Foi o primeiro grande clarão que deveria incendiar o pensamento do futuro, abrindo os espaços para o amanhecer da cultura e da dignidade humana, ao lado das grandes conquistas da ciência, da filosofia e da arte.
A Boêmia então se encontrava sob a governança do imperador Sigismundo que negociava com a Igreja de Roma a segurança do trono. Todo o Império Tcheco-eslovaco obedecia cegamente à religião dominante qual acontecia praticamente com todo o mundo ocidental.
O tribunal da Inquisição levava à fogueira milhares de vidas em toda parte. Era o braço forte da doutrina católica estrangulando todos quantos se lhe opunham, realmente ou não, ameaçando igualmente o poder civil, que se lhe submetia sem qualquer disfarce ante a ameaça da ignominiosa excomunhão.
O terror dominava as mentes e a traição estendia suas malhas por toda parte. Denúncias covardes eram acolhidas como serviços à Fé, embora não ocultassem o interesse nos espólios das suas vítimas. A intriga abraçava a hediondez e o mundo respirava os tóxicos morbíficos do ódio e do temor.
Nesse clima de incomparável desconforto moral, o eminente pregador
Jan Huss tomou conhecimento da revolução ideológica
wyclifeana e por ela deixou-se tocar. Interiormente, também sentia a decadência da religião e a distância que existia entre os seus teólogos e o conteúdo cristalino do Evangelho, conforme Jesus o pregara às multidões que O buscavam. Ao ler as elucubrações e propostas novas, deixou-se arrebatar, e começou a expô-las abertamente, chocando os corifeus do poder e escandalizando a hipocrisia, enquanto as multidões esfaimadas na busca da verdade, acorriam pressurosas para escutá-lo na igreja que o tornara famoso. A cada domingo, a sua voz harmônica, expressando o seu pensamento inspirado que deveria preparar o futuro, atraía maior número de ouvintes ávidos que acorriam de toda parte, da cidade como do campo, incomodando as autoridades invejosas e prepotentes.
Ademais, explicava Huss, que a Doutrina deveria ser exposta no idioma nacional, a fim de que todos tivessem acesso aos ensinamentos libertadores de Jesus, o que mais preocupava os dominadores religiosos, que se ocultavam na ignorância das verdades evangélicas para intimidar e impor-se.
Desenhava-se a Nova Era pela palavra do missionário que, sem receio, invectivava contra o abuso do comportamento, exigindo o retorno à simplicidade, à fidelidade aos dias messiânicos em que vivera o Senhor.
Como primeira medida, os seus inimigos proibiram-no de pregar na igreja, expulsando-o para pequena paróquia nos arredores de Praga, o que levou as multidões fascinadas a seguirem o seu pastor intimorato.
Não podendo silenciá-lo com a medida arbitrária, fecharam todas as igrejas, impedindo que os fiéis tivessem onde e como se comunicar com Deus, apavorando-os.
As acusações e impropérios dos fracos dominadores não foram suficientes para silenciá-lo, quando a terrível ameaça de excomunhão pairou no ar.
Considerando a gravidade da doutrina que pregava, aquela que trazia Jesus de volta às almas aflitas, o imperador convocou o sínodo de Constança, para permitir ao pregador defender-se das graves acusações de heresia.
Informado da atitude imperial e convidado por Sigismundo, que o conhecia desde a Universidade e lhe admirava os ensinamentos, ofereceu-se para ir a Constança apresentar a defesa e expor que jamais se afastara das Escrituras.
Tratava-se de uma aventura muito arriscada e que poderia culminar em traição e morte inevitável.
O missionário porém, confiante na Verdade, escudado por dois cavaleiros que lhe enviara o Imperador, partiu de Praga entre lágrimas dos seus paroquianos e seguiu na direção do holocausto que o esperava.
Compreendendo a manobra dos inimigos do Bem, houvera recorrido ao auxílio de Sigismundo, que lhe era simpático às ideias, dele conseguindo um salvo-conduto, a fim de não ser molestado, podendo defender-se em liberdade.
A construção da verdade no mundo, porém, sempre se fez a esforço hercúleo e sob o elevado preço do sacrifício.
Todos aqueles que se atreveram a erguer a bandeira do idealismo transformador, experimentaram o escárnio e a perseguição gratuita dos seus coevos, que voejavam como abutres vorazes sobre o cadáver das multidões que se lhes submetiam inermes.
Eles, porém, nunca temeram a ignorância nem a crueldade, a ingratidão nem o holocausto, impostos por aqueles que acreditavam na vitória permanente da sombra e na sua imortalidade orgânica, na suposição falsa de que a enfermidade, a velhice ou a morte nunca os alcançariam, demonstrando-lhes a fragilidade física e a transitoriedade de todas as conquistas terrenas.
Esses hediondos promotores do crime dominaram gerações, que submeteram ao talante da sua perversidade, supondo-se inatingíveis, mas sucumbindo, logo mais, ao peso dos desenganos, quando não da própria alucinação.
Ingênuos e confiantes, os expoentes do amor e do bem sempre se deixaram conduzir pela astúcia dos maus, salvadas raras exceções, por serem nobres e incapazes de trair ou enganar.
Chegando a Constança, o pregador de Husinec procurou o cardeal Antony para justificar-se, e após diálogo caloroso, que somente aumentou o ódio do adversário, foi atirado ao cárcere infecto sem qualquer acusação formal.
O sínodo reuniu-se e começou a julgar o doutor de Praga, não lhe concedendo o direito de defesa.
Nas poucas vezes em que foi convocado, esteve sob os camartelos do ódio gratuito, não conseguindo expor suas ideias.
Coibido o imperador, ante a ameaça de excomunhão por estar defendendo um herege, esse, covardemente, anulou o documento, traindo o súdito que nele confiara, e deixando-o ao abandono, à própria sorte.
Foram inúteis os seus argumentos contra as artimanhas e soezes sofismas criados apelo cinismo e pelo fanatismo dos hábeis adversários, que o acusavam de ser discípulo do arquicondenado John Wyclife, sendo humilhado, destituído publicamente dos seus títulos, inclusive o de sacerdote, exposto ao ridículo público, e, por fim, condenado à fogueira...
Atado, mais tarde, ao poste infamante e acompanhando serenamente a farsa dos inimigos de Deus e da Humanidade, aguardou as chamas quase em êxtase, por constatar que seriam inúteis os esforços para silencias as vozes da verdade.
As suas obras igualmente seriam queimadas publicamente, a fim de que não ficassem vestígios dos seus ensinamentos para o futuro.
Acreditavam que fazendo arder nas chamas inclementes o idealista, apagariam as suas lembranças e destruiriam as suas ideias, o que jamais acontece, porque o martírio amplia a grandeza dos pensamentos daqueles que o experimentam.
Ao serem ateadas as labaredas, em um momento de percepção do futuro, ante o aturdimento dos tresloucados verdugos e as lagrimas daqueles que o admiravam, mas nada podiam fazer, exclamou:
- Vós hoje assais o pato (Huss, em tcheco). Um dia porém, virá um cisne de luz, que voará acima das vossas labaredas e essas não o alcançarão.
E enquanto enunciava com dificuldade uma Ave-Maria, conforme a fé que abraçava, não conseguiu terminá-la...
Era o triste e sombrio período medieval, na manhã de 7 de julho de 1414.
O seu holocausto, decorrente da sua mensagem, que já houvera tocado outro eminente teólogo,
Jerônimo de Praga, que também foi preso ao vir defendê-lo, permaneceria vivo na palavra do extraordinário latinista, professor de grego, que o seguiria também na fogueira no ano imediato.
Nos séculos sucessivos vieram os vendavais da História e o pensamento iluminado de
Lutero, de
Zuinglio, de
João Calvino, abriria as portas do porvir para a vivência do Evangelho livre da soberania romana...
Os seus adversários foram também consumidos pelo túmulo, vencidos pelas paixões a que se entregavam, enquanto ele, após a ressurreição gloriosa, passados quase quatrocentos anos, voltou à Terra, no momento em que outro clarão anunciava Novo Dia - a claridade da ciência que se libertara das masmorras religiosas - na indumentária de
Hippolyte Léon Denizard Rivail, a 3 de outubro de 1804.
Mais tarde, adotando o pseudônimo de
Allan Kardec, tornou-se o missionário do Consolador, assim restaurando a doutrina de Jesus que pôde ser confirmada pelo bisturi da investigação científica, pela óptica superior do pensamento filosófico e através do seu superior código de ética-moral, que é a do próprio Evangelho, vir a ser a Religião cósmica do amor, fundamentada, na lógica, afirmando que fe verdadeira, somente o é, aquela que pode enfrentar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade.
O progresso é inestancável e nada pode impedir-lhe a marcha. Toda tentativa de obstaculizar-lhe o avanço redunda em vá loucura, que cede lugar à realidade.
Apesar disso, ainda hoje se multiplicam os inimigos da Verdade e do Bem que, aferrados a conveniente materialismo, conspiram contra os idealistas que os ameaçam com os seus pensamentos libertários, buscando impedir-lhes o avanço.
O holocausto de todo missionário porém, transforma-se no combustível que irá sustentar as suas ideias e erguer continuadores que conseguirão implanta-las no mundo, ampliando os horizontes do progresso e abençoando o futuro.
Praga (República Tcheca), 03 de junho de 1998.
Vianna de Carvalho por Divaldo Franco do livro: