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quinta-feira, 10 de julho de 2025

Assistência Espiritual

Assistência Espiritual

Deolindo Amorim


Uma questão ainda muito discutida na seara espirita é a da intervenção dos Espíritos nos interesses humanos. Embora os ensinos da Doutrina sejam claros e compreensíveis, as interpretações a este respeito, às vezes, são desiguais, inevitavelmente.

O bom senso com as luzes da doutrina, seria suficiente para colocar a questão em seu verdadeiro lugar sem conflito de opiniões. Há certas questões doutrinárias, em cuja análise deve entrar indispensavelmente o bom senso de cada um.

É o caso, por exemplo, da assistência dos Espíritos, quando se trata de necessidade material.

Os Espíritos amigos, os protetores, afinal, não são indiferentes às dificuldades materiais de cada um de nós, segundo os fatos constantemente observados.

Exagera-se, porém, a concepção do verdadeiro papel dos Espíritos nos atos humanos. Quase sempre a questão vai para um extremo ou para outro, ou dificilmente fica no meio termo. Algumas pessoas admitem que os Espíritos devem intervir em tudo, dirigindo os nossos passos, acompanhando os nossos pensamentos, ao passo que outros sustentam que os Espíritos devem ficar absolutamente à margem de qualquer assunto deste mundo. Mas, segundo a Doutrina Espírita, o mundo espiritual não é uma continuação do mundo material? As vibrações deste mundo não têm repercussão no Além? De um lado ou de outro ao que parece, há pouco equilíbrio entre o pensamento da Doutrina e a realidade. Os Espíritos não nos auxiliam, é certo, como nós prevemos, porque a assistência espiritual, em qualquer situação, está condicionada ao merecimento de cada um, isto é, assistência na acepção de auxílio. Entretanto, de acordo com a própria palavra do Cristo — “batei, e abrir-se-vos-á”, podemos receber o socorro do Além, da Bondade Divina por intermédio de um “sopro de inspiração”, de uma ideia feliz, em momentos difíceis, em situações aflitivas. Os Espíritos, de fato, não podem revogar a lei a que estamos sujeitos, como não podem modificar o curso de um ciclo de provas, nem destruir, em nossa existência presente, situações oriundas de encarnações anteriores. Ainda assim não estão eles de todo privados de nos prestarem assistência em certas ocasiões. Sem que tal ou qual forma de auxílio possa ferir a lei de causa e efeito, ponto de apoio da filosofia reencarnacionista, os guias espirituais, os Espíritos familiares, principalmente, dispõem de meios para atender aos nossos apelos, não de uma forma ostensiva espetacular, mas dentro dos limites de nosso merecimento e de acordo com a sinceridade de nossas intenções. No Capítulo XXVI, de “O Livro dos Médiuns” (Das perguntas que se podem fazer aos Espíritos), há esta interpelação, entre outras da mesma natureza:

“Podem os Espíritos familiares favorecer os interesses materiais por meio de revelações?"

Eis a resposta:

"Podem e algumas vezes o fazem, de acordo com as circunstâncias; mas ficai certos de que os bons Espíritos NUNCA SE PRESTAM A SERVIR A CUPIDEZ."

As perguntas honestas não deixam de merecer a atenção dos Espíritos protetores, embora nem sempre, conforme as circunstâncias, está dito acima, possam elas ser satisfeitas plena e imediatamente. Há, porém, necessidades que, no fundo, não passam de cupidez e extravagância. E nestes casos os Espíritos não podem proceder como se fora um pedido justo, criterioso. O indivíduo, suponhamos, que pede a seu Espírito protetor que lhe dê um meio de ganhar muito dinheiro para gastar no cassino, evidentemente não faz jus ao carinho, à bondade de um Espírito elevado. Os Espíritos de Luz não auxiliam o vício, a ganância, a licenciosidade, porque isto seria o mesmo que retardar a evolução. Um pedido insensato não pode encontrar guarida na inteligência de um Espírito sensato. E se tal fosse possível, a intervenção dos Espíritos nas coisas do mundo material teria as mais desastrosas consequências sociais.

Se qualquer um de nós sempre que pedisse algum auxílio do Alto, fosse atendido imediatamente, adviria disto a maior ociosidade, por força do hábito em detrimento do “esforço próprio”, que é o caminho da evolução. Entretanto, não podemos dizer, de um modo sistemático, que os Espíritos não nos ajudam, quando é possível, em nossas necessidades materiais. O próprio Allan Kardec, comentando as respostas que recebera a propósito do assunto, diz o seguinte:

“Os nossos Espíritos protetores podem, em muitas circunstâncias, indicar-nos o melhor caminho sem, entretanto, nos conduzirem pela mão, porque se “assim fizessem, perderíamos o mérito da iniciativa e não ousaríamos dar um passo sem a eles recorrermos, com prejuízo de nosso aperfeiçoamento.” (O Livro dos Médiuns, Cap. XXVI.)

É verdade que os Espíritos não nos revelam “tesouros enterrados”, nem o “dia da sorte grande", por exemplo, mas nos dão ideias felizes, nos trazem alento e esperança, nos momentos de maior incerteza.

Os Espíritos, enfim, não vão bater de porta em porta para nos dar meios de vida, mas nos apontam o caminho, nos dão coragem, e nós que trabalhemos, que nos movimentemos. Quando estamos em sérias dificuldades, às vezes atônitos com alguns problemas inadiáveis, e nos aparece, inesperadamente, um amigo, um conhecido, um companheiro de ideal que nos ajuda naquela emergência, nem sempre queremos ver em tudo isso a providência, a mão invisível de um amigo espiritual, que desce até nós, para nos trazer auxílio, aproximando-nos de alguém que serve de instrumento de nosso benefício.

Os Espíritos nos auxiliam, é verdade, mas precisamos agir também por iniciativa própria.

Muita gente de boa-fé excessiva deseja intervenção dos Espíritos até nos assuntos vulgares. É o outro extremo da questão. Devemos pedir auxílio aos Espíritos justamente quando nos defrontamos com situações que estão acima de nossa capacidade, de nossos recursos, poupando, porém, os nossos guias sempre que precisarmos resolver coisas simples, que dependem exclusivamente de nossa inteligência. Os Espíritos amigos nos inspiram, nos orientam, nos transmitem a indicação de um rumo certo, mas não tomam o nosso lugar, o nosso posto de ação no conjunto em que vivemos. É ainda de Allan Kardec esta ponderada advertência:

“Fora abusar da condescendência dos Espíritos familiares e equivocar-se quanto à missão que lhes cabem o interrogá-los a cada instante sobre as coisas mais vulgares, COMO O FAZEM CERTOS MÉDIUNS. Alguns há que, por um sim, ou por um não, tomam do lápis e pedem conselho para o ato mais simples. Esta mania denota pequenez nas ideias, ao mesmo tempo que a presunção de supor, quem quer que seja, que tem sempre um espírito servidor às suas ordens, sem outra coisa mais a fazer senão cuidar dele e dos seus mínimos interesses.”

O bom senso, portanto, à luz da elucidação do Codificador da Doutrina, é que, nas ocasiões necessárias, saberá distinguir as ideias vulgares das elevadas. Nem tudo se deve perguntar aos Espíritos. Nenhum ponto da Doutrina deve ser interpretado com radicalismo. O raciocínio individual não pode ser dispensado no exame de qualquer tema ou questão, sob pena de prejuízo para a própria compreensão dos assuntos e do pensamento do Codificador. Não constitui sacrilégio nem profanação uma súplica sincera a um Espírito para determinado auxílio de ordem natural. Tais auxílios são prestados de forma indireta, velada, mas não deixam de ser uma prova, e prova eloquente, de que todo aquele que sabe pedir recebe o salário a que tem direito. É a lei da justiça. Não devemos, porém, vulgarizar a assistência espiritual, chamando os Espíritos para resolverem problemas insignificantes ou removerem dificuldades que nós mesmos criamos pela nossa imprudência. Ai de nós, finalmente, neste planeta de tanta incerteza, se não contássemos com a orientação, o auxílio, a bondade dos Espíritos amigos...

 Jornal Mundo Espírita” — Curitiba/PR - Fev. 1945

Deolindo Amorim do livro:
Análises Espíritas - Compilação de artigos de Deolindo Amorim , organizada por Celso Martins.

Nota do compilador (Celso Martins): Corroborando em toda a linha esta oportuna análise de Deolindo Amorim, eu me lembro de que, nos anos 60, quando era ainda membro da Mocidade Espírita de Nova Iguaçu, fui procurado por um senhor desejoso de obter uma comunicação mediúnica. Curioso, quis saber dele o que é que ele queria conversar com os Espíritos. E espantado fiquei com a resposta: aquele senhor desejava comprar uma chácara para criar aves e queria saber das “entidades do Centro” se poderia ou não fazer uma certa transação imobiliária! É por estas e por outras semelhantes que Deolindo Amorim deixou esta página que de modo algum poderia ficar esquecida num recorte de jornal.

Deolindo Amorim do livro:
Análises Espíritas - Compilação de artigos de Deolindo Amorim , organizada por Celso Martins.

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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Assistência Espiritual

Assistência Espiritual

Humberto de Campos



Constantino Saraiva tornara-se muito conhecido por suas produções mediúnicas e, embora sua cota de tempo e possibilidades materiais continuassem exíguas, conquistara amizades numerosas, ensejando involuntariamente enormes expectativas em torno do seu nome.

Toda missão útil, porém, encontra obstáculos nos lugares onde a luz não foi recebida pela maioria dos corações, e Constantino, dada a ampliação natural das responsabilidades, tornara-se alvo de forças inferiores, no visível e no invisível. Companheiros encarnados seguiam-lhe os passos, ansiosos por saber se dava testemunho pessoal das verdades de que se constituíra instrumento e as entidades vagabundas, deslocadas do vampirismo pelos Espíritos Superiores, a se fazerem sentir por intermédio dele, anotavam-lhe as mais insignificantes atitudes e não lhe perdoavam a decisão de manter-se firme na fé, apesar de tropeços ou tempestades.

Criou-se, assim, em derredor do médium Saraiva, considerável bagagem de lutas. É de justiça, contudo, advertir que esse movimento hostil não derivava apenas do psiquismo de Constantino, mas para combater o venerável Fanuel, o Espírito sábio e benevolente que ministrava substanciosas lições por meio de suas faculdades.

Os malfeitores desencarnados desenvolviam todos os recursos de insinuação. Recebia Saraiva propostas de salários vultosos, convites para mudar de situação; e como não vingasse a sugestão do ouro, tentaram o trabalhador no capítulo do sentimento. Feriram Constantino nos sonhos mais íntimos do coração; mas, preparado contra os alvitres da luxúria, resignou-se o médium e a máquina de serviços continuou sem perturbações. Tal serenidade, todavia, não vinha à superfície por conquistas dele próprio, mas porque Fanuel montava guarda ativa e permanente, cooperando na integridade e desdobramento da tarefa.

A situação caracterizava-se por notável harmonia, quando os adversários gratuitos prepararam sutil cilada, em que o médium seria vítima das próprias intenções.

Grande número de confrades, de populosa cidade, realizava valioso empreendimento para difusão do Espiritismo evangélico, mas, a ambição e o egoísmo, a breve trecho, acocoraram-se como dois monstros na empresa dos obreiros desprevenidos. A obra ameaçava ruir.

Amigos da véspera dividiam-se em campos opostos. Envenenados de personalismo destruidor, brandiam as armas da insídia e da leviandade, através de Tribunais e Secretarias.

A obra generosa transformara-se, pela invigilância da maioria, num grande movimento de ambições comercialistas. Inegavelmente, havia ali, como em toda parte, trabalhadores honestos e sacrificados, mas, qualquer solução justa só poderia resultar de uma cooperação geral.

No auge da luta, os caricaturistas da zona invisível lembraram o Saraiva. Não seria chegado o momento de lhe inutilizar as energias desferindo golpes no Instrutor espiritual? Alguém chegou mesmo a declarar sutilmente:

– Insinuaremos a vinda do Constantino, e se chamarem Fanuel a esclarecimentos, é natural que não possa ele atender à generalidade, onde há tantos descontentes. Estabelecida a impressão nervosa nos culpados, entraremos a dominar os incautos e promoveremos atritos fortes. É de esperar que o escândalo tome proporções devastadoras e, em seguida, Saraiva há de procurar quem lhe exaltou as qualidades de pião.

Riu-se o grupo gostosamente e deu mãos à obra.

Daí a dias, Constantino foi convidado a visitar a grande cidade, onde lavrava a confusão lastimável. 

Consultaram o chefe de serviço quanto à licença, e como não houvesse embargos de qualquer natureza, Saraiva poderia partir oportunamente. Constantino, porém, assoberbado de obrigações diversas, não desejava empreender a viagem estafante – mais de mil quilômetros de via férrea – e manteve-se no retraimento que lhe era peculiar.

Os malfeitores, contudo, desejavam atingir seus fins e sugeriram sutilmente que se oferecesse a Saraiva homenagens espetaculares. Mais alguns dias e Constantino soube, pelos jornais, que lhe preparavam recepção de grande vulto. Reunir-se-iam os companheiros em preitos honrosos, cada solenidade congregaria número considerável de admiradores e amigos.

Constantino, que não conhecia as tramas e os dramas distantes, comoveu-se ao extremo. Já que se tratava de movimento tão honroso e distinto, abalançar-se-ia à viagem, sem mais hesitação. Orou, meditou. Fanuel aproximou-se e recomendou vigilância. Não era essa, entretanto, a advertência comum, de todos os dias?

Cheio de emoção, o médium não percebia que fora beliscado na vaidade de criatura falível.

No seu modo de entender, devia sacrificar-se, correr ao encontro dos seus irmãos na fé. Não se organizavam homenagens em sua honra? Longe de recordar que semelhantes preitos deviam conferir-se a quem de direito, a começar por Jesus Cristo, e não a ele Constantino, operário a meio da tarefa, ignorando se lhe chegaria a termo, dignamente, começou por antever as demonstrações de apreço, os aplausos gerais, e iniciou providências imediatas. 

Reconhecendo-lhe a perigosa atitude mental, Fanuel procurou socorrê-lo por intermédio do chefe de serviço.

Na manhã em que deliberou em contrário, o rapaz procurou o diretor de trabalho e pediu humilde:

– Doutor, mudei de opinião relativamente à viagem e desejo o favor de sua licença.

Avisado intuitivamente por Fanuel, o interpelado obtemperou:

– Não me oponho aos seus desejos, mas olhe que as necessidades do serviço também mudaram. Seria difícil autorizar sua ausência, agora. Não seria possível adiar o projeto?

– Mas, doutor – considerou o médium –, os companheiros preparam-me grandes festividades para as quais, naturalmente, despenderam recursos e receio passar por ingrato. Além do mais, creio que precisam de minha colaboração nas dificuldades e sofrimentos que arrastam no momento e não desejo parecer indiferente.

Fixou-o o diretor e observou:

– Não tenho interesse em desviá-lo de obrigações que considera sagradas, mas sou de parecer que deve ponderar as próprias disposições. Se pretende viajar em tarefa de auxílio, não esqueça a vigilância. Onde a razão de festivais e homenagens? O regozijo não mora em companhia da angústia.

O médium fora sacudido pelas forças da Verdade, mas não despertou. Fanuel fazia o possível para acordá-lo, mas perdia os melhores esforços. Os dias continuaram registrando a insistência de Saraiva e a natural esquivança do chefe de serviço, até que, notando este a firme resolução do rapaz, não quis parecer tirânico e acabou por dizer-lhe:

– Pois bem, Saraiva, pode ir quando julgar conveniente. Você é dono de sua pessoa e cada qual deve conhecer as obrigações próprias.

Obtida a permissão, o médium tomou as primeiras providências. Nesse ínterim, registrava-se grande contentamento dos adversários gratuitos e enorme preocupação dos amigos sinceros de Constantino.

A escola de Fanuel, na esfera superior, começou a ser visitada por companheiros esclarecidos, desejosos de informações sobre o assunto.

Um velho amigo perguntou ao respeitável mentor:

– Será crível que Saraiva deite a perder patrimônio tão considerável, inclinando-se a aventuras dessa ordem, só por causa de homenagens barulhentas e exaustivas?

– Não é bem isso – explicava o orientador –, Constantino sempre confiou em minha assistência. Tal como a maioria das criaturas, ele não compreenderia nosso auxílio fora da velha ternura terrestre, a exprimir-se em palavras doces. É claro que ele também é Espírito e tem as suas responsabilidades. 

Poderá atender plenamente aos caricaturistas que o alvejam, mas, antes disso, não lhe negarei assistência fraternal. Talvez não nos entenda de pronto, e, contudo, nossa cooperação segui-lo-á.

Mais tarde, veio a devotada mãe de Saraiva e inquiriu:

– Fanuel, venho rogar seus bons ofícios. Creio que a situação é difícil e perigosa.

O mentor generoso tranquilizou a entidade materna:

– Minha irmã pode voltar às suas tarefas espirituais plenamente confiante. Constantino não ficará sem a nossa colaboração.

No outro dia o velho Jerônimo, também grande amigo de Saraiva, depois das primeiras considerações, perguntou:

– Fanuel, por que não procuras eliminar a dificuldade imediatamente? O pobre médium não vive isento da ignorância peculiar aos encarnados no mundo. Não haverá meios de modificar a situação já, já?

O interpelado, com a serenidade de perfeito otimismo, esclareceu:

– Jerônimo, quando viveste na Terra ouviste falar alguma vez de reses estouradas?

– Sem dúvida.

– Pois a mente, quando obcecada pelo impulso do próprio capricho, é como se fora rês estourada – continuou Fanuel, bondoso –, não se pode remediar a situação com êxito, senão a longas distâncias. 

O primeiro recurso é a porteira forte; se esta não vinga, recorre-se ao laço, e tudo isso, embora magoe e fira o animal, constitui medida de salvação de morte certa.

Pelas amizades que conquistou, vive Saraiva em pastagem muito extensa. Para opor-lhe uma porteira, necessitamos longa distância. Ele pretende viajar mais de mil quilômetros. Pois bem; não poderei cercar-lhe a mente caprichosa senão a termo do objetivo. Se falhar a porteira, recorrerei então ao laço, nesse trabalho de assistência.

Jerônimo meditou a explicação sábia e mergulhou em silêncio.

Daí a alguns dias era chamado por Fanuel, que lhe confiava os trabalhos da sua escola ativa, esclarecendo:

– Peço me substituas por três dias. Devo cercar hoje a mente de Constantino. Levarei Natércio, mesmo porque, segundo já sabes, falhando os recursos iniciais, utilizarei outros mais fortes.

E, sorrindo bondosamente, acrescentava :

– Quantas vezes o encarnado quebra uma perna ou se esvai em sangue de escoriações quando socorrido? Devemos admitir providências, que tais, no quadro dos serviços comuns.

Assistirei Saraiva em todas as circunstâncias, e talvez me demore.

Com efeito, nessa noite, o médium chegava à grande cidade, depois de rodar vinte e quatro horas a fio, sobre os trilhos. Antes de atingir a estação dos abraços efusivos e dos aplausos superficiais, um amigo vem vê-lo, trazido por Fanuel, relacionando a ocorrência na série dos casos felizes. Abraçam-se. E quase meia-noite; Saraiva, cansadíssimo, aguarda o conforto da cama de hotel.

O companheiro regozija-se e exclama:

– Por aqui, tudo bem. Algumas dificuldades, mas creio que você gozará horas de entretenimento e descanso. Tenho a impressão de que numerosos amigos nossos disputam em torno de precários patrimônios materiais, mas isso não turvará o seu horizonte.

Enfrentaremos a situação serenamente.

Natércio, o colaborador de Fanuel, aproxima-se do médium e aconselha a oração. Era meia noite, enorme o cansaço, mas Saraiva pede ao amigo que o ajude numa prece. Não deveria inclinar-se à inspiração do Alto, antes de penetrar o terreno de serviços novos? O companheiro acedeu e elevaram mente e coração ao plano superior. Meditaram e esperaram. Fanuel considerou chegada a hora de opor o impedimento prometido.

Tomando a mão de Constantino, escreveu firme:
"Grande é a luta, áspera a discórdia. Nossos irmãos ignorantes da luz espiritual contendem na ambição e no personalismo destruidores. Necessitam de bisturi a fim de vazarem o tumor da má vontade. Quererias servir de instrumento, meu filho, quando estás sendo utilizado em tarefa superior? Considera as responsabilidades que te cabem. E se prezas nossa humilde opinião, regressa a todo pano, antes do amanhecer."
Fanuel não se estendeu em outras considerações. Constantino sentia amarguras de derrotado. E o festival e as homenagens, os amigos inscientes da verdadeira fé? Num átimo, Natércio aplica-lhe fluidos salutares. Saraiva lê a mensagem em voz alta. Está muito pálido, desencantado. Mas os fluidos de Natércio o envolvem inteiramente, atenuando os efeitos dolorosos da volta à realidade e ao dever. Constantino cria forças e diz:

– Se é assim, vamos voltar.

E ante o amigo admirado, tomou o comboio de regresso, pela madrugada, antes do amanhecer.

Entretanto, somente de volta, cessada a influência cariciosa de Natércio, Constantino verificou que sua mágoa era profunda. Viajar mais de mil quilômetros, sacrificar-se e voltar sem atingir o menor dos objetivos?

Dias passaram sobre os seus desgostos, e o médium, na primeira reunião, recebeu encorajadora mensagem de Fanuel, que lhe dizia contente:

– Estou satisfeito. Se não te posso dar boa nota em prudência, concedo-te ótima classificação em obediência. Não te agastes, Constantino. Ninguém pode despertar do sono a toque de ternura. Às vezes, são necessários jatos de água fria. E quem poderá afirmar que isso não seja assistência amorosa?

Saraiva, mais animado, retomou a luta, mas até hoje talvez ignore que, se não ganhara boa nota em prudência, nem mesmo a obediência lhe pertencia.

Humberto de Campos por Chico Xavier do livro: 
Reportagens de Além Túmulo

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- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610 /98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.