Regeneração do Bem
"- Fora da caridade não há salvação." Allan Kardec
sábado, 31 de outubro de 2026
Inalterada preponderância do bem
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Um céptico
Um céptico
Humberto de Campos
Se o vinte e sete de outubro marcou o meu ingresso no reino das sombras, que é a vida daí, o cinco de dezembro representou a minha volta ao país de claridades benditas, cujas portas de ouro são escancaradas pelas mãos poderosas da morte.
Nessa noite, o ambiente do cemitério de São João Batista parecia sufocante. Havia um "quê" de mistérios, entre catacumbas silenciosas, que me enervava, apesar da ausência dos nervos tangíveis no meu corpo estranho de espírito. Todavia, toquei as flores cariciosas que a Saudade me levara, piedosa e compungidamente. O seu aroma penetrava o meu coração como um consolo brando, conduzindo-me, num retrospecto maravilhoso, às minhas afeições comovidas, que haviam ficado a distância.
E foi entregue a essas cogitações, a que são levados os mortos quando penetram o mundo dos vivos, que vi, acocorado sobre a terra, um dos companheiros que me ficavam próximos ao bangalô subterrâneo com que fui mimoseado na terra carioca...
- O senhor é o dono desses ossos que estão por aí apodrecendo? - interpelou-me.
- Sim, e a que vem a sua pergunta?
- Ora, é que me lembro do dia de sua chegada ao seu palacete subterrâneo. Recordo-me bem, apesar de sair pouco dessa toca para onde fui relegado há mais de trinta anos... O senhor se lembra? A urna funerária, portadora dos seus despojos, saiu solenemente da Academia de Letras, altas personalidades da política dominante se fizeram representar nas suas exéquias e ouvi sentidos panegíricos pronunciados em sua homenagem. Muito trabalho tiveram as máquinas fotográficas na camaradagem dos homens da imprensa e tudo fazia sobressair à importância do seu nome ilustre. Procurei aproximar-me de si e notei que as suas mãos, que tanto haviam acariciado o espadim acadêmico, estavam inermes e que os seus miolos, que tanto haviam vibrado, tentando aprofundar os problemas humanos, estavam reduzidos a um punhado de massa informe, onde apenas os vermes encontrariam algo de útil. Entretanto, embora as homenagens, as honrarias, a celebridade, o senhor veio humildemente repousar entre as tíbias e os úmeros daqueles que o antecederam na jornada da Morte. Lembra-se o senhor de tudo isso?
- Não me lembro bem... Tinha o meu espírito perturbado pelas dores e emoções sucessivas.
- Pois eu me lembro de tudo. Daqui, quase nunca me afasto, como um olho de Argos, avivando a memória dos meus vizinhos. O senhor conhece as criptas de Palermo?
- Não.
- Pois nessa cidade os monges, um dia, conjugando a piedade com o interesse, inventaram um cemitério bizarro. Os mortos eram mumificados e não baixavam à sepultura. Prosseguiam de pé a sua jornada de silêncio e de nudez espantosa. Milhares de esqueletos ali ficaram, em marcha, vestidos ao seu tempo, segundo os seus gostos e opiniões. Muito rumor causou essa parada de caveiras e de canelas, até que um dia um inspetor da higiene, visitando essa casa de sombras da vida e enojado com a presença dos ratos que roíam displicentemente as costelas dos trespassados ricos e ilustres que se davam ao gosto de comprar ali um lugar de descanso, mandou cerrar-lhe as portas pelo ministro Crispi, em 1888. Ora bem: eu sou uma espécie dos defuntos de Palermo. Aqui estou sempre de pé, apesar dos meus ossos estarem dissolvidos na terra, onde se encontraram com os ossos dos que foram meus inimigos.
- Mas, o irmão está muito céptico. É preciso esperança e crença...
Não estamos nós aqui dentro da terra da Guanabara, paraíso dos turistas, cidade maravilhosa? Percorra o senhor, ainda depois de morto, as grandes avenidas, as artérias gigantescas da capital e verá as crianças famintas, as mãos nauseantes dos leprosos, os rostos desfigurados e pálidos das mães sofredoras, enquanto o governo remodela os teatros, incentiva as orgias carnavalescas e multiplica regalos e distrações. Vá ver como o câncer devora os corpos enfermos no hospital da Gamboa; ande pelos morros, para onde fugiu a miséria e o infortúnio; visite os hospícios e leprosários. Há de se convencer da inutilidade de todo o serviço em favor da esperança e da crença. Em matéria de religião, tente materializar-se e corra aos prédios elegantes e aos bangalôs adoráveis de Copacabana e do Leblon, suba a Petrópolis e grite a verdade. O seu fantasma seria corrido a pedradas. Todos os homens sabem que hão de chocalhar os ossos, como nós, algum dia, mas um vinho diabólico envenenou no berço essa geração de infelizes e de descrentes.
- Por que o amigo não tenta o Espiritismo? Essa doutrina representa hoje toda nossa esperança.
Não tentarei coisa alguma. Desde que temos vida depois da morte, prefiro esperar a hora do Juízo Final, hora essa em que deverei buscar um outro mundo, porque, com respeito a Terra, não quero chafurdar-me na sua lama. Por estranho paradoxo vivo depois da morte, serei adepto da congregação dos descrentes...
- Então, nada o convence?
- Nada. Ficarei aqui até à consumação dos evos, se a mão do Diabo não se lembrar, de me arrancar dessa toca de ossos moídos e cinzas asquerosas. E, quanto ao senhor, não procure afastar-me dessa misantropia. Continue gritando para o mundo que lhe guarda os despojos.
Eu não o farei.
- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles, a razão e a universalidade.
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Preconceito
Preconceito
Hammed
“... Tendo-o visto, lhe disse: Zaqueu, apressai-vos em descer, porque é preciso que eu me aloje hoje em vossa casa. Zaqueu desceu logo e o recebeu com alegria. Vendo isso, todos murmuraram dizendo: Ele foi alojar-se na casa de um homem de má vida...” (O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. 16 / item 4.)
- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles, a razão e a universalidade.
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Precipitação e paciência
Precipitação e paciência
Joanna de Ângelis
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| Imagem gerada por IA. |
“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.” (Mateus, 5:5)
No báratro da atualidade, ante os desafios de cada instante, não te entregues às reações que somente complicam o teu processo evolutivo.
Enfrenta cada problema usando o raciocínio e asserenando o coração, de modo apoderes agir com acerto, sem tais reagentes que resultam da precipitação.
A reação perturba, a ação edifica.
Quando reages sem pensar, serás obrigado, mais tarde, a agir para consertar.
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Os fatores dissolventes, que resultam dos vícios e acomodações, respondem pela perturbação e desordem que ora grassam soberanos.
Não te deixes arrastar pelo desequilíbrio que se generaliza.
Sé tu aquele que, diante das dificuldades, não se engaja na precipitação.
Esta é geratriz da agressividade e da violência, filha dileta do primarismo e do medo ancestral, primitivo.
Assim, em qualquer momento, tens necessidade de cultivar a paz que ressuma da paciência.
A paciência é instrumento da vida para o serviço da perfeição.
A precipitação é operária a soldo das implosões devastadoras e das explosões infelizes.
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Lenta e seguramente cresce no trabalho e atua nos teus deveres.
Melhor realizar em profundidade, com calma, do que com precipitação, tudo intentar produzir.
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A precipitação desnorteia; a paciência harmoniza.
Precipitado, o homem tomba nas próprias armadilhas. Paciente, soluciona todos os enigmas.
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A precipitação retrata distúrbio emocional, enquanto que a paciência reflete harmonia interior.
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Átila, precipitado, submeteu grande parte do mundo ao seu domínio, para logo depois sucumbir, vitimado pela própria impulsividade.
Antes dele, Alexandre Magno conquistou a Terra conhecida, não obstante, desencarnou em perturbação e insatisfação íntima.
A história dos precipitados conquistadores do exterior é feita de amargura e com ressaibos de dor.
Jesus, porém, que nos veio amar, permanece conquistando-nos com paciência, aguardando que o sigamos.
Nas suas pegadas levantaram-se apóstolos, mártires e santos em todas as épocas, ensinando-nos que a precipitação conduz à loucura; todavia, a paciência com amor, mãe da resignação cristã, leva à vitória e à salvação.
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