Experiência e Autoridade
Deolindo Amorim
Durante muito tempo, nas discussões filosóficas e demandas teológicas, o critério da experiência e o critério da autoridade tiveram muita influência no pensamento crítico. Insurgindo-se contra a última palavra do púlpito ou da cátedra, o que significava simplesmente fazer tábua rasa da autoridade, os apologistas da experiência faziam questão da prova direta, queriam a verificação em campo aberto e não as sentenças dos mestres. Os empiristas invocavam a experiência como valor indiscutível enquanto os tradicionalistas faziam da autoridade o valor decisivo nos critérios da verdade. Praticamente duas posições antagônicas: aceitar uma verdade somente depois de comprovada pela experiência ou aceitar uma verdade mesmo sem prova, somente porque provinha de uma autoridade, que poderia ser um doutor, um teólogo, um filósofo...
Como em todas as posições radicais, (...) o exagero de um lado e do outro prejudicou sensivelmente o equilíbrio. Ninguém, criteriosamente, seria capaz de pôr em dúvida a necessidade da experiência sem submissão integral às noções já prontas e acabadas. Fechar o campo da experiência para não ser irreverente com a autoridade dos mestres, é impedir a evolução, é querer colocar o espírito inquiridor dentro de uma redoma. Em todos os campos a experiência sempre abriu caminho à crítica, a não ser nos períodos obscuros da Humanidade, quando não havia sequer a mínima condição de indagar e discutir... A experiência descobre novos filões e permite uma avaliação crítica mais segura, podendo oferecer até elementos para a revisão de certas posições. Se não fosse o respeito à experiência, o conhecimento humano em grande parte ainda estaria parado no tempo e no espaço.
Apesar de tudo, convenhamos, tanto o valor da experiência como o testemunho da autoridade são relativos. O exagero em que incidiram os partidários das duas soluções é evidente! Nem tudo se pode provar pelos instrumentos da experiência sensível, nem todas as verdades podem ser determinadas pelos compassos de precisão ou dentro dos tubos de ensaio. O fato de se não poder demonstrar com exatidão de uma lei ou de um princípio no banco da experiência objetiva não quer dizer que essa lei não seja verdadeira ou seja fantasia.
A experiência tem suas limitações em qualquer campo de investigação. Seria o caso de negar a existência de Deus, em nome da experiência, por não ser possível prová-la diretamente, segundo o desejo de muita gente... O mundo subjetivo ou mundo íntimo tem realidades que escapam a todos os critérios de comprovação prática. Alguém, porventura, já conseguiu trazer o EU na ponta do escalpelo, apesar de tudo quanto já se fez para penetrar na alma humana ou analisar intimamente a personalidade? Nem por isso seria possível negar a existência do EU profundo no ser humano.
O exagero sempre deforma a visão clara das coisas. Os próprios sentidos humanos, que são o meio mais simples ou primário de experiência, estão sujeitos a equívocos e, muitas vezes, a verdadeiras traições. Um indivíduo apaixonado ou exaltado, ainda que esteja de olhos abertos ou de ouvidos atentos, pode ver uma coisa e confundir o choro de uma criança com o grito de um cão... Os sentidos nem sempre funcionam bem! Quem está sozinho dentro de uma casa vê coisas e figuras apavorantes, confundindo a perna de uma cadeira com uma arma de fogo... Não podemos, pois, dar tanta ênfase aos instrumentos sensíveis do conhecimento.
Se é certo que devemos prezar a experiência como caminho necessário à procura da verdade em qualquer terreno possível, também é certo que não devemos desprezar a autoridade daqueles que viveram suas experiências, mas viveram mesmo, acumulando observações proveitosas, deixando livros e depoimentos que se incorporaram à riqueza moral e cultural do Espiritismo.
Trata-se de um acervo que não pode ser depreciado ou relegado ao rol das velharias, como às vezes se diz.
O maior exagero de muitos partidários da verdade positiva está justamente no fato de exaltarem demais a experiência, fazendo até pouco caso do que já existe ou do que já se escreveu. Por sua vez, os que invocam o testemunho da autoridade e esquecem de que ninguém neste mundo é dono da verdade. O sábio que era autoridade numa ciência há 50 anos, por exemplo, já não pode competir, hoje, com os que estão acompanhando o desenvolvimento científico e tecnológico. Por mais erudito, mais culto que seja um indivíduo, precisa atualizar-se, aparelhar-se com o instrumental da época, a fim de não perder o sentido de continuidade e renovação através dos tempos. Autoridade e experiência, portanto, são conceitos relativos.
Dentro deste panorama de contradições e desvios, o que se nota, no fundo de tudo, é a falta de senso de equilíbrio! Não se deve dar à experiência prática um valor absoluto, assim como não se pode atribuir ao critério da autoridade a força de uma sentença definitiva. O desencontro entre a experiência e o testemunho histórico também se observa às vezes no próprio meio espírita.
A preocupação de fazer Espiritismo exclusivamente experimental, como se fosse apenas laboratório, deixando os princípios doutrinários inteiramente à margem, leva ao exagero de uma formação inevitável — o desinteresse quase ostensivo em relação ao trabalho de outras gerações. Até parece que tudo está começando da estaca zero, como se nada se tentou nem se realizou antes... Ora, e as grandes obras, as pesquisas estafantes, as profundas elaborações do pensamento no patrimônio da literatura espírita? Estaria tudo isso obsoleto?
Claro que o Espiritismo suscita e aceita novas pesquisas, tanto quanto o reexame de posições, sempre que necessário. Mas não é por isso que se deve chegar ao extremo de afastar sistematicamente as obras mais autorizadas, ainda hoje, no campo espírita, como se fossem contos da carochinha! Não...!
Por mais importantes que sejam as experiências, sempre estimáveis, não obscurecem a autoridade, por exemplo, de Crookes, de Aksakof, de Bozzano, de Imbassahy, entre outros autores categorizados. Negar a autoridade desses homens, sem falar em Allan Kardec, que é a base de todo o edifício doutrinário, é querer tapar o sol com a peneira.
É evidente que não podemos ficar apenas no testemunho da autoridade, citando Crookes, Flammarion, etc., pois é preciso estudar e investigar mais, abrir novos campos de perquirição, o que, aliás, está no espírito da própria Doutrina codificada por Allan Kardec. No entanto, também não é justo que se dê mais realce a certas experiências, inegavelmente positivas, no domínio da Parapsicologia e de outras esferas de investigação, querendo fazer crer, por causa disto, que os autores clássicos do Espiritismo, homens que estudaram, observaram e experimentaram seriamente, já não têm mais expressão de autoridade no assunto.
Convém notar, a propósito, que muitas novidades ou descobertas de hoje, se examinarmos bem, se quisermos tirar os rótulos empregados por certas escolas, não estão inovando tanto, não, como poderia parecer à primeira vista. Muita coisa já está em Crookes, em Bozzano, naturalmente com os termos cabíveis nas circunstâncias em que eles trabalharam.
Apesar de tudo quanto já se estudou e realizou em Psicologia experimental, nas técnicas psicanalíticas e nos laboratórios de Parapsicologia a respeito da natureza da alma humana e dos fenômenos inerentes à personalidade e despeito de tudo isto, ainda não se pode encostar O Livro dos Médiuns, como não se pode fechar a vigorosa bibliografia de Gabriel Delanne, cujos livros continuam sendo uma das fontes mais autorizadas no Espiritismo. Dentre eles podemos citar A Evolução Anímica, O Espiritismo perante a Ciência, A Reencarnação, etc.
(...) No terreno filosófico, finalmente, haverá porventura alguma contribuição de natureza humana ou espiritual, que já tenha suplantado a profundidade e a lucidez de pensamento de Léon Denis, autor de livros, como por exemplo, Depois da Morte, Cristianismo e Espiritismo, O Porquê da Vida, O Problema do Ser, do Destino e da Dor? Por que, pois, não estimar, não respeitar a autoridade real de certas obras que estão resistindo aos tempos com toda a integridade? Por que em suma olhar o passado com tanto desinteresse, como se tudo fosse quimera ou sonho romântico se é do passado que nos vem o lastro de experiência? Por que, afinal, relegar a herança que recebemos de outras gerações, se é através da continuidade, dos enriquecimentos e das transformações que se formam as grandes sínteses do conhecimento.
Para terminar, podemos dizer que no meio espírita existem duas tendências desajustadas e, por isso, devem ser reexaminadas criteriosa e serenamente.
Primeira: Valor quase dogmático ao testemunho da autoridade, repetindo o que já se disse, sem um passo a mais no sentido de melhoramento das aquisições científicas e doutrinárias; Segunda: Depreciação da autoridade dos autores históricos, velada ou declaradamente, a fim de exaltar as novas experiências, desprezando tudo quanto constitui o tesouro da cultura espírita.
Ora, nenhuma das duas tendências se compatibiliza com o verdadeiro caráter do Espiritismo pois a Doutrina indica sempre, em todas as situações, o caminho seguro do bom- senso.
Revista Estudos Psíquicos — Lisboa, Portugal — Jun. 1974
Deolindo Amorim do livro:
Ponderações Doutrinárias
(Coletânea de artigos publicados por Deolindo Amorim, em diversos jornais e revistas espíritas do Brasil e do Exterior / Livro organizado por Celso Martins)
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