quarta-feira, 25 de março de 2026

Perturbação espiritual

Perturbação espiritual

Joanna de Ângelis


163. A alma tem consciência de si mesma imediatamente depois de deixar o corpo? "Imediatamente não é bem o termo. A alma passa algum tempo em estado de perturbação." Kardec, Allan - O Livro dos Espíritos
A herança mitológica existente nas criaturas humanas é responsável pela crença de que lhes basta o arrependimento de uma ação negativa para que se libertem das consequências que lhes advêm inevitavelmente.

O comportamento simplista e enganoso que as caracteriza leva-as a crer que o fenômeno da morte é também de libertação das penas e dos crimes perpetrados, bastando somente que haja a aceitação de uma ou de outra conduta religiosa, através da qual se pode conseguir a plenitude, sem recordação do passado nem apego aos interesses que constituíram a razão de ser da existência recém-encerrada.

O hábito ancestral do perdão concedido no momento in extremis do ser, mediante ritualística destituída de emoção por
parte do celebrante, não consegue proporcionar ao Espírito a harmonia que não cultivou durante toda a trajetória física, ou mesmo conceder-lhe a felicidade para a qual não se empenhou através das atitudes de enobrecimento e de solidariedade que lhe são indispensáveis.

A realidade, porém, é muito diferente.

Morrer é fenômeno biológico de grande significado e de repercussões profundas para aquele que deixa o invólucro orgânico.

De acordo com os hábitos vivenciados e a conduta mental mantida, ele permanecerá vinculado aos despojos, que já não mais o atenderão, ou experimentará rudes aflições de que não tem facilidade para superar.

Imantado ao corpo somático por meio do perispírito, célula a célula, mediante a circulação sanguínea, o desprendimento somente ocorre quando a mente em equilíbrio se adapta às novas condições do campo vibratório no qual ora se encontra.

As aspirações e necessidades, os vícios e virtudes mantidos, os sentimentos de apego ou de libertação que fizeram parte do seu dia a dia, constituem algemas de retenção aos despojos mortais ou asas para a ascensão aos páramos da felicidade que almeja.

Não se interrompem os anseios do sentimento ou das paixões demoradas pelo simples ato da cessação do fenómeno biológico.

Os automatismos fisiopsicológicos prosseguem sem solução de continuidade, induzindo aos mesmos hábitos, ora impossíveis de realizados, transformando-se, desse modo, em angústias e perturbações que se prolongam pelo tempo necessário à sua libertação.

*

A perturbação espiritual resulta da surpresa que toma o desencarnado ante a ocorrência para a qual não se preparou convenientemente, constituindo-lhe grande frustração e motivo de arrependimento tardio.

Sensações peculiares àquelas que foram mantidas pelo corpo, através da imantação do perispírito, permanecem afligindo sem consumar-se, o que constitui grave desequilíbrio para o Espírito.

Necessidade incoercível de volver ao corpo ou evitar-lhe a decomposição, torna-se-lhe motivo de desespero incomum.

Acompanhar a matéria entumecida e em degeneração, produz-lhe pavor indescritível que o aturde e o enlouquece, como é compreensível.

A surpresa ante a realidade que o toma fere-lhe profundamente o sentimento, que se esfacela sob os camartelos da angústia e do medo.

A presença irônica daqueles com os quais mantinha convivência espiritual enquanto na Terra, constituindo-lhe o grupo de sintonia, aparvalha-o, deixando-se arrastar a regiões de sofrimento e alucinação que se alargam por período indefinido.

Por outro lado, aquele que se afeiçoou ao Bem e administrou as
más paixões, os vícios lamentáveis, desperta fora do corpo em estado de torpor, recuperando lentamente a razão e sendo recebido pelos afetos que o precederam, ora em júbilo ante a sua chegada.

A gratidão pela existência vivida com equilíbrio, dignidade e enobrecimento enfloresce a mente de alegria, constatando, então, que a continuidade da vida é bênção de incomum significado, que ora se apresenta como compensação às lutas experimentadas e aos sacrifícios enfrentados.

Quando alguém desperta de um tratamento cirúrgico, conforme o seu estado nervoso habitual, apresenta-se em tranquilidade ou desesperação conforme os hábitos mentais longamente mantidos.

Da mesma forma, a morte ou desencarnação - tratamento cirúrgico de porte total - faz que o indivíduo desperte mantendo a mesma conduta que o assinalava antes da ocorrência.

Inevitável que a perturbação espiritual seja o normal para a grande maioria daqueles que são convocados pela morte ao retorno à Pátria espiritual.

Não são poucos os homens e mulheres vinculados ao sensualismo, aos interesses sórdidos, às posições de destaque e dominação social, que da existência somente souberam experimentar o que lhes interessava ao egoísmo, que chegam ao Além-túmulo sem dar-se conta da ocorrência, continuando, perturbados e aflitos, com exigências descabidas e nunca atendidas, e rebeldias injustificáveis que mais os tornam desditados e infelizes.

*

Diante da inevitabilidade do fenômeno da morte, devem todas as criaturas habituar-se à reflexão em torno do despertar espiritual.

Conforme seja vivenciada a existência, assim será o acordar além das vibrações do mundo físico.

Não existem milagres que beneficiem alguns eleitos em detrimento dos demais.

Cada ser carrega em si mesmo as algemas e as asas de que se utilizará após a morte do corpo físico.

A perturbação espiritual que acompanha o ser que sai do casulo orgânico pode ser de pequeno ou demorado curso, conforme a necessidade do despojamento das imperfeições que
lhe tisnam o caráter e o vinculam ao magnetismo das paixões inferiores ou às vibrações enobrecidas que lhe eram peculiares.

Pensar na morte e no despertar deve fazer parte da agenda de reflexões de todos, porque ninguém se eximirá à desencarnação, preparando-se, desde agora, para o seu momento que, por mais se demore, chegar-lhe-á fatalmente.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Lições para a Felicidade

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terça-feira, 24 de março de 2026

O instante divino

O instante divino

José de Castro


Não deixes passar, despercebido, o teu divino instante de ajudar.

Surge, várias vezes nos sessenta minutos de cada hora, concitando-te ao enriquecimento de ti mesmo.

Repara, vigilante.

Aqui, é o amigo que espera por uma frase de consolo.

Ali, é alguém que te roga insignificante favor.

Além, é um companheiro exausto no terreno árido das provas, na expectativa de um gesto de solidariedade.

Acolá, é um coração dorido que te pede algumas páginas de esperança.

Mais além, é um velhinho que sofre e a quem um simples sorriso teu pode reanimar.

Agora, é um livro edificante que podes emprestar ao irmão de luta.

Depois, é o auxílio eficiente com que será possível o socorro ao próximo necessitado.

Não te faças desatento.

Não longe de tua mesa, há quem suspire por um caldo reconfortante.

E, enquanto te cobres, feliz, há quem padeça de frio e nudez, em aflitiva expectação.

As horas voam.

Não te detenhas.

Num simples momento, é possível fazer muito.

Ao teu lado, a multidão das necessidades alheias espera por teu braço, por tua palavra, por tua compreensão...

Vale-te, pois, do instante que foge e semeia bênçãos para que o mundo se empobreça de miséria e, em se fazendo hoje mais rico de amor, possa fazer-te, amanhã, mais rico de luz.

José de Castro por Chico Xavier do livro:
Relicário de Luz

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segunda-feira, 23 de março de 2026

Os pés

Os pés

Vinícius (Pedro de Camargo)



"Os olhos são a luz do teu corpo." Toma cuidado no que concerne à boa conservação dessa luz; pois, se vier a amortecer ou apagar-se, todo o teu corpo se encontrará em trevas.

E os pés? Serão, acaso, membros desprezíveis em virtude da posição humilde em que se encontram? De modo nenhum. Eles são os suportes do corpo, e, mais do que isso, são os locomotores que o transportam. Os pés têm a propriedade de conduzir o homem, levando-o para este ou para aquele meio.

Cuidado, portanto, muito cuidado com os pés, pois tanto nos podem fazer palmilhar o bom como o mau caminho; podem enredar-nos por atalhos escabrosos e lamacentos cujo termo seja o abismo. Dali não sairemos sem mágoas, ferimentos indeléveis e humilhações diante dos que observam nosso retorno.

E assim se justifica plenamente a figura evangélica: Se os teus pés te servem de escândalo, corta-os, pois é preferível ficares deformado, preservando o corpo da morte, que sucumbires com todos os teus membros.

Do mesmo modo se explicam, aliás pelo reverso, as palavras do Velho Testamento: "Quão formosos são os pés portadores da paz!".

Tem a máxima cautela com os teus pés, os quais convém trazeres bem abrigados e defendidos com o calçado da fé, daquela que encerra o bom senso, o critério e a prudência; que, conjugada com a razão, é a luz do Espírito, luz que vai adiante, espancando as trevas do carreiro por onde transitarás; luz que descortina horizontes mais longínquos, que luariza o futuro mais remoto, enchendo tua alma das mais belas e fundamentadas esperanças!

Precaução, muita precaução com os pés! Eles são elementos de locomotividade que conduzem o corpo, templo onde habita o Espírito!

Vinícius (Pedro de Camargo) do livro:
Na Seara do Mestre

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Nota: Pedro de Camargo, mais conhecido por Vinícius (pseudônimo que adotou e usou por mais de 50 anos), nasceu em Piracicaba (SP) em 7 de maio de 1878. Desde muito jovem abraçou com entusiasmo o Espiritismo, tendo fundado e dirigido em sua terra natal a instituição espírita “Fora da caridade não há salvação”. Por muitos anos presidiu também a “Sociedade de Cultura Artística”, na mesma cidade. Em 1938, mudou-se para a cidade de São Paulo, onde permaneceu até a sua desencarnação em 11 de outubro de 1966. A partir de 1949, desenvolveu, através do rádio, um programa evangélico de grande proveito para os espíritas. Teve participação destacada nos esforços em prol da unificação do Movimento Espírita Brasileiro que culminaria com a criação do Conselho Federativo Nacional (CFN). Colaborou por dezenas de anos com artigos que primavam pela essência altamente doutrinária e evangélica publicados em Reformador. (Trecho extraído do site da FEB)
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domingo, 22 de março de 2026

Palavras fraternais

Palavras fraternais

Natanael


Meus irmãos:

Paz e Amor.

Quem trabalha, se renova.

Quem se renova, melhora.

Quem melhora se eleva.

Quem se eleva, adquire visão.

Quem vê, compreende.

Quem compreende, serve.

Quem serve, é humilde.

Quem é humilde, se ilumina.

Quem se ilumina, ajuda sempre.

Quem ajuda sempre, perdoa.

Quem perdoa, semeia paz.

Quem semeia a paz, ama.

Quem ama, sabe esperar.

Quem sabe esperar, atinge a fé.

Quem atinge a fé, renuncia.

Quem renuncia, alcança a Vida Eterna.

Natanael por Chico Xavier do livro:
Relicário de Luz

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