sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O baú dos pecados

O baú dos pecados

Hermínio C. Miranda



Conta-se que uma boa mãe católica, atenta à formação religiosa dos filhos, desejou, certa vez, conferir se um deles havia de fato aproveitado a lição, certamente contida na prédica, durante a missa a que o menino acabara de assistir:

"Como foi a missa, meu filho?"

"Legal!" - foi a resposta.

"Tudo bem, mas... e o sermão? Você gostou?

"Gostei."

"Sobre quê falou o padre?"

"Sobre o pecado."

"E que foi que ele disse?" O garoto, com tanta sabedoria, quanto poder de síntese, encerrou a conversa:

"Ele é contra."

Também eu sou contra, entre outras coisas, ao aborto.

Ou melhor, sou a favor da vida. Pensara em escrever uma dissertação sobre isso, mas optei por um retalho recortado ao vivo de uma dessas numerosas histórias que os espíritos nos contam.

Eis o que aconteceu.

***

Assim que se acomodou à instrumentação mediúnica, a entidade (era uma mulher) passou a descarregar sobre nós toda a sua fúria. Mal ouvira - se é que ouvira - nossa habitual saudação carinhosa de boas-vindas. Estava indignada e falava compulsivamente, sem parar.

Não é nosso hábito interromper tais manifestações, especialmente a fala inicial, a não ser que estritamente necessário. Afinal de contas, o espírito nos está sendo encaminhado por alguma razão ponderável e ali se encontra precisamente para um confronto nada amistoso com o grupo, empenhado em mostrar sua irritação, formular ameaças intimidantes, desabafar, enfim. Quando se tem medo ou quando alguma coisa dói, a gente chora e grita e reclama. Procuramos ouvir suas razões em silêncio e respeitosamente, certos de que a agressão costuma ser o lado explícito do temor, da angústia, da incerteza, da dor.

Costumamos deixá-los falar, ouvindo-os com atenção e respeito, mesmo porque precisamos saber, tanto quanto possível, o que traz aquele ser desesperado à mesa mediúnica. Sem saber de sua história pessoal, não há como ajudá-lo. Por outro lado, ante a torrente de palavras, não podemos dialogar, pois ele ainda não estaria preparado para ouvir o que temos a dizer-lhe.

Outra coisa: o processo tem algo de catártico e parece drenar as tumultuadas energias que sufocam o coração daquela pessoa atordoada por sua própria aflição. Não há como sustentar por muito tempo a tensão de um destampatório, principalmente porque sua cólera não encontra em nós o incentivo da resistência, da reação de que necessita para nutrir-se.

Foi o que acabou acontecendo. Descarregada a fúria inicial, começamos a colocar algumas observações em voz calma e pausada, sem longos discursos apelativos. Aos poucos, a história dela foi-se desdobrando.

Estava quietinha e feliz no seu canto, quando começamos a perturbá-la. Não tínhamos nada com a vida dela; ela estava muito bem, obrigada; não queria mudar nada; não pretendia sair de onde se encontrava; nem deixar de fazer o que vinha fazendo.

Pelo que depreendemos, levara para a dimensão póstuma pesada carga de equívocos. Por um tempo, ficou exposta ao desespero, à mercê de tenebrosas máfias do além. Finalmente, fora recolhida pela instituição na qual nós fomos "perturbá-la". Em troca da proteção que lhe era proporcionada, prestava "serviços" que, obviamente, não especificou.

Estava consciente de suas responsabilidades, claro. Tinha lá o seu "baú de segredos", mas mantinha-o bem trancado e jamais tentava remexer seus incômodos guardados. A metáfora do baú tem a ver com técnicas hipnóticas com as quais trabalham inteligentes e poderosas entidades gravemente comprometidas com a lei divina. Pessoas resgatadas daquilo que na Codificação Espírita ficou conhecido como erraticidade, são tratadas para esquecer provisoriamente episódios e até vidas inteiras nas quais muitos e sérios foram os erros cometidos. Pelo menos, por algum tempo, as angústias e os remorsos ficam escondidos no "baú" ou, segundo nos disse outra entidade, como que fechadas a chave num compartimento secreto, do "outro lado" da consciência. Para a nossa prezada irmã daquela noite, seus "pecados" estavam no baú, deliberadamente "esquecidos". Até quando..., até um dia... Quando, por exemplo, aparece um grupo de gente intrometida e põe tudo a perder.

Por alguma razão que ainda não se revelara no seu destempero verbal, a mágoa maior era com os homens, seres egoístas, dominadores, irresponsáveis, que se punham como donos do mundo e das pessoas, especialmente das mulheres. Não precisava ir longe não: o exemplo estava ali mesmo no grupo mediúnico, no qual o doutrinador era um homem. Por que não uma mulher?

Sofrera com eles durante sua vida. Eles a engravidavam e depois sumiam, deixando-a sozinha com os problemas decorrentes. E ela não tinha condições de cuidar daquelas crianças. Sua vida e sua "profissão" não o permitiriam. Por isso, eliminava-as ao nascerem. Não disse quantas, mas foram várias. Confessaria mais adiante, em outras vindas ao grupo, que não fazia aquilo insensivelmente. Ficava sempre uma ponta de angústia e remorso.

Um caso foi particularmente dramático. Por uma dessas coincidências, ela e a sua cachorrinha de estimação tiveram filhos no mesmo dia. Quando voltou da bárbara operação de dar sumiço no seu bebê, encontrou a cachorrinha em festa, orgulhosa de seus quatro filhotes. Fez questão de mostrá-los à dona. Parecia dizer: "Não são lindos?" A cena bateu fundo no coração de nossa irmã. Em vez de livrar-se dos filhos, a alegre cadelinha cuidava deles com toda a pureza de seu carinho materno, feliz com o presente que a vida lhe dava!

A moça nunca mais se esqueceria daquilo. Nunca. Nem mesmo quando "guardou" tudo no baú dos pecados.

Voltou outras vezes, para dialogar conosco. Ainda temia pelo futuro. A instituição que até então a abrigara começava a desintegrar-se e muitos já a haviam abandonado. Que fazer? Para onde ir? A quem procurar? Que futuro tenebroso estaria à sua espera? Despencaria novamente naquele abismo trevoso em que ficara à mercê de bandos dementados?

De alguma forma, contudo, estava paradoxalmente mais calma. Conversávamos amistosamente; ouvia com atenção o que tínhamos a dizer-lhe, mas ainda se queixava da nossa "invasão" em suas vidas aparentemente aquietadas num escuro desvão da dimensão póstuma.

Sem ter para onde ir, aceitou ficar algum tempo aos cuidados de nossos amigos espirituais. Até ver o que fazer de si mesma...

Parece que lá teria, afinal, aberto o baú. Meditava sobre o passado e esticava o olhar preocupado para os horizontes, tentando divisar a tênue luminosidade de um futuro incerto. Conversava também com alguns de nossos amigos e amigas espirituais. Num de tais diálogos com uma entidade dotada de grande sabedoria e lucidez, veio à tona o episódio da cachorrinha. Como que a desculpar-se pelos erros cometidos, disse ela que o animalzinho tinha a dona, que a garantia na tarefa de cuidar dos filhotes, mas ela própria não contava com a ajuda de ninguém. A sábia entidade fez uma pausa, sem nenhuma acusação ou censura. E comentou: "Você tinha a Deus".

Propositadamente, nossos amigos espirituais deixavam-lhe tempo suficiente para meditar. Apostavam naquela fagulha de luz que todos trazemos em nós, sejam quais forem as profundezas em que a insensatez nos tenha feito despencar. Recolhia-se ao seu aposento e lá ficava a remexer o velho baú. Deixou-nos a impressão de que não eram somente lembranças amargas ou retalhos de remorso o que encontrava ali. Havia também coisas aproveitáveis, momentos de saudade, lembranças de pessoas generosas, amores iluminados. Nunca praticara aquelas eliminações com fria e calculada dureza, mas angustiada, infeliz, sentindo-se acovardada diante da vida como um todo e diante daquela vida em particular, que ela estava sufocando ao nascedouro.

A despeito de todas as suas dores e mais a sofrida solitude, sentia-se bem entre nossos amigos que a haviam abrigado. Ninguém a perseguia, nem a censurava, ou acusava. Não estava sob julgamento, a não ser o de sua própria consciência. Apenas ouviam-na com atenção e a acarinhavam com palavras de afeto e compreensão, falando da misericórdia de Deus e da sabedoria do Cristo.

Mergulhada em seus pensamentos, a remexer o velho baú dos pecados, mal percebeu, certo momento, que a porta do aposento em que se encontrava se abrira discretamente. A emoção bateu-lhe forte no peito e inundou seus olhos de lágrimas: "quem" acabara de entrar, feliz da vida, como sempre, abanando alegremente o rabinho, foi a sua companheirinha de outrora. Abraçou o animalzinho com todo o seu amor. E ali ficaram as duas, a curtir uma saudade secular. Afinal de contas, aquele bichinho sabia por onde passam os caminhos que levam a Deus.

***

Depois de contar-nos esta história, despediu-se de nós. Estava agradecida pela nossa teimosia em oferecer-lhe o abrigo de nosso coração. O futuro continuava sendo uma incógnita e, por isso, ela pedia que nos lembrássemos dela em nossas preces. E concluiu, em pranto, para indicar o endereço delas: "Meu nome é Guilhermina. Muito obrigada!"

Escrevi sua história a fim de remexer meu próprio baú de emoções (não que não tenha também o dos pecados), mas igualmente para transmitir a você que lê o apelo de Guilhermina. No seu próximo momento de prece, lembre-se dela. E não se esqueça da cachorrinha, que passou a ela um recado não verbal vindo de mais alto. Eu não sei o nome da generosa cadelinha, mas a prece vai alcançá-la também, porque as duas devem estar juntas por aí, em alguma esquina invisível do espaço... E em Deus, como todos nós.

Hermínio C. Miranda do livro:
Visão Espírita para o Terceiro Milênio / Autores diversos

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