sexta-feira, 27 de março de 2026

Sai de ti mesmo

Sai de ti mesmo

Maria Dolores



Se carregas contigo o tempo atormentado
Sob tristeza e desencanto,
É natural te aflijas, entretanto,
Não te entregues ao luxo de chorar.
Sai de ti mesmo e escuta, em derredor,
Aqueles que se vão sem rumo certo,
Suportando no peito o coração deserto
Na penúria que mora entre a noite e o pesar.

Não importa o que foste e o que sofreste
E nem a dor alheia, em mágoas mudas,
Procurará saber a crença em que te escudas,
Nem pergunta quem és...
Os que seguem no pó do sofrimento,
Vivendo de coragem, semimorta,
Rogam-te auxílio à porta,
Rojando-se-te aos pés...

Desce da torre em que te vês somente
E escuta-lhes a história dolorida:
Esse chora sem lar, outro é quase suicida
Cansado de amargura e solidão;
Aquele envelheceu, sem alguém que o quisesse,
Outra é mãe desprezada, anêmica e sozinha,
Sombra que foi mulher, que respira e caminha,
Sabendo agradecer a fortuna de um pão.

Sai de ti mesmo e vem!... Esquece-te em serviço...
É Jesus que te chama ao bem que não se cansa,
Acharás, ao servir, renovada esperança,
Paz e fé, sob a luz de nobres cireneus!...
E sem horas a dar ao desalento e ao tédio,
Quando encontres a noite, cada dia,
Dirás ao Céu, em prece de alegria:
- Por tudo quanto tenho agradeço, meu Deus!...

Maria Dolores por Chico Xavier do livro:
Caminhos do Amor

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- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610 /98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Confiemos servindo

Confiemos servindo

Emmanuel



A fé renovadora é a bênção da vida em todos os campos da natureza.

Confia a semente na força que lhe flui dos recursos próprios e rompendo o envoltório que a constringe, converte-se em árvore generosa.

Confia a flor na energia solar que lhe submete a contextura a rudes metamorfoses, e, renunciando à própria beleza, transforma-se em fruto. 

Confia a fonte no impulso que lhe convoca as águas à grandeza do mar e, vencendo, muita vez, charcos e abismos, reúne-se ao rio que lhe acalma a aflição no colo do oceano.

Confia o barro humilde nos projetos do oleiro e, suportando a rija tensão do fogo, ressurge em vaso nobre.

*

A semente, porém, conformou-se à soledade, para fazer-se o apoio da floresta.

A flor resignou-se a perder o aroma e frescura para manter o pólem.

A fonte suportou o crivo do solo, vencendo lodo e areia para atingir a grande serenidade.

E o barro tolerou queimaduras atrozes para erguer-se em obra prima.

*

"Pregai vossa fé pelo exemplo" - diz-nos a palavra do Alto, trazida à nossa rota.

Eis porque, se nos propomos algum dia a luzir no celeiro da Infinita Bondade, necessário se faz saibamos estender a luz que o Cristo nos deu às almas, aprendendo a sofrer para resgatar, a servir para iluminar, a suportar para burilar e também a morrer pelo bem para realmente viver com a Imortalidade.


Emmanuel por Chico Xavier do livro:
Escultores de Almas

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Processo Reencarnatório

Processo Reencarnatório

Hermínio C. Miranda


001 - Na sua opinião, considerando os livros básicos e a literatura auxiliar, a Doutrina Espírita tem esgotado as informações sobre o processo reencarnatório ou, na medida em que o homem se espiritualize, informações adicionais serão concedidas?
Como sistema orgânico de conhecimento, o Espiritismo é uma doutrina evolutiva, atenta à dinâmica da expansão cultural da humanidade. Vamos reler um parágrafo da Introdução que Kardec escreveu para O Evangelho Segundo o Espiritismo (Autoridade da Doutrina Espírita, pg. 31, 57a. edição FEB): " Com extrema sabedoria procedem os Espíritos superiores em suas revelações. Não atacam as grandes questões da Doutrina senão gradualmente, à medida que a inteligência se mostra apta a compreender a verdade de ordem mais elevada e quanto as circunstâncias se revelam propícias à emissão de uma ideia nova. Por isso é que logo de princípio não disseram tudo e tudo ainda hoje não disseram, jamais cedendo à impaciência dos muito afoitos, que querem os frutos antes de estarem maduros." O Livro dos Espíritos constitui exemplo disso no sentido de que notamos na sua elaboração o cuidado de não dizer mais do que o necessário e conveniente para a época e de compactar informações e ensinamentos num mínimo possível de texto. Em algumas respostas, a linguagem é quase telegráfica, sem detalhamentos, considerados, talvez, prematuros ou inoportunos. O que, de certa forma, parece indicar reserva de espaço para futuras ampliações, à medida que o conhecimento fosse progredindo. Não creio, por isso, que a temática do processo reencarnatório tenha sido esgotada no contexto das obras básicas e nem mesmo nas subsequentes. André Luiz, por exemplo, ampliou consideravelmente tais informações. Penso que ainda temos muito que aprender com os instrutores espirituais sobre esse e tantos outros assuntos.
002 - Fiz um aborto aos 21 anos e depois tive um filho aos 27. Existe possibilidade deste espírito ser o mesmo que foi abortado anteriormente?
Entendo perfeitamente possível que a criança que você teve aos 27 anos seja a mesma entidade espiritual, cujo corpo fora abortado cerca de seis anos antes.
003 - Na reencarnação sob processo expiatório, ocorre às vezes uma vultosa anomalia cerebral. De que forma há para esse Espírito aproveitamento da reencarnação? Há algum tipo de percepção?
A reencarnação constitui sempre valiosa oportunidade de progresso espiritual. O corpo físico pode apresentar-se severamente afetado por anomalias inibidoras, mas a entidade espiritual está presente e atenta ao que se passa. Em nosso trabalho mediúnico, testemunhamos um caso desses. Sugiro que você leia o capítulo 19 - Filhos deficientes, de meu livro "Nossos Filhos são Espíritos", que parece responder à sua pergunta. Leia, também, "Autismo - uma leitura espiritual", ainda que este não seja o caso específico que você tem em mente.
004 - O Sr. poderia comentar as relações entre a descoberta do código genético humano e o processo reencarnatório?
Por exemplo, se muitas doenças físicas poderão ser evitadas, como ficam as reencarnações de Espíritos que têm como sua fase evolutiva o ultrapassar justamente doenças físicas? Penso que é cedo para se falar em interferências no código genético que resultem no cancelamento puro e simples de deficiências físicas ou mentais, que, como sabemos, tem sérias implicações cármicas. O projeto genoma, recentemente divulgado com enorme espalhafato publicitário, embora represente um gigantesco passo à frente no entendimento da biologia humana, ainda tem muito trabalho pela frente, como reconhecem os próprios cientistas. São mais de 3 bilhões as combinações possíveis no ser humano. Por outro lado, as leis divinas não se sujeitam a manipulações daqueles que se propõem a "brincar de Deus". Sugiro que você leia, se conseguir localizar, um pequeno artigo meu intitulado "Uma ética para a genética", publicado em Reformador em junho de 1971, há quase trinta anos, portanto. Será útil também, se ainda não o fez, a leitura do Time, de 3 de julho de 2000. Diz-se ali, entre outras coisas, que dois grupos empenharam-se em decifrar as "letras bioquímicas" do DNA humano e as instruções codificadas para construir e operar um ser humano totalmente funcional. Em outras palavras, ninguém, nesse projeto gigantesco, está pensando no espírito e nem nas leis cármicas. E muito menos, em Deus. Quanto a mim, fico com Deus e não tenho a pretensão de brincar com ele. Não sou, contudo, um especialista no assunto. Sugiro que você leia "O projeto genoma", de autoria da Dra. Marlene Nobre, no recente Boletim SEI, da Capemi, de 29-07-2000. Poderá, para isso, acessar a Home page: http://www.lfc.org.br
005 - Na sua opinião, como se dá o processo de ligação do fluido vital ente o perispírito e o corpo durante o processo reencarnatório?
Não me sinto preparado para responder à sua pergunta. Em outras palavras: Não sei. Acho, até, que é muito bom a gente ter tantas ignorâncias para transformar um dia em conhecimento. Isso indica que a vida será sempre um desafio e
nunca uma chatice.
006 - Quanto tempo, em média, o espírito permanece na pátria espiritual, antes de reencarnar? Meu pai faleceu há 5 anos; quando eu desencarnar me encontrarei com ele?
Cada caso é um caso. Não há uma periodicidade rígida de tantos em tantos anos, entre uma encarnação e outra. O Prontuário da Obra de Allan Kardec, do erudito confrade e pesquisador Deoclécio de Demócrito, indica as seguintes referências sobre o assunto: O Evangelho Segundo o Espiritismo n. 16, p. 31; Céu e Inferno, 2a. parte, cap. 4, p.275 e cap. 5, n. 39, p. 309; Obras Póstumas, Parágrafo. 3, n. 28, p. 39. Há, também, uma pesquisa do amigo dr. Hernani Guimarães Andrade, em artigo que não tenho como localizar. Hernani chega à conclusão de que, em vista do número muito maior de habitantes da Terra, o intervalo entre uma encarnação e outra diminuiu nos últimos tempos. Ou seja, a "fila" era muito maior quando havia pouca gente encarnada por aqui... Certamente você se encontrará com a entidade que foi seu pai, bem como com outros seres que se acham ligados a você, nesta ou em existências passadas. É o que costuma acontecer. Leia, a respeito, a Questão 160, de O Livro dos Espíritos.
007 - Gostaria de saber um pouco mais sobre os departamentos de reencarnação do plano espiritual, como funcionam e quais os seus objetivos.
Esta é outra pergunta que não sei responder. Você encontrará as informações que deseja na obra de André Luiz. Esse autor espiritual estudou a questão com entidades de grande experiência e conhecimento.
008 - Durante o período da gestação, é possível que a mulher seja obsidiada? Se o processo obsessivo já existir, o obsessor é afastado?
Sim, a mulher pode ser obsidiada antes, durante e depois da gestação. A gravidez, por si mesma, não a livra do processo obsessivo, nem leva a entidade perseguidora a afastar-se automaticamente. Em muitos casos a gravidez pode até suscitar ou agravar obsessões, quando entidades desorientadas e vingativas procuram interromper ou perturbar o processo reencarnatório, por ter problemas com a mãe, com a criança ou com ambos. A questão é complexa e os casos devem ser tratados com serenidade, compreensão, amor fraterno e prece, em grupos confiáveis que se dediquem à tarefa dita de desobsessão. Não com o objetivo de nos livrarmos da entidade perturbadora, mas para que nos pacifiquemos todos, a fim de seguirmos todos juntos e em paz os caminhos evolutivos. "Reconcilia-te com teu adversário", ensinou o Cristo, "enquanto estás a caminho com ele."
009 - Gostei imensamente do seu livro "Nossos filhos são Espíritos"; gostaria de sua análise sobre nossa responsabilidade no processo de resgate com relação à vida conjugal, e como isto influencia a reencarnação daqueles que devem vir como filhos.
O lar é o nosso laboratório de trabalho, pesquisa, estudo e aprendizado, bem como um ponto de reencontro. A família representa, usualmente, a melhor combinação possível de situações que levem os seres que a compõem à solução dos problemas que os afligem. É uma preciosa oportunidade que não deve ser desperdiçada, dado que a felicidade e a paz futuras dependem do que estamos fazendo hoje. As entidades que se reencarnam como nossos filhos e filhas constituem parte integrante do projeto elaborado para a vida terrena e precisam contar conosco para as tarefas que se programaram para realizar junto de nós. Releia o capítulo 21 - "A menina que chorava na calçada", no livro "Nossos Filhos são Espíritos". Leia, ainda, o capítulo que escrevi para o livro "O Espiritismo e os Problemas Humanos", do querido amigo e confrade Deolindo Amorim. É uma edição da USE, São Paulo.
010 - É possível um espírito reencarnar em pouco tempo e dentro da mesma família onde viveu a última encarnação?
É possível, sim, a uma entidade reencarnar-se na mesma família após alguma permanência na dimensão póstuma. A literatura espírita tem documentado numerosos e convincentes casos dessa natureza. Em "Twenty Cases Suggestive of Reincarnation", o professor Ian Stevenson apresenta (que me lembre) pelo menos dois. Um deles passou-se na geladas regiões da América do Norte, onde uma entidade reencarnou-se como filho de seu próprio filho. Ou seja, ele nasceu como neto (ou avô) de si mesmo e seus antigos filhos e filhas passaram a ser tios e tias na nova existência. Ele os reconheceu como reconheceu também seu antigo relógio de bolso que a família conservara. O outro caso narrado pelo dr. Stevenson nesse livro passou-se no Brasil, na família do professor Francisco Waldomiro Lorenz, no Rio Grande do Sul. Há uma tradução desse livro em português, mas não tenho comigo os dados. Se bem me lembro, chama-se Vinte Casos Que Sugerem a Reencarnação (Ou Sugestivos de Reencarnação).
011 - Quando um espírito está se preparando para reencarnar, ele pode se comunicar numa reunião mediúnica? Em caso afirmativo, como se dá esse processo?
A entidade que se prepara para reencarnar-se pode, sim, manifestar-se mediunicamente. Tivemos um caso desses, que ficou narrado em meu livro Diálogo com as Sombras (Edição FEB). Mesmo depois de iniciado o processo reencarnatório, a entidade goza de relativa liberdade. Como, aliás, acontece também com os encarnados, que se manifestam, segundo a Codificação, como espíritos, em estado de desdobramento. Veja, nesta mesma entrevista, os comentários acerca da Pergunta número 19.
012 - Caro Hermínio, temos uma dúvida que até a presente data não conseguimos elucidação. No livro Evolução em Dois Mundos (André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira), no capítulo sobre Simbiose Espiritual, encontramos: "Ninguém necessita, portanto, aguardar reencarnações futuras, entretecidas de dor e lágrimas, em ligações expiatórias, para diligenciar a paz com os inimigos trazidos do pretérito, porque, pelo devotamento ao próximo e pela humildade realmente praticada e sentida, é possível valorizar nossa prece, atraindo simpatias valiosas, com intervenções providenciais, em nosso favor." Nossa questão: Pode um Espírito em uma única reencarnação resgatar todos os seus débitos do passado e anular a vingança de seus inimigos espirituais, através do exemplo do amor puro aos semelhantes ?
Parece-me que a pergunta deve ser reformulada. André Luiz está dizendo que não é necessário esperar por reencarnações futuras para nos reconciliarmos com nossos adversários ou com aqueles a quem prejudicamos; podemos começar desde já a tarefa, com a nossa própria reeducação, o hábito da prece, a prática do amor ao próximo, o reaprendizado da vida, enfim. Ele não diz que estaremos, dessa maneira, resgatando numa só existência, todos os erros cometidos. Temos testemunhado exemplos vivos disso, em nossos trabalhos mediúnicos, no decorrer de quase 40 anos. Entidades indignadas que conseguimos resgatar com paciente argumentação, compreensão e amor, tinham ligações conflituosas com membros do nosso próprio grupo. Não foi preciso, nesses casos, esperar futuras existências de atrito e sofrimento, para trabalhar nossas divergências. Em outras palavras: "adiantamos o serviço" da reconciliação, que teria de ser feito mais tarde, em futuras reencarnações.
013 - Como se dão as reencarnações regidas pelo automatismo? Esta situação abrange os casos de reencarnação forçada que os espíritos de pouca luz unidos em falanges impõem a seus subjugados?
Há reencarnações com um componente de compulsoriedade, obviamente em benefício da entidade reencarnante. O livro Prontuário da Obra de Allan Kardec, de Deoclécio de Demócrito, recomenda ler, sobre este aspecto, a Questão 262, em O Livro dos Espíritos. Recorro, ainda, ao Indicador Espírita, compilado por outro meticuloso e competente confrade, João Gonçalves. Veja o que contém o verbete número 2155: "Reencarnações se processam muita vez sem qualquer consulta aos que necessitam segregação em certas lutas no plano físico, qual enfermos e criminosos que, pela própria condição ou conduta, perderam temporariamente a faculdade de resolver quanto à sorte que lhes convém. Incapazes de eleger o caminho de reajuste, são decididamente internados na cela física como doentes isolados sob assistência precisa. Vemo-los, assim, repontando de lares faustosos ou paupérrimos, ao lado daqueles que lhe devem abnegação e carinho, contrariando por vezes até certo a hereditariedade, por representarem dolorosas exceções no caminho normal." São indicados, nesse verbete, as seguintes fontes de consulta: Evolução em Dois Mundos, Entre a Terra e o Céu, Missionários da Luz, Nosso Lar, No Mundo Maior, Obreiros da Vida Eterna, todos de André Luiz e mais: Autodescobrimento - uma busca interior, de Joanna de Ângelis e ainda, As Mil Faces da Realidade Espiritual, de Hermínio C. Miranda, bem como Nascer e Renascer (Emmanuel) e, finalmente, O Problema do Ser, de Léon Denis. Sobre a segunda parte de sua pergunta, lembro meu artigo "O médium do Anticristo" (Reformador, março e abril de 1976), no qual é examinada a hipótese de reencarnações de um mesmo grupo de entidades em torno de Adolf Hitler.
014 - Gostaria que o Sr. analisasse de forma sintética a presença da fatalidade, do destino e da lei de causa e efeito no processo reencarnatório. Afinal, nem todos os que reencarnam vêm com uma programação reencarnatória? Quando esta programação existe, pode ser encarada como determinismo? Ou alguns aspectos podem ser modificados?
A questão é ampla demais para uma resposta compacta e nem me considero suficientemente preparado para fazê-lo. Não atribuo, contudo, grande importância e conteúdo a palavras como fatalidade, destino, acaso. O conceito dominante aqui é o da lei de causa e efeito ou carma. É evidente que todos nós trazemos para a vida na carne uma programação de trabalho, mas tal programa não é determinista, porque a lei sempre leva em conta o exercício do livre arbítrio e a consequente responsabilidade por tudo quanto fazemos ou deixamos de fazer. Podemos ou não cumprir as tarefas programadas na espiritualidade antes da reencarnação. Daí, tantos desvios e fracassos, que muito teremos a lamentar ao regressar à dimensão espiritual e verificar que pouco ou nada realizamos do que estava planejado. Pior ainda: muitas vezes, fizemos justamente aquilo que não era para fazer. Costumo dizer que o único determinismo a que estamos irrevogavelmente sujeitos é o de chegar aos mais elevados patamares da perfeição espiritual. Não fomos criados para o fracasso, o sofrimento eterno, a prática permanente do erro. Trazemos um plano geral, não um rígido conjunto de ordens que desçam aos detalhes dos detalhes. É como se tivéssemos que ir de determinado lugar a outro, não importando muito que caminhos vamos percorrer, nem que tipo de condução iremos usar. Se preferimos fazer uma viagem mais longa, mais difícil, mais demorada e sofrida, passando por precipícios, desertos e espinheiros, o problema é nosso. Ninguém nos obrigará necessariamente a fazer as coisas desta ou daquela maneira. A respeito do descumprimento da programação reencarnatória, sugiro que você leia "As Sete Vidas de Fénelon" (Publicações Lachâtre).
015 - Qual sua opinião sobre o processo reencarnatório entre os animais? Na passagem do animal para o humano como surge a reencarnação inicialmente? Há algum processo de aprimoramento do princípio espiritual para reencarnar como espírito?
Não conheço suficientemente o assunto. Sugiro que você leia o livro da dra. Irvênia Prada, competente veterinária, com excelente formação doutrinária espírita. O livro intitula-se A Questão Espiritual dos Animais e é uma edição da Folha Espírita, São Paulo.
016 - O Sr. poderia comentar sobre a situação do perispírito durante o processo reencarnatório? Há perda do perispírito no processo reencarnatório? Como podemos compreender o fenômeno da "redução perispiritual", da qual nos fala o espírito André Luiz?
O perispírito é um "modelo organizador biológico" e traz consigo a programação daquilo que deve ser projetado no corpo físico. Não encontro referências à "perda de perispírito" no texto, citado (Entre a Terra e o Céu, p. 179). O que está ali escrito é que há "redução volumétrica do veículo sutil pela diminuição dos espaços intermoleculares." Ou seja, o perispírito compactou-se, mantendo-se, porém, integral, sem nenhuma perda de função.
017 - Qual a participação da espiritualidade e do mentor do reencarnante, no retorno do espírito à carne?
Pelo que sabemos, mentores e amigos espirituais participam da elaboração de nossos planos reencarnatórios, ajudando-nos na escolha das prioridades que nos convêm programar segundo nossas possibilidades e limitações. Mais uma vez, recomendo a leitura de André Luiz para melhor entendimento de tais aspectos.
018 - Na sua opinião, quais benefícios reais o espírito obtém com a reencarnação? Ele não poderia evoluir apenas na erraticidade?
Sobre o objetivo da encarnação, leia a Questão 132, de O Livro dos Espíritos. Quanto ao progresso na erraticidade, diz a Questão 230: "(O Espírito) pode melhorar-se muito (na erraticidade) tais sejam o desejo que tenha de consegui-lo. Todavia, na existência corporal é que põe em prática as ideia que adquiriu." Veja, ainda, a Questão 330 a).: "Pergunta: Então, a reencarnação é uma necessidade da vida espírita, como a morte o é da vida espiritual? Reposta: Certamente; assim é."
019 - Allan Kardec, em A Gênese, postula que a consciência espiritual vai diminuindo com a proximidade do parto, sendo que no nascimento o espírito estaria completamente inconsciente. No seu livro "Nossos filhos são Espíritos", o Sr. transcreve narrativas, obtidas através de regressão, que algumas pessoas fazem sobre a situação na hora do nascimento. Como conciliar estas duas informações?
É pertinente a observação da leitora (ou leitor). No texto que escreveu para A Gênese, Kardec refere-se ao estado de perturbação do espírito a partir do momento em que é "apanhado pelo laço fluídico" que o prende ao corpo físico em início de formação. Prossegue o Codificador, declarando que esse estado de perturbação intensifica-se durante a gestação, "perdendo o Espírito, nos últimos momentos (quando começam os trabalhos de parto) toda a consciência de si próprio, de sorte que jamais presencia o seu nascimento. Quando a criança respira, começa o Espírito a recobrar as faculdades, que se desenvolvem à proporção que se formam e consolidam os órgãos que lhe hão de servir às manifestações." Na Questão 380, os Espíritos se haviam manifestado de modo semelhante, ao dizerem que "A perturbação que o ato da encarnação produz no Espírito não cessa de súbito, por ocasião do nascimento. Só gradualmente se dissipa, com o desenvolvimento dos órgãos." De qualquer modo, as técnicas regressivas e as regressões espontâneas da memória não confirmam generalizado estado de perturbação na entidade reencarnante, ao mesmo tempo em que demonstram nela perfeita consciência de si mesma durante a gravidez e no momento do parto. Alguma modalidade de consciência, portanto, está funcionando nessas fases. No capítulo 48 de "Nosso Lar", uma entidade reencarnada ainda na fase infantil, no berço, manifesta-se com sua personalidade (reencarnação) anterior, aos familiares que deixara ao morrer como Ricardo. Em tarefas de nosso grupo mediúnico, conhecemos uma entidade recém-encarnada era ainda um bebê, que não tinha controle sobre o corpo físico e, por conseguinte, nenhuma condição de se comunicar com a família. No entanto, revelou-se lúcido e consciente de sua situação no encontro mantido, em
desdobramento, com nossos amigos espirituais. O caso está relatado no capítulo 19 - Filhos deficientes, de "Nossos Filhos são Espíritos". Ignoro, pois, em que condições ocorre o estado de perturbação a que se referem os Espíritos.

Tema: Processo reencarnatório
Entrevistado: Hermínio Correa de Miranda
Período: 26 de junho a 9 de julho de 2000
CVDEE - Centro Virtual de Divulgação e Estudo do Espiritismo

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quarta-feira, 25 de março de 2026

Perturbação espiritual

Perturbação espiritual

Joanna de Ângelis


163. A alma tem consciência de si mesma imediatamente depois de deixar o corpo? "Imediatamente não é bem o termo. A alma passa algum tempo em estado de perturbação." Kardec, Allan - O Livro dos Espíritos
A herança mitológica existente nas criaturas humanas é responsável pela crença de que lhes basta o arrependimento de uma ação negativa para que se libertem das consequências que lhes advêm inevitavelmente.

O comportamento simplista e enganoso que as caracteriza leva-as a crer que o fenômeno da morte é também de libertação das penas e dos crimes perpetrados, bastando somente que haja a aceitação de uma ou de outra conduta religiosa, através da qual se pode conseguir a plenitude, sem recordação do passado nem apego aos interesses que constituíram a razão de ser da existência recém-encerrada.

O hábito ancestral do perdão concedido no momento in extremis do ser, mediante ritualística destituída de emoção por
parte do celebrante, não consegue proporcionar ao Espírito a harmonia que não cultivou durante toda a trajetória física, ou mesmo conceder-lhe a felicidade para a qual não se empenhou através das atitudes de enobrecimento e de solidariedade que lhe são indispensáveis.

A realidade, porém, é muito diferente.

Morrer é fenômeno biológico de grande significado e de repercussões profundas para aquele que deixa o invólucro orgânico.

De acordo com os hábitos vivenciados e a conduta mental mantida, ele permanecerá vinculado aos despojos, que já não mais o atenderão, ou experimentará rudes aflições de que não tem facilidade para superar.

Imantado ao corpo somático por meio do perispírito, célula a célula, mediante a circulação sanguínea, o desprendimento somente ocorre quando a mente em equilíbrio se adapta às novas condições do campo vibratório no qual ora se encontra.

As aspirações e necessidades, os vícios e virtudes mantidos, os sentimentos de apego ou de libertação que fizeram parte do seu dia a dia, constituem algemas de retenção aos despojos mortais ou asas para a ascensão aos páramos da felicidade que almeja.

Não se interrompem os anseios do sentimento ou das paixões demoradas pelo simples ato da cessação do fenómeno biológico.

Os automatismos fisiopsicológicos prosseguem sem solução de continuidade, induzindo aos mesmos hábitos, ora impossíveis de realizados, transformando-se, desse modo, em angústias e perturbações que se prolongam pelo tempo necessário à sua libertação.

*

A perturbação espiritual resulta da surpresa que toma o desencarnado ante a ocorrência para a qual não se preparou convenientemente, constituindo-lhe grande frustração e motivo de arrependimento tardio.

Sensações peculiares àquelas que foram mantidas pelo corpo, através da imantação do perispírito, permanecem afligindo sem consumar-se, o que constitui grave desequilíbrio para o Espírito.

Necessidade incoercível de volver ao corpo ou evitar-lhe a decomposição, torna-se-lhe motivo de desespero incomum.

Acompanhar a matéria entumecida e em degeneração, produz-lhe pavor indescritível que o aturde e o enlouquece, como é compreensível.

A surpresa ante a realidade que o toma fere-lhe profundamente o sentimento, que se esfacela sob os camartelos da angústia e do medo.

A presença irônica daqueles com os quais mantinha convivência espiritual enquanto na Terra, constituindo-lhe o grupo de sintonia, aparvalha-o, deixando-se arrastar a regiões de sofrimento e alucinação que se alargam por período indefinido.

Por outro lado, aquele que se afeiçoou ao Bem e administrou as
más paixões, os vícios lamentáveis, desperta fora do corpo em estado de torpor, recuperando lentamente a razão e sendo recebido pelos afetos que o precederam, ora em júbilo ante a sua chegada.

A gratidão pela existência vivida com equilíbrio, dignidade e enobrecimento enfloresce a mente de alegria, constatando, então, que a continuidade da vida é bênção de incomum significado, que ora se apresenta como compensação às lutas experimentadas e aos sacrifícios enfrentados.

Quando alguém desperta de um tratamento cirúrgico, conforme o seu estado nervoso habitual, apresenta-se em tranquilidade ou desesperação conforme os hábitos mentais longamente mantidos.

Da mesma forma, a morte ou desencarnação - tratamento cirúrgico de porte total - faz que o indivíduo desperte mantendo a mesma conduta que o assinalava antes da ocorrência.

Inevitável que a perturbação espiritual seja o normal para a grande maioria daqueles que são convocados pela morte ao retorno à Pátria espiritual.

Não são poucos os homens e mulheres vinculados ao sensualismo, aos interesses sórdidos, às posições de destaque e dominação social, que da existência somente souberam experimentar o que lhes interessava ao egoísmo, que chegam ao Além-túmulo sem dar-se conta da ocorrência, continuando, perturbados e aflitos, com exigências descabidas e nunca atendidas, e rebeldias injustificáveis que mais os tornam desditados e infelizes.

*

Diante da inevitabilidade do fenômeno da morte, devem todas as criaturas habituar-se à reflexão em torno do despertar espiritual.

Conforme seja vivenciada a existência, assim será o acordar além das vibrações do mundo físico.

Não existem milagres que beneficiem alguns eleitos em detrimento dos demais.

Cada ser carrega em si mesmo as algemas e as asas de que se utilizará após a morte do corpo físico.

A perturbação espiritual que acompanha o ser que sai do casulo orgânico pode ser de pequeno ou demorado curso, conforme a necessidade do despojamento das imperfeições que
lhe tisnam o caráter e o vinculam ao magnetismo das paixões inferiores ou às vibrações enobrecidas que lhe eram peculiares.

Pensar na morte e no despertar deve fazer parte da agenda de reflexões de todos, porque ninguém se eximirá à desencarnação, preparando-se, desde agora, para o seu momento que, por mais se demore, chegar-lhe-á fatalmente.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Lições para a Felicidade

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