domingo, 16 de agosto de 2026

Regressão de memória

Regressão de memória

Joanna de Ângelis


Imagem gerada por IA.

O esquecimento do passado constitui verdadeira misericórdia de Deus para com as Suas criaturas, porquanto faculta o recomeço em novo corpo sem a carga das lembranças tormentosas resultantes dos feitos negativos perpetrados em existências passadas. Outrossim, favorece com o olvido das atividades nobilitantes e dos afetos especiais que hão constituído emulação para o próprio progresso. 

A recordação das ocorrências danosas acarretaria, sem dúvida, uma alta carga de sofrimento derivado do remorso, que dificultaria o prosseguimento dos compromissos elevados. Em consequência, poderia tornar-se um motivo de desânimo gerador de estímulos prejudiciais para o abandono dos deveres ou o medo de enfrentamento dos novos desafios. Ademais, a lembrança detalhada de determinados fatos traria à memória a presença de compares igualmente comprometidos, ou pessoas outras vitimadas, ou ainda responsáveis pelo desar, assim aumentando a animosidade em relação a esses últimos.

Por outro lado, a revivescência dos momentos gloriosos, das afeições especiais se, de uma forma, pudesse transformar-se em emulação para a continuidade do esforço, faria correr o risco, de eleições especiais em detrimento de novas vinculações afetuosas, o que diminuiria o círculo de crescimento fraternal na busca da imensa família universal.

Merece ainda considerar-se que a carga das lembranças da existência atual constitui já um grave comprometimento. Caso se adicionassem aquelas que provêm de experiências transatas, por certo perturbariam o mecanismo homeostático ou de equilíbrio do indivíduo, em razão de não ser possível
suportar-se a soma de emoções que ultrapassam a capacidade de resistência fisiopsíquica.

O organismo humano é portador de um limite de energia própria para suportar emoções e sensações até certo ponto que, superado, se transforma em desajuste dos seus sutis equipamentos psíquicos, produzindo lesões irreversíveis. Por essa razão, muitos seres interexistentes, que convivem simultaneamente nas duas esferas da vida - a material e a espiritual - quando não são moralizados ou não conseguem harmonizar o comportamento com a estrutura psíquica, derrapam em alucinações, em distonias nervosas e mentais de difícil recuperação durante a existência.

O ser humano, apesar de ainda deter-se em faixa mais fisiológica do que psicológica, mais na sensação do que na emoção, já vem granjeando valores que lhe facultam liberar-se de algumas das constrições impostas pelos atos infelizes das reencarnações anteriores, que lhe pesam na economia íntima, gerando sofrimentos rudes, distonias afligentes e problemas outros na área dos relacionamentos interpessoais, dos conflitos sexuais, dos desafios econômicos e financeiros, levando-o a maiores descalabros quando não a fracassos muito perturbadores.

Tendo-se em vista que as Divinas Leis são de justiça, mas também de amor, cumpre que sejam restabelecidos os códigos de honra que foram desrespeitados e sejam recuperados os níveis de harmonia que os atos inditosos produziram.

A reparação dos erros é, por isso mesmo, inevitável, não sendo necessário de forma inexorável que essa recuperação se dê exclusivamente através do sofrimento.

Jesus lecionou que o amor cobre a multidão dos pecados, e, diante da mulher equivocada que lhe lavou os pés na casa de Simão, dominada pela ternura e pelo arrependimento da
existência insensata que se permitia, liberou-a de maiores sofrimentos, confortando-a com a sugestão dignificadora: - Por muito amares, teus pecados são-te perdoados!

Certamente não a liberou das consequências dos atos insanos, porque essas viriam naturalmente como resultado do mau uso do livre-arbítrio. Demonstrou-lhe que através do amor pode a criatura reabilitar-se de quaisquer ações nefandas que se haja facultado, desde que se empenhe na reabilitação, que é a grande meta de todo aquele que busca crescer e ser feliz.

Assim, desde os primórdios da fenomenologia mediúnica e parapsicológica os investigadores da psique humana detectaram que nos seus arquivos atuais se encontram os registros dos comportamentos passados que, de certo modo, estão a ditar-lhes novos procedimentos ou repetições de gravames que se insculpiram como agentes de perturbação.

Nos processos de ecmésia ou recordações espontâneas de vidas passadas, ou mesmo pelo concurso da hipnose, é possível reviver-se experiências esquecidas, por cuja contribuição se pode explicar um sem-número de ocorrências atuais.

Por outro lado, firmados nas infinitas possibilidades dos arquivos do inconsciente atual como do profundo, nobres psicanalistas encontraram nas ocorrências da vida perinatal a causalidade de muitos traumas, fobias, complexos de inferioridade e superioridade, narcisismo, perturbando a conduta dos seus pacientes. Através dos recursos hábeis para esse fim, vêm realizando incursões exitosas, graças às quais liberam muitos sofredores dos seus tormentosos estados d'alma, limpando-os das marcas neles gravadas.

Quando não encontrando essas causas de desajustes na fase atual nem na infância dos enfermos, foram estimulados a recuar a sonda da investigação e chegaram aos processos mais profundos dos registros, aos arquétipos coletivos, que nada mais são do que reminiscências de outras reencarnações, encontrando ali os fatores responsáveis pelos distúrbios que ora os inquietam.

Identificando as causas, trabalharam terapeuticamente nos seus efeitos e contribuíram para que muitos outros sofrimentos enigmáticos cedessem lugar à conscientização das mesmas, superando-as, através do repetir dos fatos, sob auxílio e orientação que demonstram já terem tido lugar e não mais deverem prosseguir emitindo ondas devastadoras sobre o psiquismo atual.

É claro que, em tais evocações sob hipnose ou indução mais suave, o paciente não recorda plenamente a reencarnação anterior, senão é orientado a encontrar o fator que detona o
problema e que nele mesmo se encontra ínsito.

A proposta desafiadora o inconsciente responde com as matrizes danosas, facultando a revivescência do mesmo e a
consequente liberação das suas cargas malévolas.

É claro que o assunto apenas está começando nessa área e muito se há de estudá-lo, a fim de bem penetrá-lo, evitando-se que novas recordações aumentem o somatório do que já existe no consciente, correndo-se o risco de produzir-se inarmonia homeostática.

Ademais, nem todos os pacientes que forem objeto de recordações por tal processo se liberarão dos efeitos danosos dos atos infelizes, isto porque se fazem necessárias a mudança de comportamento para melhor, a alteração dos planos mentais identificando deveres esquecidos ou novamente desrespeitados, que constituirão recurso reparador, libertação dos resultantes cármicos.

A conscientização da responsabilidade do ser humano perante a vida é-lhe a valiosíssima terapia para a conquista da saúde física e mental, sobretudo para a realização moral, cujos pródromos de atividade nem sempre feliz se encontram nos painéis da mente profunda, nos alicerces do inconsciente espiritual.

Qualquer incursão, no entanto, nesses domínios, sem orientação competente e especializada, destituída de objetivos nobres, animada por curiosidade ou frivolidade descabida, sempre resulta em desastre, isto é, em imprevisível sucesso muitas vezes de sabor amargo.

O ser humano é a medida de si mesmo. Autoconhecer-se, penetrando-se cada dia com o esforço para a identificação da sua realidade atual como passada, constitui o grande desafio que está aguardando resolução firme e dedicação contínua de cada qual.

Todo o investimento de amor e de interesse pela autoiluminação deve ser aplicado em favor do processo evolutivo, de forma que não cesse o anelo pelo crescimento interior, pela ampliação dos recursos ético-morais e intelectuais, produzindo sem cessar para o bem e para a vida, na qual irrefragavelmente se encontra incurso.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Dias Gloriosos

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sábado, 15 de agosto de 2026

Um coração renovado

Um coração renovado

Jésus Gonçalves


A noite de 7 de abril de 1955 integrou a semana com que a Cristandade rememorou a flagelação de Jesus. Em nosso Grupo foi mais Intensa a movimentação socorrista em favor dos sofredores desencarnados, dentre Os quais sobressaíram diversos irmãos hansenianos que, mesmo além da morte, revelavam dolorosas fixações mentais de revolta e amargura. Vários dos médiuns presentes foram veículos deles, convocando-nos ao argumento evangélico e à oração para o alívio que reclamavam.

Concluindo as nossas tarefas, no horário dedicado aos Instrutores Espirituais, os recursos psicofônicos do médium Xavier foram ocupados pelo poeta Jésus Gonçalves, desencarnado em Pirapitinguí, que também passou pela provação da lepra, cuja palavra nos trouxe amoroso esclarecimento.

Amigos.

Sou o vosso irmão Jésus Gonçalves, o leproso de Pirapitinguí, a quem o Espiritismo ofereceu nova visão da vida.

Agradeço-vos o concurso fraterno, em socorro dos irmãos hansenianos desencarnados.

Vieram conosco, entre a lamentação e a revolta, perturbados e oprimidos...

No mundo, receberam a chaga física por maldição, quando poderiam utilizá-la como porta salvadora, e, no mundo espiritual, experimentam os efeitos da rebeldia.

Trazem, ainda, na organização perispirítica, os remanescentes da enfermidade que os acabrunhava e, no íntimo, sofrem a indisciplina e a inconformação.

Graças a Jesus, porém, recolheram o benefício da calma, pelas sementes de renovação evangélica espalhadas em vossos estudos de hoje e esperamos possam imprimir, desde agora, novos rumos à própria transformação.

E, agora, peço permissão para orar convosco.

Nesta noite, em que toda a Cristandade se volta, reconhecida, para a memória do Mestre, sentimo-lo igualmente em seu derradeiro sacrifício e, mentalizando-O no madeiro, de alma genuflexa, trazemos a Ele, nosso Eterno Amigo e Divino Benfeitor, a nossa prece de leproso diante da cruz.

Em seguida a leve pausa, o Espírito Jésus Gonçalves modificou a inflexão de voz e, erguendo-se para o Alto, orou, em lágrimas, comovedoramente:

Senhor, eu que vivia em vãos clamores,
Vinha de longe em ânsias aguerridas,
Sob a trama infernal de horrendas lidas,
Entre largos caminhos tentadores.

Tronos, glórias, tiaras, esplendores
E cidades famélicas vencidas...
Tudo isso alcancei, de mãos erguidas
Aos gênios tenebrosos e opressores.

Mas, fatigado, enfim, de ser verdugo,
Roguei, chorando, a graça de teu jugo
E enviaste-me a lepra e a solidão.

E, confinado às dores que me deste,
Abriu-se-me a visão à luz celeste,
E achei-te, excelso, no meu coração.

*

Hoje, Mestre, ante a cruz em que te apagas,
Na compaixão que ajuda e renuncia,
Não te peço o banquete da alegria,
Embora o doce olhar com que me afagas.

Venho rogar-te a túnica das chagas
Para que eu volte à estrada escura e fria,
Em que os filhos da noite e da agonia
Sofrem ulcerações, bramindo pragas...

Dá-me, de novo, a lepra que redime,
Conservando-me a fé por dom sublime,
Agora que, contente, me prosterno!...

E que eu possa exaltar, por muitas vidas,
Sobre o lenho de angústias e feridas,
O teu reino de amor divino e eterno.

Jésus Gonçalves por Chico Xavier do livro:
Instruções Psicofônicas

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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A maratona mediúnica

A maratona mediúnica

Richard Simonetti


Imagem gerada por IA.

Joaquim estava em visita a familiares que residiam em cidade do interior fluminense. Espírita estudioso e idealista, apreciava travar contato com os confrades. Assim, tendo uma sobrinha por cicerone, foi visitar um centro localizado em bairro distante.

Saíram por volta das dezenove horas. Caminhada longa. Sessenta minutos. Quando chegaram a reunião estava no início. Aproximadamente quarenta pessoas num salão de regulares proporções. O dirigente limitou-se a lacônica oração. Em seguida convidou:

- Vamos passar à parte espiritual de nossos trabalhos. Os irmãos que desejarem exercitar a mediunidade queiram, por favor, aproximar-se.

Joaquim estranhou a ausência de estudo antes do intercâmbio com o Além, bem como a oferta indiscriminada. E se todos se julgassem aptos a participar?

Faltou pouco para isso. Pelo menos dois terços dos presentes tomaram assento junto à mesa enorme que dominava o ambiente.

- Meu Deus! - monologou o visitante por dentro. - Nem Kardec reuniu tantos médiuns num grupo tão pequeno! Se todos “funcionarem” a noite será curta!

Não deu outra. Tão desejosos de falar quanto os médiuns em transmitir, os Espíritos não permitiam trégua. Certamente constituíam multidão, a atropelar a disciplina, promovendo manifestações simultâneas sem nenhuma originalidade. Gemiam, choravam, confessavam, tanto quanto orientavam e aconselhavam, numa algaravia, uma confusão de vozes que pouco proveito oferecia.

Contavam com a omissão do dirigente, que raramente intervinha, e a passividade da assistência que parecia ver naquela miscelânea a exorcização de seus males. Somente assim se justificaria que permanecesse horas a fio acompanhando a rotina enfadonha de entidades que repetiam as mesmas banalidades e choravam as mesmas angústias.

Joaquim estava decepcionado. Aquelas manifestações eram numerosas demais, vazias demais, semelhantes demais, repetitivas demais, ressumbrando, vicioso animismo. Sua presença ali pareceu-lhe pura perda de tempo. Aliás, tempo também demais. Já passava das vinte e três horas. Sua sobrinha dormia recostada em seu ombro. Havia a longa caminhada de volta. Sair antes do encerramento pareceu-lhe indelicado. Então, resoluto, começou a orar mentalmente, pedindo o encerramento da reunião.

Aliviado, observou que em breves momentos cessaram as manifestações.

O dirigente ainda esperou alguns minutos. Vendo que nada mais acontecia, pronunciou a prece de agradecimento, dando por encerrados os trabalhos da noite. Em seguida, aproximou-se de Joaquim e lhe perguntou, incisivo, sem preâmbulos:

- O que fez?

-Eu?

- Só pode ter sido o senhor! É o único estranho!...

- Não estou compreendendo...

- A reunião! Terminou muito cedo!

- No meu entendimento prolongou-se bastante.

- Como conseguiu?

- Bem, não sei se tenho a ver com isso. Apenas solicitei providências aos amigos espirituais. É tarde e tenho uma longa caminhada pela frente.

- Mora aqui?

- Fique tranquilo. Sou do Rio. Regressarei amanhã.

- Não estou preocupado nem aborrecido. Ao contrário, gostei de sua atuação. Se morasse em nossa cidade poderia dirigir esta reunião. Certamente conseguiria abreviar nossa maratona.

- Maratona?

- ... Mediúnica. É o grande problema que enfrentamos. Não conseguimos entrar em acordo com os Espíritos. Nossos trabalhos estendem-se madrugada adentro. Não raro passamos a noite aqui. Iniciamos às vinte horas, mas só Deus sabe quando terminamos!

Em qualquer atividade, se pretendemos ser eficientes e produtivos, não podemos olvidar a disciplina, o estudo e o discernimento.

O exercício mediúnico parece situar-se como exceção para desavisados companheiros que desenvolvem o intercâmbio com o Além sem nenhuma noção a respeito do assunto.

Daí existirem agrupamentos mediúnicos onde os mentores espirituais não encontram acesso para um trabalho produtivo e edificante, com manifestações que se multiplicam muito além do razoável e aproveitamento muito aquém do desejável.

Richard Simonetti do livro:
Endereço Certo

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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Antes, porém...

Antes, porém...

André Luiz


Você pede melhoras de saúde.

Antes, porém, socorra o enfermo em condições mais graves.

Você pede, em favor do seu filho.

Antes, porém, proteja a criança alheia em necessidade maior.

Você pede providência determinada.

Antes, porém, alivia a preocupação de outra pessoa, em prova mais contundente que a sua.

Você pede concurso fraterno contra a obsessão que o persegue.

Antes, porém, estenda as mãos ao obsidiado que sofre sem os recursos de que você já dispõe.

Você pede perdão pela falta cometida.

Antes, porém, desculpe incondicionalmente aqueles que lhe feriram o coração.

Você pede apoio à existência.

Antes, porem, seja consolo e refúgio para o irmão que chora em seu caminho.

Você pede felicidade.

Antes, porém, semeie nalgum gesto simples de amor a alegria do próximo.

Você pede solução a esse ou àquele problema.

Antes, porém, busque suprimir essa ou aquela pequenina dificuldade dos semelhantes.

Você pede cooperação.

Antes, porém, colabore a benefício dos que suam e gemem na retaguarda.

Você pede a assistência dos bons espíritos.

Antes, porém, seja você mesmo um espírito bom, ajudando aos outros.

Toda solicitação assemelha-se, de algum modo, à ordem de pagamento, que, para ser atendida, reclama crédito.

A casa não se equilibra sem alicerce.

Uma fonte ampara outra.

Se quisermos auxílio, aprendamos a auxiliar.

André Luiz do livro: Ideal Espírita
de Chico Xavier / Waldo Vieira

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