Adiantamentos
Emmanuel
- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles, a razão e a universalidade.
Naturalmente que a fé em Deus presidir-nos-á todos os movimentos da vida, se nos propomos a avançar com o progresso, à feição da seiva permanente na árvore, a fim de que ela corresponda ao seu nobre destino.
Entretanto, a fé em Deus não pode excluir a fé em nós mesmos.
Não encorajamos aqui as falsas alegações daqueles irmãos menos responsáveis que superestimam os próprios valores, alardeando qualidades de que se mostram distantes, mas sim o equilíbrio das consciências valorosas que não desconhecem os deveres que o mundo lhes conferiu.
Cada alma carreia consigo recursos divinos que é preciso multiplicar, riquezas imperecíveis que é necessário estender.
Eis por que a fé será dinamismo criador do bem de todos ou não passará de enfeite inútil nos lábios.
Se Jesus estivesse circunscrito à fé no Poder Divino, cruzando os braços, em doce reserva nas Esferas Superiores, decerto não teria vindo ao encontro da Humanidade, exemplificando o amor universal que lhe flui de cada lição e lhe reponta de cada gesto.
E se não confiasse no homem, cujas energias interiores veio despertar para a fé em si mesmo, indubitavelmente, não se teria consagrado à obra da redenção terrestre até o sacrifício supremo.
É que não vale acreditar na bondade, sem que sejamos bons, nem exaltar os méritos da justiça sem sermos justos.
Não te detenhas, em nome de Cristo, na adoração expectante daqueles que simplesmente se confiam à inércia.
Vale-te das horas para marchar, com o tempo, no rumo da Luz Perfeita.
Mobiliza as possibilidades de que dispões, acorda e vive, sabendo que acordar é compreender e viver é lutar pela própria ascensão.
Estuda, trabalha, progride, renova-te e aperfeiçoa-te.
Se aspiras a conquistar a intimidade do Cristo não te imobilizes na ilusão.
Lembra-te de que o Mestre colocava ênfase expressiva ante cada enfermo recuperado, exclamando convincente:
-"A tua fé te curou".
Nenhum dos beneficiários de seu amor chegou a restaurar-se sem os talentos da fé positiva e justa, em cada um deles entesourada.
Não te esqueças, ainda, de que se o Senhor proclamou que "a fé transporta montanhas", também nos advertiu:
-” Conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres".
Reconheçamos: para que a nossa fé não se aprisione nas grades do fanatismo é indispensável que discernimento nos auxilie a caminhar.
A dor é o caminho.
A alegria é a meta.
A luta é o veículo.
O aperfeiçoamento é a realização.
Vejamos a assertiva nos ângulos mais simples do quadro material em que estagiamos.
Os fios de condução da energia elétrica nasceram na condição mais humilde, mas, ligados à força da usina, transformam-se em mensageiros da luz.
O tijolo singelo em que se erige a parede que nos abriga passou pelo clima sufocante do forno, antes de converter-se em soldado da segurança.
A mesa que nos serve ao trabalho sofreu o império da lâmina que lhe suprimiu as arestas; no entanto, é presentemente um altar da cultura, em que se acomodam o entendimento sadio e a vibração da fraternidade, o livro edificante e o calor da oração.
As rosas que nos emolduram a noção de beleza, muitas vezes, são herdeiras do estrume; no entanto, se ainda ontem, desabrochavam na vizinhança do lodo, revelam-se agora por ânforas de perfume.
Ninguém pode negar o golpe do malho na bigorna ardente para modelar o ferro deseducado; entretanto, o suplício do fogo é um minuto de aflição plasmando a utilidade preciosa que seguirá servindo, na exaltação do conforto, por tempo indeterminado.
A semente na cova padecerá constrição e isolamento, contudo, após dias breves de asfixia e inquietude, elevar-se-á, generosa, por árvore dominante, a exalçar-se nas cores da primavera e a contribuir no tesouro do pão.
Em verdade, é preciso lutar para superar-nos; entretanto, é indispensável contemplar os cimos, se nos propomos atingir o templo solar.
Fixar demasiadamente a noite é perder a visão do dia renascente.
Buscar a revelação da aurora é alijar o grilhão das trevas.
Realmente, o Evangelho de Jesus é um poema de trabalho e de sacrifício a que não faltam a enfermidade e o desespero dos homens, com a flagelação e a cruz para o Emissário Divino.
Todavia, a Boa Nova do Cristo começa nos cânticos das legiões celestes, acompanhados por vozes angelicais de pastores, consolida-se numa festa esponsalícia em Caná, avança com as esperanças e com os júbilos dos penitentes aliviados, detém-se nas fulgurações do Tabor e termina com a Ressurreição do Mestre Inolvidável em pleno jardim.
Cultivemos otimismo e serenidade, coragem e bom ânimo, acima das lições que nos reserva o caminho, de vez que toda nuvem chega e passa, toda tempestade surge e desaparece, porque, diante de Deus, que nos criou para a imortalidade triunfante, só a luz e a alegria querem a eternidade, a gloriosa eternidade...
Há muitas vozes no mundo.
Vozes de falso prazer,
De azedume e desalento
Que mandam esmorecer;
Vozes de injúria e sarcasmo
Que se perdem no zum-zum,
De cólera e zombariaQue afligem a qualquer um;
Vozes de ódio e frieza,
De revolta e teimosia,
Nas quais, por vez sem conta,
Eis que o pior principia;
Vozes de sombra e rudeza,
De pedradas a granel,
Que caem sobre a pessoa,
Lembrando calhaus de fel;
Vozes de mágoa ou de queixa,
Sempre que há zebra na estrada;
Vozes de fogo e trovão
Formando a barra pesada;
Mas todas passam por nós,
Fazendo barulho em vão,
Se temos a voz de Cristo
Por dentro do coração.
“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”
Escuta, coração!...
Se buscas atingir a vitória do bem,
Se desejas que a paz se te instale nas horas,
O programa é servir sem desprezar ninguém...
Contempla a terra em derredor
E reconhecerás com nitidez
Que sem base de ação e tolerância,
Nada de bom se fez!...
O chão que suportou enxada e golpe
É sempre aquele chão
Onde a vida se dá e depois se retoma,
Em láureas de verdura e tesouros de pão...
A fonte que te ampara não se oculta,
Em descanso vulgar,
É aquela que não teme pedra e lodo
E cede apoio ao rio à procura do mar.
Observa mais longe:
No anseio de progresso a que o tempo te induz,
Sem força ou combustível que se gastam,
Pereceria a Terra, ante a morte da luz.
Se sonhas mundo novo, serve e segue,
Não pares, nem te deixes combalir,
O trabalho presente aproveita o passado
Para tornar mais alta a bênção do porvir!...
Não te prendas à sombra da tristeza,
Nem te entregues à queixa amarga e vã.
Auxilia, perdoa e releva hoje
E encontrarás mais bela a vida de amanhã!...
Examina conosco, alma querida:
Seja onde seja e seja com quem for,
Deus, em tudo, é a presença da bondade
Que a tudo envolve e guarda, em cascatas de amor!...
“Não situeis a candeia sob o velador”
Semelhante apontamento do Divino Mestre não envolve o impositivo de nossa palavrosa adesão à verdade.
Sem dúvida, o verbo criador de luz é sempre o alicerce inamovível do bem; no entanto, a candeia do ensinamento evangélico reporta-se, essencialmente, à nossa atitude.
O exemplo será em todos os climas a linguagem mais convincente.
Por nossos passos revelamos o próprio rumo.
Pelos gestos, que nos sejam próprios, estabelecemos a propaganda real de nossos objetivos.
Não olvidemos que é imprescindível erguer o facho da compreensão com Jesus, através da vida prática, arrebatando-a ao velador de nossas conveniências.
Para o orgulhoso, a candeia simbólica do Cristo é a humildade.
Para o inimigo, é a desculpa sincera.
Para o triste, é o consolo.
Para o faminto, é a fatia de pão.
Para o infeliz, é o amparo justo.
Para o colérico, é a serenidade.
Para o desertor, é a bênção da prece.
Para o mau, é a lição do bem.
Para o descrente, é a fé viva.
Para o desanimado, é a esperança.
Para o superior, é o respeito.
Para o subalterno, é a benemerência.
Para o lar, é o amor praticado.
Para a instituição a que nos ajustamos, é a correção no dever.
Para todos os que nos cercam, é a cordialidade e a gentileza, o entendimento e a boa vontade.
Não nos esqueçamos de que o Cristianismo não é simplesmente a estática da fraseologia e da adoração. É, acima de tudo, a dinâmica do trabalho para que o mundo receba por nosso intermédio a luminosa mensagem da imortalidade triunfante.
Jesus, o Mestre Inesquecível, não ocultou a candeia do próprio coração, sob o velador da grandeza celestial, mas desceu até nós e imolou-se na cruz para que lhe descobríssemos no exemplo o caminho para luminosa renovação.