Herança cruel do primarismo por onde deambulou o princípio espiritual nas anteriores faixas antropológicas da evolução, o egoísmo predomina na natureza humana, responsabilizando-se pelos comportamentos arbitrários e infelizes que postergam o desenvolvimento do cristo interno adormecido nos refolhos mais profundos do ser humano.
Esse atavismo dos prazeres mais grotescos, característico da selvageria que a tudo elege para si, excepcionalmente para a prole, quando ainda dependente no animal, remanesce dominador como medida de preservação da existência física, segurança pessoal para o futuro e insegurança da própria estabilidade.
Reúne tudo de quanto dispõe além das necessidades reais, acumulando excessos perturbadores no campo da posse, pensando exclusivamente em si mesmo, e quando, por exceção, naqueles que lhe são afeiçoados ou descendentes, em detrimento de todos os demais, os quais certamente não pode dispensar, mas que, na sua loucura egotista, por enquanto, não se dá conta nem lhes atribui valor.
Por isso mesmo enceguece-se e perde o rumo da felicidade, por pensar exclusivamente no gozo que amortece os sentidos e bloqueia os sentimentos que poderiam desabrochar para a compreensão do bom e do belo, do nobre e do elevado.
Poderoso, por estar entranhado nos recessos do psiquismo que ainda não despertou para a realidade, faz-se cruel, mantendo a sua vítima prisioneira do
misoneísmo infeliz que impede a aceitação das conquistas contemporâneas que iluminam e libertam a consciência dos
paroxismos que o assaltam sempre que invitado a comportamento melhor e mais compatível com o nível de evolução que lhe compraz alcançar.
Dele se exteriorizam o orgulho e a presunção que envilecem a conduta humana, por facultarem uma visão distorcida dos valores espirituais e por conduzirem à alucinação da soberba, dos preconceitos dissolventes, da disputa pelos privilégios que entorpecem o caráter.
Frágeis, no entanto, sempre conduzem ao desfalecimento e à consumpção, por não disporem das resistências morais para a transformação que se deve operar em sentido elevado e contínuo, porque no rumo do Infinito.
Ao egoísmo devem-se as grandes calamidades morais e sociais que se apresentam no organismo da Humanidade, gerando guerras de religião, de classes, de raças, de política, de anseios desmedidos. O egoísta somente vê-se a si mesmo e às suas ambições enlouquecedoras que o jugulam ao eito da escravidão desse incomum carrasco do progresso espiritual da sociedade.
As suas amarras vigorosas, no entanto, tendem a arrebentar-se ante o impacto da evolução, pois que ninguém se exime da lei dos renascimentos corporais, por meio dos quais o inevitável mecanismo depurativo trabalha pela libertação da sua inferioridade, já que todos se encontram destinados à perfeição
inevitável.
Assim, são limadas as primeiras
anfractuosidades do caráter agressivo-defensivo pelo automatismo do sofrimento, cujo instinto de preservação da existência experimenta a contribuição valiosa e saudável da inteligência que estabelece os parâmetros da manutenção do corpo e de todos os seus equipamentos, sem necessidade de reforços destrutivos.
Logo depois, o sofrimento, agora lúcido e racional, induz à busca da cooperação do próximo, queira-o ou não, sem cujo socorro torna-se inviável a luta, e o fracasso do investimento se torna inevitável.
À medida que o ser experimenta a compreensão, o discernimento em torno dos objetivos existenciais e participa do grupo social, o egoísmo, mesmo quando dominante, cede espaço à solidariedade e ao sentimento de apoio ao próximo, ensejando o bem-estar que não se encontra no estágio primitivo, mas faz-se conquista de uma percepção mais sutil da alma que já não se demora na ignorância de si mesma.
Embora esse esforço, que deve ser contínuo, percebe-se que remanescem nos pensamentos e nas atitudes as heranças arcaicas do primarismo que constitui a base de sustentação do progresso. Lentamente transformada em energia vitalizadora, essas manifestações tornam-se estímulos para a aquisição das elevadas qualidades morais, transformando o que antes eram interesses para si exclusivamente em contribuição para todos igualmente.
Brotam, então, os
pródromos do autoamor, que se encarrega de proporcionar o despertamento para a felicidade mediante a iluminação interna que faculta entender as finalidades da vida e todos os encantamentos que se apresentam no curso da sua vivência. Uma necessidade premente de equilíbrio emocional, psicofísico, impõe-se, porque já não satisfazem os prazeres superficiais e anestesiantes que sempre transferem o indivíduo de uma para outra ansiedade, todas geradoras de morbidez.
Para conseguir esse
desiderato, investe os melhores esforços em favor da conquista de mais conhecimento intelectual e melhor desenvolvimento moral, adquirindo controle sobre as tendências negativas e as paixões mais perversas, administrando o potencial de energia interna que canaliza para os avanços audaciosos da fraternidade como se manifeste, ensejando-se a alegria de existir e o reconhecimento a Deus por viver.
Eliminados os interesses egoísticos, a pouco e pouco vão desaparecendo os conflitos internos, que decorrem do medo da perda da posse, da juventude, da saúde, da posição social, do trabalho mantenedor da existência, que substitui pela tranquilidade do dever bem cumprido.
O pensamento dilata-se em um hino de harmonia, fundindo-se com a Natureza embora individualizado, por sentir-se parte integrante do Cosmo, partícula de mínima expressão conforme se encontre, porém importante quão essencial em favor da harmonia geral.
Para que possa conseguir todo esse desempenho, o ser profundo é invitado ao incomparável empreendimento da governança da mente, da emoção e do corpo, que se apresentam como uma unidade, pois que, independente do cérebro de que se utiliza, tudo depende das aspirações que acalente e programe para consubstanciar a sua realidade.
Essa visão unitária de conjunto somente pode ser adquirida quando se percebe a integração dos elementos que constituem o indivíduo como célula do organismo universal. E para que seja realmente entendida depois de identificada, a meditação e a oração como partes integrantes do mesmo programa autoiluminativo desempenham papel fundamental.
O ser sensorial cede lugar ao espiritual, sem perder as suas funções na execução das tarefas que lhe estão assinaladas, desde que indispensáveis para o êxito do processo reencarnacionista.
Enquanto guiado pelo instinto de preservação da vida, a matéria é-lhe o tudo existencial, que deve ser mantida a qualquer preço, estimulada e bem disposta para poder fruir o máximo, ao mesmo tempo prolongando o período que lhe está destinado. Com essa compreensão estreita e deturpada, tudo gira em torno dos sentidos físicos, e, mesmo quando as aspirações do sentimento apontam novos rumos, a prioridade é sempre para o corpo e as suas manifestações.
O ser humano é resultado da força dinâmica procedente da consciência que encaminha os pensamentos conforme os seus padrões de sono ou de despertamento.
Comprometido fatalmente com a felicidade, todos os passos orientam para a conquista de níveis mais consentâneos com a sua destinação espiritual.
O encontro do nível de identificação de todas as funções da máquina na qual estagia constitui o próximo desempenho, mediante o qual se podem utilizar todos os recursos da constituição orgânica para a libertação do claustro em que se transforma com exigências e limites que devem ser ultrapassados.
O prosseguimento da ação da consciência em ascensão alcançará o estágio cósmico, quando já não é mais o indivíduo — persona — que se apresenta, mas o Espírito quem orienta.
Após haver vivenciado todas as possíveis tribulações, testemunhos, amarguras e dissabores, o Apóstolo Paulo exclamou: “Já estou crucificado com Cristo: e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”, conforme a carta dirigida aos gálatas, 2:20.
O incomum servidor do Evangelho pôde, em uma existência, vivenciar os diferentes níveis de consciência, saindo do primarismo que a ortodoxia farisaica lhe desenvolvera no comportamento, tornando-o revel e criminoso, para o despertamento com Jesus na estrada de Damasco. Toda uma revolução se operara no seu mundo íntimo, e ele deu-se conta de que a sua vida tinha uma finalidade muito mais significativa e ampla, abrangendo a Humanidade que necessita do Mestre, passando a meditar no deserto de Don, para controlar os impulsos da inferioridade antes predominante, e assim, consciente das suas funções orgânicas e a elas sobrepondo a vontade férrea, partiu para servir.
A jornada era-lhe imensa, e os empecilhos multiplicavam-se a cada momento, mas ele não estacionava, não recuava, não se compadecia dos próprios limites, impondo-se sacrifícios cada vez mais severos, conseguindo libertar-se do fardo carnal, embora nele transitando, para lobrigar a consciência cósmica, aquela que o fascinava e se empenhava por alcançá-la, quando então o Cristo tomou-o todo e ele já não se pertencia, nem ao corpo, nem às próprias aspirações.
O egoísmo que nele predominava, elegendo-o como o melhor da raça em que nascera, enlouquecendo-o de orgulho para conseguir os mais altos e destacados postos rabínicos de exaltação pessoal e do seu povo, estiolou-se, diluiu-se ante a luz inigualável de Jesus Cristo, humilhando-o, qual uma semente que deve ser triturada, a fim de que liberte a vida que nela se encontra adormecida, propiciando-lhe o esplendor que se lhe encontra ínsito. E ele conseguiu autossuperar-se, imergindo do caos em que se asfixiava para planar nas imensuráveis regiões do êxtase que desfrutava na convivência com o Cristo de Deus.
Certamente, nem todos os indivíduos se disporão de uma vez a essa transformação superior, saindo do vale sombrio por onde deambulam e alcançando o planalto esplandecente para onde se dirigem.
Lentamente, vencendo cada etapa do processo de autossuperação, o egoísmo de cada um vai desprendendo as camadas externas em que se envolve, pela desnecessidade de mantê-las, enquanto se desfaz interiormente ante a energia edificante que dimana dos centros vitais do psiquismo.
Esta é uma luta abençoada e feliz, cujo resultado é plenificador, por ensejar a constante transformação moral do ser no rumo da Consciência Cósmica.