quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Democracia

Democracia

Joaquim Nabuco


Imagem gerada por IA.

No célebre tratado Politiká, Aristóteles, estudando as diferentes formas de governo nos Estados gregos, afirma que poderiam ser classificados em três distintos grupos, a saber: Monarquia, Aristocracia e Democracia, sendo que, esta última quando degenera, faculta o surgimento dos fenômenos da tirania, da oligarquia e da demagogia.

A Política, desse modo, é a ciência e a arte através das quais se governam os homens de forma legítima, regulando as relações que se estabelecem entre os mesmos.

O pensamento de Aristóteles foi o mais robusto da História, chegando à Idade Média de maneira preponderante na concepção escolástica. Logo depois, em razão do Renascimento e do surgimento dos novos Estados europeus, Maquiavel passou a exercer uma grande influência no desenvolvimento das atividades políticas.

Posteriormente, homens admiráveis como Hobbes, Espinosa e Locke ampliaram os conceitos a respeito das teorias políticas, facultando a Montesquieu estabelecer relações entre as instituições políticas e o ambiente físico. Com Rousseau e Kant surgiram os pródromos da ética política, encaminhando o pensamento para a razão. Com Hegel se iniciou a filosofia do Estado, que iria estimular Marx e Engels a formularem o conceito do materialismo histórico, que prevê o desenvolvimento da História, no qual há sempre algo que cresce trazendo no seu bojo o germe da própria morte, sendo o fenômeno econômico preponderante em toda a sua edificação. No presente, a política apresenta uma conceituação apriorística e subjetivista, um permanente vir a ser...

Essa ciência e arte, no entanto, ainda não encontrou o devido respeito por grande parte daqueles que se alimentam da sua estrutura - alguns políticos - que se embrenham pelos complexos caminhos da governança de povos e nações que estertoram sob o seu jugo inclemente.

Pode-se então considerar uma política trabalhada pelos valores éticos e culturais da criatura humana e outra que decorre da astúcia e dos interesses subalternos de alguns indivíduos inescrupulosos que a denigrem, utilizando-se de hábil maniqueísmo para defraudar os valores que dignificam a sociedade, ascendendo aos postos de destaque e de mando a que aspiram, e os alcançam pisoteando as vítimas que lhes tombam nas armadilhas bem urdidas.

Organizando partidos, alguns ignóbeis nas suas estruturas, esses indivíduos pretendem alcançar os objetivos eleitorais, quando em regime democrático, utilizando-se de quaisquer meios que lhes sejam factíveis.

Esses grupamentos são criados para defender os interesses dos seus membros em detrimento dos deveres para com os cidadãos e o país, caracterizando-se pela ausência de uma filosofia idealista superior, que se encarregaria de estabelecer direcionamentos éticos de conduta e de ação.

Nesse caso, derrapa-se na politicagem, que responde pela corrupção dos seus membros e pela infelicidade das massas, sempre enganadas e esquecidas.

Desde as cidades-estados na Grécia que os idealistas se propuseram a construir uma política saudável, tendo os seus postulados fincados nos deveres e responsabilidades dos seus membros, para que resultassem direitos equilibrados da sociedade e do cidadão.

Todavia, o absolutismo sempre sobrepairou triunfante em relação ao sentimento democrático e as arbitrariedades consumiram vidas, eliminando os conteúdos elevados da dignificação humana.

Durante estes passados seis mil e quinhentos anos aproximadamente de cultura e civilização, os governantes dos povos mais se apresentaram na condição de sicários do pensamento e das nações, ditadores e imperialistas, que implantaram regimes arbitrários e odientos, argamassados pelos cadáveres insepultos das suas vítimas - todos aqueles que aspiravam pela liberdade e pela fraternidade, sonhando com a igualdade - e que foram afogados em rios de sangue e lágrimas ou que apodreceram em calabouços infectos nos quais as suas vozes foram silenciadas... Os idealistas, por sua vez, foram em número quase insignificante.

Filósofos, poetas, estadistas, com as naturais exceções, tiveram poucas oportunidades no contubérnio da política através dos tempos, que se apoiava na intimidação, na traição, no suborno, quando não através de guerras hediondas e devoradoras que esmagavam com os seus carros de combate os mais fracos que se atreviam a levantar-se em oposição aos seus desmandos.

Apesar da larga história do absolutismo do poder, de que se vêm utilizando muitas religiões que se secularizaram, seguindo os mesmos infelizes mecanismos da politicagem mundana, a Democracia sempre tem ressumado, proclamando os direitos humanos, a liberdade de pensamento, de expressão, de atividades, contribuindo para a valorização do homem, da vida e de todos os elementos que pulsam na Terra.

Despedaçados muitas vezes esses ideais democráticos, sempre parecia que não mais volveriam, ressurgindo depois, embora mediante pálidas expressões responsáveis pelas futuras demarcações históricas que se encarregarão de preparar os porvindouros dias felizes para a Humanidade.

Isso porque, na sua marcha inexorável, a morte consome os abomináveis adversários da sociedade, que deixam rastros de horror para escarmento daqueles que virão depois.

Esse ditadores asfixiam, enquanto governam, a cultura e o progresso, e perseguem a inteligência, inimigos impiedosos dos ideais de engrandecimento moral dos homens, que encarceram e vilipendiam mediante processos inconfessáveis, nos antros morbíficos aos quais são atirados.

Aplicam essas medidas pensando evitar o despertar das consciências das massas - os antigos camponeses de todos os tempos - hoje apresentadas como os favelados, os sem teto, os sem terra, os sem alimentação, os sem educação, os sem dignidade social, os excluídos...

Sucedem-se esses desditosos governantes, hoje substituídos por hábeis portadores de ironia pelos fracos e dependentes, e a sua indiferença pelos pobres e sofredores, os politicamente sem voz, porque os seus representantes são silenciosos a peso de ouro e de projeção na maquinaria do poder, e assim estão por causa da ignorância em que se demoram, já que, incultos, não têm capacidade para discernir quais os verdadeiros cidadãos capazes de os governar, vendendo a alma por ninharias, elegendo os já poderosos que pensam apenas em si mesmos e nos interesses do seu grupo, do seu partido, das suas paixões.

Em todos os tempos houve manipuladores e vítimas das suas hábeis urdiduras mentais, revelando-se notáveis políticos enganadores, que não passaram despercebidos dos filósofos, sociólogos de ontem como dos estetas de hoje, que os imortalizaram, bem como as suas maquinações em obras de superior qualidade literária.

A Idade Média foi rica de famigerados governantes, que substituíram os chefes bárbaros dos períodos anteriores e que a Revolução Francesa tentou impedir que voltassem a dominar a Humanidade.

Os códigos elaborados pelos filósofos revolucionários de 1789, porém, não foram respeitados pelos aderentes apaixonados, que se responsabilizaram pelos dias de terror, que se fizeram piores do que as negligências e degradantes condutas da Casa Bourbon que fora derrubada pouco antes aos gritos harmônicos dos ideais grandiosos.

Em simulacro de democracia de emergência girondinos e jacobinos discutiam na Assembleia digladiando-se e condenando-se reciprocamente, ansiosos pelo po
der que passava de umas para outras mãos mais ambiciosas e autocratas.

O século XIX desenhou uma Era Nova para o mundo submetido ao colonialismo europeu que, desde a Constituição de Filadélfia ensejou a Tiradentes o sonho de liberdade para o Brasil, trucidado, porém, pela alucinação de D. Maria I, de Portugal.

Os ventos da liberdade são inestancáveis e prosseguiram derrubando as fortalezas do absolutismo, substituindo títeres e reizetes, potentados e militares famigerados, esquecidos dos seus valores de defensores do povo, que se perderam no pó dos museus e na memória dos perturbados, ficando os espaços por eles utilizados para outras experiências humanas...

Regimes diversos e filosofias políticas variadas apresentaram-se nas áreas social e econômica, deixando as marcas desditosas dos seus corifeus apaixonados, que assumiram o poder e esqueceram do povo, ao qual prometeram auxílio, defesa e liberdade, olvidando-o depois e sacrificando-o, inexorável, impiedosamente.

Mortos e odiados, os monumentos que ergueram à própria vaidade, e os títulos honoríficos fabulosos com as respectivas medalhas e homenagens que se atribuíram em fascinante e louco narcisismo, foram derrubados, revogados, detestados, como advertência para os futuros dominadores de um dia.

A Democracia paira soberana acima das paixões dos grupelhos e dos partidos, sendo o método de governo através do qual o povo é-lhe a alma. Um povo, porém, esclarecido, que pensa e tem dignidade para eleger, sem a hipnose da multimídia contemporânea, que o poder maneja a serviço da própria promoção e os ricos de um momento elaboram para a ampliação das fortunas que já possuem.

Passo a passo, lento, por certo, o processo de liberdade humana já se apresenta e se podem conhecer os deslizes e as torpezas antes ocultados, por serem praticados pelos poderosos e governantes truculentos, facultando se possa aspirar por momentos menos penosos e por dirigentes mais lúcidos e mais honestos.

A Democracia vencerá, porque foi vivida em toda a sua grandeza, quando Jesus, o Democrata por excelência, instalou na Terra o reino dos céus, concedendo a todos direitos e deveres igualitários.

Convivendo com o povo, que amava, não desprezou os poderosos, os pusilânimes, a todos recebendo com a mesma simpatia e misericórdia, auxiliando-os no crescimento pessoal e na solidariedade de uns para com

Aos primeiros tempos, após a Sua morte e ressurreição, os Seus seguidores instalaram nos grupos que O reverenciavam, o regime democrático ideal, através do qual todos eram iguais, diferenciando-se apenas pelas conquistas éticas e espirituais, mas sem qualquer superioridade exterior, de casta, de raça, de classe, de fortuna, de privilégio, que somente apareceram com o surgimento da decadência da fé e da arbitrariedade governamental de Constantino, por ocasião do Edito de Milão, apresentado no dia 13 de junho de 313, quando o Cristianismo começou a transformar-se em religião do Estado romano, o que aconteceu com Teodósio I, no ano de 380, por ocasião do Edito de Tessalônica.

A política democrática, que faculta dignidade humana e respeito à Vida, vencerá as barreiras deste milênio em crepúsculo, a fim de que o homem e a sociedade do futuro sejam realmente lúcidos, conscientes e responsáveis, facultando as conquistas libertadoras, nas áreas da cultura, da moral e da civilização.

Salvador, 23 de setembro de 1998. 

Joaquim Nabuco por Divaldo Franco do livro:
Luzes do Alvorecer

Curta nossa página no Facebook:

Declaração de Origem

- As mensagens, textos, fotos e vídeos estão todos disponíveis na internet.
- As postagens dão indicação de origem e autoria. 
- As imagens contidas no site são apenas ilustrativas e não fazem parte das mensagens e dos livros. 
- As frases de personalidades incluídas em alguns textos não fazem parte das publicações, são apenas ilustrativas e incluídas por fazer parte do contexto da mensagem.
- As palavras mais difíceis ou nomes em cor azul em meio ao texto, quando acessados, abrem janela com o seu significado ou breve biografia da pessoa.
- Toda atividade do blog é gratuita e sem fins lucrativos. 
- Se você gostou da mensagem e tem possibilidade, adquira o livro ou presenteie alguém, muitas obras beneficentes são mantidas com estes livros.

- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui seu comentário, sugestão, etc...