sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Rogativa do estômago

Rogativa do estômago

André Luiz

1 – Sou a porta de sua sustentação.

Conserve-me limpo.

2 – Posso trabalhar com segurança.

Não me incline à desordem.

3 – Muita vez clama você contra a carestia.

E despende somas consideráveis para desajustar-me as funções e conturbar-me os serviços.

4 – Não me encha de excessos.

Carregando peso desnecessário, é possível venhamos a cair hoje mesmo.

5 – Não me faça depósito de condimento demasiado.

Obedecendo às leis orgânicas, transmitirei ao seu próprio sangue os venenos que você me impuser.

6 – Não me dê bebidas alcoólicas.

Se você fizer isso, não garantirei sua própria cabeça.

7 – Rogo a você afastar-me de todo entorpecente, a não ser por ocasião de tratamentos excepcionais.

Pequena drágea para repouso inconveniente pode, em verdade, aproximar-nos da morte.

8 – Não desejo e nem posso alimentar-me exclusivamente com recursos celestes.

Peço apenas a você discernimento e equilíbrio.

9 – Governe-me contra as sugestões da mesa festiva, mesmo nos mais simples prazeres familiares.

Tenho comigo a chave de sua própria harmonia.

10 – Não me diga que morrerá de fome porque não disponha de mesa lauta.

Por amor de Deus, não olvide que a maior parte das enfermidades vem do prato abundante e que nós não vivemos para comer, mas comemos simplesmente para viver.

(Em referência a O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. XIII / Item 8.)

André Luiz do livro: O Espírito da Verdade
 de Chico Xavier e Waldo Vieira (Espíritos Diversos)

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- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610 /98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Holocausto pela verdade

Holocausto pela verdade

Vianna de Carvalho


Imagem gerada por IA.

As ideias revolucionárias de John Wyclife eram uma claridade esfuziante na terrível noite medieval. O eminente sacerdote e teólogo inglês havia compreendido que não é necessário qualquer intermediário a fim de a criatura alcançar o seu Criador. A Doutrina crista, que luzia na palavra de Jesus, era muito diferente daquela que se ensinava nos púlpitos das igrejas e que se vivia na intimidade palaciana, onde se homiziavam em luxo e poder aqueles que se diziam representantes do Mestre sem teto, despojado de quase tudo, mas enriquecido de Deus.

Foi o primeiro grande clarão que deveria incendiar o pensamento do futuro, abrindo os espaços para o amanhecer da cultura e da dignidade humana, ao lado das grandes conquistas da ciência, da filosofia e da arte.

A Boêmia então se encontrava sob a governança do imperador Sigismundo que negociava com a Igreja de Roma a segurança do trono. Todo o Império Tcheco-eslovaco obedecia cegamente à religião dominante qual acontecia praticamente com todo o mundo ocidental.

O tribunal da Inquisição levava à fogueira milhares de vidas em toda parte. Era o braço forte da doutrina católica estrangulando todos quantos se lhe opunham, realmente ou não, ameaçando igualmente o poder civil, que se lhe submetia sem qualquer disfarce ante a ameaça da ignominiosa excomunhão.

O terror dominava as mentes e a traição estendia suas malhas por toda parte. Denúncias covardes eram acolhidas como serviços à Fé, embora não ocultassem o interesse nos espólios das suas vítimas. A intriga abraçava a hediondez e o mundo respirava os tóxicos morbíficos do ódio e do temor.

Nesse clima de incomparável desconforto moral, o eminente pregador Jan Huss tomou conhecimento da revolução ideológica wyclifeana e por ela deixou-se tocar. Interiormente, também sentia a decadência da religião e a distância que existia entre os seus teólogos e o conteúdo cristalino do Evangelho, conforme Jesus o pregara às multidões que O buscavam. Ao ler as elucubrações e propostas novas, deixou-se arrebatar, e começou a expô-las abertamente, chocando os corifeus do poder e escandalizando a hipocrisia, enquanto as multidões esfaimadas na busca da verdade, acorriam pressurosas para escutá-lo na igreja que o tornara famoso. A cada domingo, a sua voz harmônica, expressando o seu pensamento inspirado que deveria preparar o futuro, atraía maior número de ouvintes ávidos que acorriam de toda parte, da cidade como do campo, incomodando as autoridades invejosas e prepotentes.

Ademais, explicava Huss, que a Doutrina deveria ser exposta no idioma nacional, a fim de que todos tivessem acesso aos ensinamentos libertadores de Jesus, o que mais preocupava os dominadores religiosos, que se ocultavam na ignorância das verdades evangélicas para intimidar e impor-se.

Desenhava-se a Nova Era pela palavra do missionário que, sem receio, invectivava contra o abuso do comportamento, exigindo o retorno à simplicidade, à fidelidade aos dias messiânicos em que vivera o Senhor.

Como primeira medida, os seus inimigos proibiram-no de pregar na igreja, expulsando-o para pequena paróquia nos arredores de Praga, o que levou as multidões fascinadas a seguirem o seu pastor intimorato.

Não podendo silenciá-lo com a medida arbitrária, fecharam todas as igrejas, impedindo que os fiéis tivessem onde e como se comunicar com Deus, apavorando-os.

As acusações e impropérios dos fracos dominadores não foram suficientes para silenciá-lo, quando a terrível ameaça de excomunhão pairou no ar.

Considerando a gravidade da doutrina que pregava, aquela que trazia Jesus de volta às almas aflitas, o imperador convocou o sínodo de Constança, para permitir ao pregador defender-se das graves acusações de heresia.

Informado da atitude imperial e convidado por Sigismundo, que o conhecia desde a Universidade e lhe admirava os ensinamentos, ofereceu-se para ir a Constança apresentar a defesa e expor que jamais se afastara das Escrituras.

Tratava-se de uma aventura muito arriscada e que poderia culminar em traição e morte inevitável.

O missionário porém, confiante na Verdade, escudado por dois cavaleiros que lhe enviara o Imperador, partiu de Praga entre lágrimas dos seus paroquianos e seguiu na direção do holocausto que o esperava.
Compreendendo a manobra dos inimigos do Bem, houvera recorrido ao auxílio de Sigismundo, que lhe era simpático às ideias, dele conseguindo um salvo-conduto, a fim de não ser molestado, podendo defender-se em liberdade.
A construção da verdade no mundo, porém, sempre se fez a esforço hercúleo e sob o elevado preço do sacrifício.
Todos aqueles que se atreveram a erguer a bandeira do idealismo transformador, experimentaram o escárnio e a perseguição gratuita dos seus coevos, que voejavam como abutres vorazes sobre o cadáver das multidões que se lhes submetiam inermes.
Eles, porém, nunca temeram a ignorância nem a crueldade, a ingratidão nem o holocausto, impostos por aqueles que acreditavam na vitória permanente da sombra e na sua imortalidade orgânica, na suposição falsa de que a enfermidade, a velhice ou a morte nunca os alcançariam, demonstrando-lhes a fragilidade física e a transitoriedade de todas as conquistas terrenas.
Esses hediondos promotores do crime dominaram gerações, que submeteram ao talante da sua perversidade, supondo-se inatingíveis, mas sucumbindo, logo
mais, ao peso dos desenganos, quando não da própria alucinação.
Ingênuos e confiantes, os expoentes do amor e do bem sempre se deixaram conduzir pela astúcia dos maus, salvadas raras exceções, por serem nobres e incapazes de trair ou enganar.
Chegando a Constança, o pregador de Husinec procurou o cardeal Antony para justificar-se, e após diálogo caloroso, que somente aumentou o ódio do adversá
rio, foi atirado ao cárcere infecto sem qualquer acusação formal.

O sínodo reuniu-se e começou a julgar o doutor de Praga, não lhe concedendo o direito de defesa.

Nas poucas vezes em que foi convocado, esteve sob os camartelos do ódio gratuito, não conseguindo expor suas ideias.

Coibido o imperador, ante a ameaça de excomunhão por estar defendendo um herege, esse, covardemente, anulou o documento, traindo o súdito que nele confiara, e deixando-o ao abandono, à própria sorte.

Foram inúteis os seus argumentos contra as artimanhas e soezes sofismas criados apelo cinismo e pelo fanatismo dos hábeis adversários, que o acusavam de ser discípulo do arquicondenado John Wyclife, sendo humilhado, destituído publicamente dos seus títulos, inclusive o de sacerdote, exposto ao ridículo público, e, por fim, condenado à fogueira...

Atado, mais tarde, ao poste infamante e acompanhando serenamente a farsa dos inimigos de Deus e da Humanidade, aguardou as chamas quase em êxtase, por constatar que seriam inúteis os esforços para silencias as vozes da verdade.

As suas obras igualmente seriam queimadas publicamente, a fim de que não ficassem vestígios dos seus ensinamentos para o futuro.

Acreditavam que fazendo arder nas chamas inclementes o idealista, apagariam as suas lembranças e destruiriam as suas ideias, o que jamais acontece, porque o martírio amplia a grandeza dos pensamentos daqueles que o experimentam.

Ao serem ateadas as labaredas, em um momento de percepção do futuro, ante o aturdimento dos tresloucados verdugos e as lagrimas daqueles que o admiravam, mas nada podiam fazer, exclamou:

- Vós hoje assais o pato (Huss, em tcheco). Um dia porém, virá um cisne de luz, que voará acima das vossas labaredas e essas não o alcançarão.

E enquanto enunciava com dificuldade uma Ave-Maria, conforme a fé que abraçava, não conseguiu terminá-la...

Era o triste e sombrio período medieval, na manhã de 7 de julho de 1414.

O seu holocausto, decorrente da sua mensagem, que já houvera tocado outro eminente teólogo, Jerônimo de Praga, que também foi preso ao vir defendê-lo, permaneceria vivo na palavra do extraordinário latinista, professor de grego, que o seguiria também na fogueira no ano imediato.

Nos séculos sucessivos vieram os vendavais da História e o pensamento iluminado de Lutero, de Zuinglio, de João Calvino, abriria as portas do porvir para a vivência do Evangelho livre da soberania romana...

Os seus adversários foram também consumidos pelo túmulo, vencidos pelas paixões a que se entregavam, enquanto ele, após a ressurreição gloriosa, passados quase quatrocentos anos, voltou à Terra, no momento em que outro clarão anunciava Novo Dia - a claridade da ciência que se libertara das masmorras religiosas - na indumentária de Hippolyte Léon Denizard Rivail, a 3 de outubro de 1804.

Mais tarde, adotando o pseudônimo de Allan Kardec, tornou-se o missionário do Consolador, assim restaurando a doutrina de Jesus que pôde ser confirmada pelo bisturi da investigação científica, pela óptica superior do pensamento filosófico e através do seu superior código de ética-moral, que é a do próprio Evangelho, vir a ser a Religião cósmica do amor, fundamentada, na lógica, afirmando que fe verdadeira, somente o é, aquela que pode enfrentar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade.

O progresso é inestancável e nada pode impedir-lhe a marcha. Toda tentativa de obstaculizar-lhe o avanço redunda em vá loucura, que cede lugar à realidade.

Apesar disso, ainda hoje se multiplicam os inimigos da Verdade e do Bem que, aferrados a conveniente materialismo, conspiram contra os idealistas que os ameaçam com os seus pensamentos libertários, buscando impedir-lhes o avanço.

O holocausto de todo missionário porém, transforma-se no combustível que irá sustentar as suas ideias e erguer continuadores que conseguirão implanta-las no mundo, ampliando os horizontes do progresso e abençoando o futuro.

Praga (República Tcheca), 03 de junho de 1998.

Vianna de Carvalho por Divaldo Franco do livro:
Luzes do Alvorecer

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Entre as rotas do mundo

Entre as rotas do mundo

Maria Celeste



Admira o trabalho do vento que desmancha a névoa a perambular no caminho...

Os raios caniculares do sol que alcatifam o horizonte, jorrando reverberações de ouro em chamas...

A leve poeira de pólen das flores que se eleva a dançar pelos ares fertilizando a campina em ondas de encantamento...

A brisa cantora, amansando as vagas espumosas e multicores no escachoar das catadupas, em sons dispersos...

O perfume que habita o seio da rosa ou que denuncia o fruto amadurecido...

As línguas de fogo que lambem o lixo informe, ao rufar das labaredas, em largo cortejo de esplendores...

A poalha de grânulos cintilantes da imensidade recheada de astros...

Em tudo isso, - criações que te não podem passar desapercebidas – há uma ideia básica que plasma, um pendor de bondade que provê, um toque de beleza que ameniza...

Tudo isso fala em amor, amor de Deus, - o Princípio da Caridade em todos os idiomas...

Quanto recebes da vida sem dependeres um só ceitil!

Tais espetáculos a Natureza oferece pelo contentamento maternal de ver-te feliz em seus dons inefáveis.

É o bem pelo próprio bem que Deus nos endereça.

É o bem, que se faz por simples prazer.

O Sol, o vento ou a água nada reclama.

Ensinam-nos a amar sem nada pedir; a amar sempre sem exigir cousa alguma.

Segue assim a Celeste Orientação entre as rotas do mundo.

Atende a todas as escudelas de pedintes, por onde passes, mas não te satisfaças apenas, com isso; o irmão comum é nosso próprio familiar.

Deixa que a emoção te tanja as fibras da alma em mil tonalidades de carinho, diante da eloquência de um sorriso infantil, da aflição de uma lágrima da velhice, da impetuosidade ou da incerteza de um olhar da juventude...

O exemplo é o mais poderoso imã do espírito.

A necessidade marcha em rodízio de vida em vida, de destino em destino.

O dinheiro e as posses do corpo, ao fim da viagem terrestre, são sempre quais punhados de lama e pó que tentamos reter debalde e que nos escapam, inapelavelmente, por entre os próprios dedos.

Aconchega em teu coração, os arroubos de fazer o bem pelo prazer que o bem te proporciona com a única ideia preconcebida; a de criar alegria para as criaturas de Deus e dar aos que te rodeiam pelo menos leve parcela de amor do Amor Infinito que Deus nos dá.

Maria Celeste do livro: Ideal Espírita
de Chico Xavier / Waldo Vieira

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

A vitória das sombras

A vitória das sombras

Richard Simonetti


Imagem gerada por IA.

Altamiro, experiente obsessor, especialista em perturbar instituições espíritas, ouvia as queixas de Perciliano, velho companheiro de estrepolias entre os encarnados:

- Meu caro amigo, estamos em dificuldades. Não encontramos brechas para envolver espíritas impertinentes que invadiram nossa área de atuação. Edificaram um Centro, onde orientam muitas pessoas na reformulação de suas existências, com o que as subtraem à nossa influência.

- Tentaram desestabilizar o grupo com a discórdia?

- Sim, sem resultado. Eles estudam com muito empenho, em reuniões semanais, o detestável “Evangelho Segundo o Espiritismo”. Observam com seriedade sua lenga lenga sobre a compreensão e o perdão.

- Experimentaram conturbar o ambiente com a presença de entidades galhofeiras e desequilibradas?

- Não há a mínima condição! Não temos acesso!... Os trabalhos são regidos pela oração e por vibrações em favor da concórdia e da paz.

- Semearam o tédio?

- Inutilmente! É impossível desmotivar pessoas que se imbuíram da convicção de que estão revivendo o Cristianismo primitivo com infindáveis iniciativas em favor do semelhante.

- E o formalismo religioso? Alimentem neles a velha tendência humana para as exterioridades. Inspirem rituais e rezas que induzam ao acomodamento, distraindo-os da própria renovação. Foi assim que nossos maiores conseguiram desvitalizar o movimento cristão no passado.

- Fizemos isso, também. Alguns servidores mostraram-se receptivos, mas sem grandes resultados. Ocorre que lutamos contra um vigoroso movimento de abomináveis ideias nobres, imune a influências negativas, onde elas são diligentemente apreciadas e observadas.

- Se é assim - comenta Altamiro, sorrindo sinistramente - então ataquem o grupo onde ele parece mais forte: nas suas convicções! Sugiram que o Espiritismo não é religião! Que devem preservar o Centro contra o igrejismo! Nada de Cristianismo redivivo! Que oração pública é herança ritualística de outras crenças! Que passe magnético e água fluidificada revivem práticas de comunhão formal! Que “O Evangelho Segundo o Espiritismo” deve ser substituído, nas reuniões de estudos, por livros mais substanciosos, de cunho científico e filosófico! Faça-os sentir a necessidade de preservar a pureza doutrinária, expurgando a Doutrina de tudo o que rescende a ranço de religiosismo!...

O interlocutor exultou. Não havia pensado nisso! Entusiasmado, providenciou para que a orientação fosse imediatamente implementada.

Em breve o promissor núcleo espírita, que congregava dezenas de colaboradores e oferecia a milhares de pessoas os fundamentos de uma prática religiosa alicerçada no esforço do Bem, portal sublime de comunhão com a Espiritualidade Maior, estava reduzido a pequeno grupo de estudiosos empenhados em negar o caráter religioso do Espiritismo.

Perciliano conseguira, finalmente, o seu intento.

Os gênios das sombras não desprezam nenhuma possibilidade no propósito de conturbar o movimento espírita, a mais séria ameaça ao seu domínio milenar.

Atuando inteligentemente, imiscuem-se atualmente entre os espíritas, veiculando surpreendente “revelação”: O Espiritismo não é religião! E sempre encontram companheiros invigilantes, dispostos a defender acirradamente essa esdrúxula ideia, apoiando-se em extravagante exegese dos textos da Codificação.

Todavia, nenhum sofisma poderá sobrepor-se ao fato irrecusável de que Allan Kardec escreveu “O Evangelho Segundo o Espiritismo” para destacar o aspecto religioso do Espiritismo, tanto quanto em “O Livro dos Médiuns” fala do aspecto científico e em “O Livro dos Espíritos” desenvolve o aspecto filosófico, compondo a tríade redentora: Filosofia, Ciência e Religião!

Richard Simonetti do livro:
Endereço Certo

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