O sofrimento
Carlos Torres Pastorino
A mente, quase sempre astuta, herança da viagem antropológica da evolução, elabora mecanismos complicados para evitar ou vencer quando instalado o sofrimento. Essa atitude, sem qualquer dúvida, gera ansiedade, que é, em si mesma, um tipo de sofrimento. Este se manifesta mais intensamente na solidão e no desespero, na perda dos valores éticos e na ausência do autoamor porque transfere a responsabilidade da ocorrência para outros: indivíduos, acontecimentos, sociedades, governos, Deus...
A falta de coragem para o enfrentamento da ocorrência automática do desgaste orgânico ocasiona o surgimento de processos escamoteadores por meio dos quais poderia avançar pelo tempo sem as manifestações inevitáveis do sofrimento.
A sua presença vai além das sensações orgânicas e dos destrambelhos da maquinaria celular, porquanto é mais vigoroso quando de natureza moral, resultado das imposições do egoísmo, do orgulho, do prazer.
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Porque necessita de distrações para diminuir as tensões da luta em que se empenha, o ser humano transfere as suas aspirações para a posse mesmo por meio do amor. Ter alguém que o ame, mas não necessariamente a quem ame, constitui um reflexo do egoísmo que elabora as correntezas do poder, impondo-se a outrem e dominando-lhe as resistências, a fim de possuir-lhe os sentimentos que, não obstante, encontram-se inalcançáveis, porque se podem libertar após as experiências do convívio, sem que o corpo se afaste das algemas a que se deixou prender. Isso porque há dependências emocional, financeira, sexual, social... O estoicismo que leva à liberdade nem sempre se manifesta nos indivíduos débeis de valores ético-morais. Preferem o sofrimento dourado, a solidão a dois, ou a mais, do que a liberdade a sós. A grande maioria teme a solidão porque lhe parece que é constrangedora e responsável pelo sofrimento, quando a balbúrdia, a multidão, as fugas espetaculares para os gozos individuais ou coletivos tornam-se agentes da situação de dor e de aflição.
Quando se aprende a meditar, a amar, nunca o sofrimento interfere nesse comportamento porque não há ansiedade nem medo. Tudo transcorre em uma esfera indimensional, na qual o tempo e o espaço não são necessários, desde que o pensamento se encarrega de experienciar o bem-estar, preenchendo os vazios internos com solidão ativa e nunca atulhada de preocupações passivas.
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Culturalmente, o ser humano vem sendo educado para vencer a dor e evitar a sua presença, utilizando-se de recursos que se multiplicam desde os processos preventivos como os curadores, no caso das enfermidades e dos transtornos da emoção ou dos patológicos mais graves... Essa conduta, em si mesma, já constitui uma forma de sofrimento porque proporciona medo e incerteza a respeito da vida e das suas manifestações na área orgânica.
Quando se tornar possível compreender e viver o conhecimento de que somente existe sofrimento porque o Espírito é o seu desencadeador, em razão dos atos que atentam contra os Estatutos Divinos, naturalmente o sentido existencial alterará a sua conduta, proporcionando uma tranquila aceitação desses efeitos malsãos, convertendo-os em bênçãos de equilíbrio para depois. A importância desse entendimento é significativa porque, ao permitir-lhe a presença — do sofrimento —, passa a conduzir-se de forma edificante, não desejando expulsá-lo por meio de drogas ou de cirurgias, ou de métodos alternativos que não remontem às causas, diminuindo apenas os resultados.
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É certo que esse procedimento exige uma decisão consciente e uma compreensão dilatada em torno da Realidade Superior.
Como psicologicamente a pessoa procura minimizar a dor, quando não a pode evitar, não é justo se lhe cerceiem os passos na busca do que lhe parece mais aprazível e benéfico. No entanto, é válido esclarecer que o atenuar dessa perturbadora sensação, que muitas vezes enlouquece os fracos e pusilânimes, não resolve realmente a questão, porquanto se transferem esses fenômenos para outras oportunidades em que surgirão mais graves e mais dolorosos. Isso ocorre, não raro, quando a velhice domina as carnes antes moças e as forças anteriormente resistentes e desafiadoras. O alquebrar das energias, o desfalecimento da máquina ensejam que esses resíduos que não foram diluídos reapareçam em forma de amarguras, de revoltas, de queixas, de ressentimentos...
Cabe à mente entender que o Universo é perfeito em sua estrutura e tudo quanto nele existe tende a essa perfeição. As experiências evolutivas trabalham para que essa aquisição se opere sem traumas, sem frustrações, sem mutilações internas. Toda vez, porém, que há um ato de rebeldia, que se manifesta uma tendência violenta ou se expressa uma conduta repressiva, abrem-se campos de fixação para as consequências porque fogem ao estabelecido pela Ordem Cósmica.
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O livre-arbítrio, que favorece o comportamento a desempenhar, as opções de como agir e ser feliz, também opera o determinismo, que é o resultado dessa decisão. Atirada a flecha, o arqueiro não mais a pode deter, por maior velocidade que se imprima por alcançá-la.
Pela constituição cerebral, que avança dos automatismos fisiológicos para os psicológicos e destes para os espirituais, os fenômenos humanos são de natureza primária, melhorando pelo discernimento, pela aquisição da consciência mediante a razão e, sobretudo, pela penetração no campo do Absoluto, seja por intuição, por inspiração, por sintonia, pelo mergulho nas vibrações cósmicas...
A partir dessa etapa, ressumam os sofrimentos conscientes que permaneciam em depósito nas profundezas do inconsciente, necessitando ser conhecidos e vivenciados com amor e compaixão para que ocorra a libertação das suas amarras e dependências.
Todo prazer se transforma em frustração ou desencanto em razão da sua transitoriedade e pelo impositivo de querer tornar eterno o efêmero, que se dilui na razão direta em que mais se busca segurá-lo, qual ocorre com a água retida na mão fechada escorrendo entre os dedos.
A fuga do sofrimento leva a encontros mais surpreendentes em matéria de dor porque ninguém se pode dissociar de si mesmo, a fim de avançar em partes distintas longe da unidade.
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O ser é uno mesmo quando no corpo ou fora dele. No corpo, ocorre a perfeita integração dos elementos que o constituem e, à medida que se liberta dos envoltórios materiais, prossegue na sua unidade com os vestígios da vivência impregnados nos tecidos muito sutis do perispírito que o transmitem à essência espiritual.
Desse modo, as alegrias — sensações de gozo —, os sofrimentos sensações de dor — estão nas impregnações do corpo modelador da matéria, veículo das sensações e emoções para o Espírito.
O Espírito em si mesmo, esse agente fecundo da vida e seu experimentador, estabelece, de forma consciente ou não, o que aspira e como consegui-lo, utilizando-se do conhecimento de si mesmo, único processo realmente válido para os resultados felizes.
A negação do mundo, sugerida por Jesus, não é a ignorância em torno das sensações mundanas e suas cadeias escravizadoras, senão a superação dos seus impositivos que respondem pelas ocorrências de sofrimento ou de felicidade após a eleição ou rejeição dos seus modelos e propostas.
Eis por que o amor e a consciência do dever constituem meios de identificação com a realidade. O primeiro, porque sempre cresce e aformoseia o ser, tornando-o rico de paz em caminho da plenitude; e o segundo, porque direciona a conduta para a seleção do que deve fazer e o melhor processo pelo executar, gerando condicionamentos de harmonia, sem remorsos nem culpas.
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Na Parábola do Semeador ministrada por Jesus, encontramos a proposta do dever e do amor, da consciência e da ação, quando Ele enunciou com naturalidade: “O semeador saiu a semear...”.
Não houve preocupação com o solo, senão com as sementes, porque, por mais que se perdessem, sempre haveria regaço terreno para que se multiplicassem em abundância, compensando o número daquelas que foram atiradas a esmo e não se reproduziram, como também as outras, as que germinaram e se desenvolveram, transformando-se em fartura e abundância, em razão da fertilidade que sempre existe em algum lugar. Semeando-se a esmo, sem cessar, sem pressa e sem angústia de colher, muitos grãos caem em solos abençoados que generosamente as devolvem em número maior do que as acolheram.
Todo investimento de amor tem o mesmo resultado. Quando é semeado sem especificidade, sempre encontra campo próprio para germinar, não respondendo de imediato o que não é importante, mas fazendo-o positivamente com profusão.
Jesus, embora incompreendido no seu tempo, venceu a História, ultrapassou todas as épocas, encontrando-se instalado no mundo e em milhões de mentes e corações que o aceitam, o amam e tentam segui-lo.
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O sofrimento que experimentou não o afligiu nem o turbou, antes foi amado e ultrapassado, tornando-se mais do que um símbolo, a fiel demonstração de que no mundo somente teremos aflições.
Isso porque as aflições constituem fenômenos normais da maquinaria em que se transita, projetando para a realidade as construções mentais e emocionais edificadas.
A alternativa, portanto, para o sofrimento é a consciência da aceitação, compreendendo que a sua é a função de despertamento para a vitória sobre as vicissitudes e os limites, o impulso para sair das condições deploráveis das falsas necessidades primárias que já deveriam estar ultrapassadas.
Graças a esse entendimento, a mente alça-se a patamares mais elevados, e o ser experiência melhores condições de vida terrena, compartilhando os sentimentos do Amor Eterno que o penetram e fortalecem, de maneira que ultrapassa a temporalidade do limite da reencarnação.
Estar no corpo ou fora dele tem pouco significado, exceto quando, durante a trajetória material, pode operar-se o crescimento íntimo, enquanto que, além dos despojos, cabem-lhe atividades diferenciadas, que são resultados do que houve por bem ensementar enquanto na caminhada orgânica.
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Dessa forma, o Reino dos Céus encontra-se na Terra, começa entre os caídos e tropeços do caminho, espraia-se pelos horizontes sem fim da imortalidade em um processo de unidade que dificilmente se poderá dizer se, no mundo ou fora dele, dentro, portanto, de uma realidade infinita e inconfundível.
Assim considerando-se a função do sofrimento, toda e qualquer apresentação de dor pode ser convertida em canto de amor.
As terapias que visam à libertação dos sofrimentos possuem grandiosa validade que, no entanto, não podem nem devem impedir que sejam erradicadas nas suas raízes aquelas causas que os geraram.
Carlos Torres Pastorino por Divaldo Franco do livro:
Impermanência e imortalidade
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