanto, o abandonavam, enquanto a doença ia minando seu organismo delicado. Aos 38 anos de idade, pratica­mente retirou-se da vida ativa. Escreveu suas memórias — “lncidents of My Life” (“incidentes da Minha Vida”), em dois volumes, e “Lights and Shadows of Spiritualism” (“Luzes e Sombras do Espiritismo”).

Em tempos passados, despertara o interesse do jovem físico e químico William Crookes, do qual se tornou grande e intimo amigo, pois era de apenas um ano a diferença de idade entre eles. Crookes declarou-se corajosamente convencido da legitimidade dos fenômenos produzidos por Home, enfrentando a tremenda e irracional hostilidade de seus colegas cientistas. Manteve-se até o fim da vida nessa convicção e proclamou-a publicamente, no apogeu de sua carreira, sob a responsabilidade de seu nome famoso e agraciado com o título de “Sir”.

Quanto a Home, viveu seus últimos dois anos na França. Gostava de jóias e as usava com prazer, mesmo porque cada uma delas recordava um amigo famoso: Napoleão III, Sofia, da Holanda, o Tzar Russo, Guilherme I, da Alemanha, condes, príncipes e duques...

Na primavera de 1886, Julie levou o marido de Auteuil, onde estavam por algum tempo, até Paris, para consultar os médicos da capital. O prognóstico foi sombrio. Ambos os pulmões estavam muito afeta­dos, A viagem de volta a Auteuil foi feita em etapas suaves.

Home morreu a 21 de junho, aos 53 anos de idade, assistido por um sacerdote da Igreja Ortodoxa grega e foi enterrado no cemitério russo de Saint Germain-en-Laye, junto dos restos físicos de sua linda filhinha. Julie Home regressou à Rússia, quatro anos depois, e levou consigo Gricha, filho da primeira esposa com seu marido.

Daniel Dunglas Home, que a Enciclopédia Britânica considerou “um enigma não solucionado”, jamais foi apanhado fraudando. Desempenhou sua mis­são com dignidade e autenticidade, num ambiente fútil e que facilmente poderia fascinar e corromper um jovem de modestas origens sociais. Creio poder afirmar que seus amigos espirituais ficaram satisfeitos com os seus trabalhos. Sua mediunidade tinha mesmo que ser de forma espetacular, de efeitos físicos, para que pudesse sacudir a incredulidade de uns, a má vontade de muitos, a hostilidade de tantos. Viram-na todos aqueles que tiveram olhos para ver. Sem dúvida, Howitt estava certo: Home ajudou a lançar os alicerces do edifício que só agora começamos a vislumbrar em todo o seu esplendor e em toda a grandeza do seu futuro. Espírito profundamente afetuoso e sereno, merece as vibrações mais puras do nosso afeto.

(1) – Earl – título correspondente ao Conde na nobiliarquia continental. Fica abaixo do Marquês e acima do Visconde.

(2) – A região conhecida como New England é formada pelos estados americanos de Maine, New Hampshire, Vermont, Massachussetts, Rhode Island e Connecticut.

(3) – New Church ou New Jerusalém Church, religião baseada nos ensinamentos de Swedenborg.

(4) – O nome de família era mesmo Home, mas o pai de Daniel assinava Hume. O médium ainda muito jovem passou a assinar-se Home, que conservou a vida inteira.

(5) A família de Elizabeth – os Barrets – tinha sua mansão nesse endereço.

(6) Na terceira sessão realizada nas Tulherias, materializou-se a mão de um homem que, tomando o lápis, assinou “Napoléon”. O Imperador reconheceu a assinatura de seu famoso tio e a Imperatriz pediu permissão para beijar a mão, que se elevou para receber o beijo de Eugênia.

Hermínio C. Miranda
Revista Reformador Abr. 1972.

Posteriormente publicado no livro:
Sobrevivência e Comunicabilidade do Espíritos - FEB

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