Encontro de reparação
Amélia Rodrigues
O diálogo, na praça ensolarada, no qual a mulher adúltera foi compreendida por Jesus, tornou-se um esperado escândalo.
Surpreendentemente, o Mestre não censurou o delito, recomendando a lapidação da equivocada, nem a liberou de responsabilidade, considerando-a inocente.
Reportou-se, isto sim, à leviandade dos acusadores que se encontravam incursos no mesmo crime.
Tal atitude havia desconcertado os intrigantes e vingadores gratuitos, que se rebelavam contra a terrível chaga do organismo social, que é o adultério, esquecidos de que, ao lado da caída encontrava-se o comparsa que tombara no mesmo erro.
Passada a surpresa e debandada a multidão sedenta de sangue, e porque a sós, com a infortunada, o Senhor recomendou-lhe que não voltasse a pecar a fim de que não lhe acontecesse mal pior, conforme era habitual.
Naquela noite, no entanto, quando o episódio já esmaecia, inclusive, entre os discípulos, a mulher, decidida a imprimir novo rumo à existência, procurou o Amigo Divino, na residência que O acolhia...
Demonstrando, no constrangimento que exteriorizava, todo o drama e sofrimento maceradores, solicitou e conseguiu uma entrevista com Aquele que por cuja interferência tivera a vida poupada.
Compreendendo a angústia que a apunhalava, o Senhor ensejou-lhe o início da conversa de edificação, saudando-a com carinho e sem afetação.
– Rogo perdão – disse ela reticente – por vir perturbar-Vos a paz.
– A verdadeira paz – retrucou-lhe, calmo – é a que flui do coração aclimatado ao culto do dever, que nada perturba. “Fala tranquila e te ouvirei...”
– Sinto-me aturdida – ripostou-Lhe em pranto –, sem saber que rumo dar à minha existência. Lutei muito antes de tombar... O sedutor rondou-me os passos como lobo voraz ante a presa invigilante...
“Meu esposo, passados os primeiros dias da novidade conjugal, retornou às noitadas alegres, deixando-me em solidão... Enferma da alma e carente de bondade, permiti-me envenenar por tormentos que não merecem compaixão.
“Com sede de ternura, embriaguei-me de concupiscência, e ansiosa pela água pura do amor, chafurdei no lodaçal dos desejos doentios. O resultado foi a tragédia...
“Abandonada e sem lar, agora padeço o desprezo e a zombaria geral, não sabendo que rumo seguir, nem como agir.
“Peço-Vos um roteiro e uma lâmpada acesa de esperança, a fim de prosseguir...”
Jesus penetrou naquela alma ansiosa e sofrida, nela encontrando as dores da Humanidade através dos tempos, e considerou, bondoso:
– A paciência e a confiança em Deus serão as duas providências iniciais que te facultarão a cura e a renovação da saúde. Cometido o erro, ele passa a pesar na economia social e a sobrecarregar a consciência culpada.
“Não é de importância o que os outros pensam de nós, e a cobrança, pela impiedade, com que desejam fazer justiça. O problema íntimo é o vital, e somente quando o homem se reintegra no concerto da ordem, do bem, é que pode fruir de tranquilidade.
“Arma-te de humildade e confia no amanhã.
“A memória do povo é fraca e passa rápida em relação às virtudes do próximo. Todavia, é firme, clara e duradoura em referência às faltas alheias, sempre recordadas com o ácido da acusação e os acepipes da malícia.
“O exemplo decorrente do arrependimento se transforma na defesa do equivocado, que assim repara perante o Pai, ante si mesmo e a sociedade, o engano perpetrado.”
– Para onde irei, agora? – inquiriu, vencida...
– As aves dos céus têm ninho, as serpentes e feras, os seus covis, mas o filho do Homem não tem onde se agasalhar, vivendo sob a abóbada estrelada e avançando na direção do Infinito...
“Assim, busca a oportunidade de reparação e adapta-te à situação atual, aguardando o amanhã com a disposição de quem compreende o prejuízo a si mesmo causado, ao arrojar fora o hoje...
“A negligência do esposo ingrato e leviano não constitui respaldo para que assumisses compromisso infeliz semelhante. E porque ele é doente também, vivendo num organismo comunitário alienado do amor, não tem condições de distender-te a mão amiga, quando dele necessitas e conforme de ti no futuro igualmente dependerá.
“A vida é feita de permutas, que facilitam a felicidade para todos, sem cujo concurso faz-se mais difícil.
“Segue, porém, renovada pela certeza do triunfo, porquanto todo aquele que se levanta da queda, encontra apoio na fé e na luta para firmar-se.
“O Pai Criador não desampara filho algum e vela, devotado, por todos.”
Fazendo-se um silêncio natural, profundo e tocante, foi a mulher quem o arrebentou, rogando:
– Permiti-me seguir-Vos, na minha pequenez, e dai-me a Vossa bênção.
Jesus envolveu a sofredora em uma onda de ternura ímpar, e, erguendo-a, pois que, comovida, prosternara-se-Lhe aos pés, concluiu:
– Vai, filha, e não sofras mais. Aqueles que se arrependem e buscam ensejo de redenção, encontram-no. Há sempre um lugar no rebanho do amor para as ovelhas que retornam e desejam avançar.
“Aonde quer que vás, eu estarei contigo, e a luz da verdade, no archote do bem, brilhará à frente, clareando o teu caminho.”
No céu silencioso, a sinfonia dos astros espalhava luz cintilante, apontando o futuro.
*
Dez anos depois, na cidade de Tiro, uma casa humilde de aspecto e rica de amor recolhia peregrinos cansados e enfermos sem ninguém.
Uma mulher, que traía na face desgastada vestígios de grande beleza em decadência, reunia ali os infelizes, limpava-lhes as chagas e falava-lhes de Jesus.
Tornara-se, por isso, querida e respeitada por todos.
Num cair de tarde amena, chegou, trazido por mãos piedosas, um homem chagado, em extrema penúria, quase morto sob o fardo de mil vicissitudes.
Recolhido com carinho, teve as úlceras lavadas e aliviadas com unguentos medicamentosos, recebendo caldo reconfortante das mãos da caridade.
Quando se recobrou um pouco do desalento que o vitimava, ouviu a mensagem de encorajamento, em nome de Jesus, enunciada com unção e carinho pela desconhecida benfeitora.
Emocionado, e quase sem vitalidade, indagou interessado:
– Esse Jesus a quem vos referis é o galileu que foi crucificado m Jerusalém?
– Sim, é Ele mesmo. Morreu por nós, mas volveu ao nosso convívio para nunca mais deixar-nos.
– E vós O conhecestes para terdes a certeza de que os Seus ensinos são verdadeiros?
– Sim, eu O conheci, oportunamente, quando a mim Ele salvou...
– Também eu tive a honra de O conhecer – respondeu o moribundo, quase sem forças –, mas não soube beneficiar-me. A vós Ele salvou, mas, eu, egoísta e mau, O detestei, afastando-me da Sua presença, confuso e amargurado.
– Que vos fez Ele para que fugísseis magoado?
– Salvou a minha mulher que adulterara contra mim e não me concedeu uma palavra, sequer, de consolação. Não pude compreendê-lO, então.
“Abandonei a companheira a quem eu infelicitara com os meus vícios e envenenei-me de dor.
“Passados os anos e havendo despertado para a verdade, tenho-a buscado em vão por toda parte, até que a doença me devorou o corpo e aqui estou...”
Embargada pelas emoções em desenfreio, naquele momento, a mulher recordou-se da praça e do diálogo, à noite, com o Mestre, um decênio antes, reconheceu o companheiro do passado e, sem dizer-lhe nada, segurou-lhe a mão suavemente e o consolou:
– O arrependimento do erro, a confiança em Deus e a paciência são os primeiros passos para a reparação de qualquer delito.
“Deus é amor, e Jesus, por isso mesmo, nunca está longe daqueles que O querem e buscam.
“Agora durma em paz enquanto eu velo, porquanto, nós ambos já O encontramos...”
Amélia Rodrigues por Divaldo Franco do livro:
Pelos Caminhos de Jesus
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