Fantasias e realidade
Antonio Ugarte
Periodicamente, se generalizam conceitos e informações que fascinam as criaturas, mais pela extravagância de suas propostas que por sua realidade.
Tomam corpo e, progredindo, formam correntes que disputam superioridade.
No princípio, são rechaçados, recebidos com suspeita e considerados reprováveis.
A algumas pessoas de comportamento maleável ou tendentes à fantasia, conseguem impressionar com facilidade, encontrando, nelas, defensores, adeptos fervorosos.
Com o passar do tempo, por serem muito comentadas, propagam-se, emitindo cores de verdade que se transmitem com celeridade, pese à falta de estrutura que não resiste a uma investigação séria ou porque não se sustentam em bases seguras.
Por suas características estranhas, oferecem campo a devaneios mentais, mesclando-se com ocorrências reais e convertendo-se em verdadeiro pandemônio cultural que passa, com seus argumentos confusos, a uma situação pseudocientífica.
No futuro, se apresentarão com cidadania intelectual e confundirão os indivíduos inadvertidos, não acostumados a raciocínios mais profundos.
Nem sequer os mesmos acontecimentos verdadeiros se viram livres de tais aficionados à fantasia que, sem capacidade para um exame do fato com o cuidado do rigor, tomam-no em conta, adotam-no e, com essa disposição exagerada, desvalorizam para os homens de ciência e de bom senso aquilo que lhes agradaria divulgar.
Sem discutir a legitimidade ou não dos objetos voadores não identificados – OVNIS – tal questão, muito delicada pelas circunstâncias de que se reveste, tem suscitado desprezo e constantes dúvidas, como resultado de afirmações absurdas que correm pelo mundo, produzindo histeria nas pessoas nervosas, alucinação nos indivíduos sugestionáveis e descrédito nas personalidades que investigam e esperam a comprovação mediante os fatos.
O Espiritismo, em seu aspecto de Ciência do ser imortal, sempre impõe uma conduta compatível com sua estrutura doutrinária: deixar, à investigação científica, a palavra, quando se trate de questões que lhe digam respeito de acatar essas conclusões, até que outras melhores ou mais bem fundamentadas venham substituí-las.
Não opina, exceto quando pode demonstrá-lo por meio da experiência de laboratório, ainda que este seja o mediúnico.
De outra forma, o Espiritismo não tem pressa para incorporar em seu campo de informações, novidades ou incoerências que possam ser consideradas complementos ou desdobramentos de suas teses, ou bem, atualização de seus ensinamentos, em forma de conivência com tudo o que necessita comprovação e resistência ao tempo em suas conquistas contínuas.
Vive-se um momento cultural na Terra, no qual, surgem e desaparecem novidades, diante do claro sol do conhecimento científico.
Mitos, ídolos e superstições, aparentemente bem estruturados, são destroçados a cada instante, no esforço que o homem realiza para equilibrar-se e sustentar-se em realidades que não lhe defraudem.
Por isto, é factível uma postura de observação tranquila por parte do adepto do Espiritismo com respeito a informações e narrações rotuladas de verdadeiras por aqueles que se apresentam como testemunhas das mesmas.
Não que se deva duvidar de todas as criaturas, mas é necessário ter um critério de avaliação razoável com respeito a tudo, sem os arroubos da emoção.
Os bólidos, as reações atmosféricas, os artefatos fabricados pelos homens aumentam, cada dia mais, em nossos espaços siderais, produzindo efeitos luminosos que dão impressões muito equivocadas a quem os veem, sem o indispensável conhecimento para analisá-los convenientemente.
É ponto definido, na Doutrina Espírita, a crença nos mundos habitados que, pouco a pouco, os astrônomos confirmam, partindo de premissas para os resultados de concepções matemáticas, e destas para os exames de radiofotografias e materiais obtidos fora da Terra, porém que Allan Kardec recebeu por intermédio das comunicações mediúnicas dos seres que afirmavam viver em outros planetas.
Certamente, em cada lugar onde a vida se apresenta, há condições que propiciam sua aparição e, por sua vez, ali se caracteriza pelos fatores que lhe dão origem. Quer dizer que, em cada mundo, a vida dispõe de requisitos próprios ao seu habitat, diferindo daqueles que são conhecidos entre os terráqueos. Além disso, quando nos referimos à vida, especialmente à inteligente, não nos comprometemos com aquela de natureza somente corporal, com as características humanas, conforme nosso padrão conhecido.
Por sua vez, tampouco nos permitimos divagações imaginativas, que facultem concepções estranhas e absurdas para preencher o vazio de nosso desconhecimento.
Aceitamos o lógico, compreendemo-lo e aguardamos a oportunidade de aprofundar em conhecimento e indagações.
Este é um comportamento razoável, filosoficamente, e científico, experimentalmente.
Que os seres de outras dimensões, de outros Orbes se comunicam com os homens, não há dúvida. Que eles já estiveram na Terra, algumas vezes, quiçá construindo algum tipo de civilização, demonstram-no os monumentos arqueológicos; os monolitos de lava vulcânica trabalhada; os sinais de substâncias radioativas em regiões onde elas não existem e que, até ali, foram levadas; os desenhos em cavernas que fazem recordar os trajes espaciais, e antigas lendas, inclusive bíblicas, “dos anjos que desceram dos céus” para conviver com as criaturas humanas...
Da mesma forma que o homem intenta descobrir se há vida inteligente em outras Esferas, partindo do princípio da evolução universal e da possibilidade de que ela exista em outros mundos, aqueles mais evoluídos já conseguiram as conquistas que, somente agora, se ensaiam na cultura e tecnologia terrestres.
Partindo destes raciocínios, não nos podemos permitir os sonhos daqueles que afirmam haver viajado, com o corpo físico, nos OVNIS; que estiveram em outros planetas e ali foram adestrados para trazer avisos e comunicações estrambóticas; que contatam com esquadrilhas que aterrissam a cada momento; que com eles mantêm comunicação mental contínua; que conhecem seres extraterrestres corporificados como homens, observando-os, estudando-os e etc...
Uma atitude de equilíbrio é sempre a posição ideal.
Nem o ceticismo prejudicial, por sistema ou por acomodação cultural, como tampouco a crença ingênua por adesão fantasiosa.
O conhecimento libera o homem da ignorância, estruturando-o emocional e psiquicamente, proporcionando-lhe valores éticos para uma existência digna.
Por isso, uma crença que não resista ao questionamento da ciência, é errônea, mantendo-se por pouco tempo, já que, por falta de fundamentos, se desmorona por si mesma.
A razão é a condutora do pensamento que se deve apoiar na ciência para conquistar e conduzir a existência humana a seu verdadeiro desiderato, sem comprometer-se com teorias absurdas e concepções fantasiosas, imaginativas.
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ANTONIO UGARTE: Personalidade definida e serena. Bondoso, tolerante, modesto, “foi um homem bom”. Sempre evitou deixar mostras imediatas de suas qualidades intelectuais, mas não de suas qualidades morais, pois estas se manifestava por si em cada uma de suas atuações.
Em 1º de abril de 1880, funda, junto com sua esposa Rosa Basset, a Sociedade “Congregación Fraternal para la práctica de la Caridad”, que logo se transformaria em “La Fraternidad”, nome com que, até hoje, continua. Funda a revista, com o mesmo nome: sua orientação era para a propaganda do Espiritismo e a exibição dos fenômenos que se produzia.
Muitos de seus escritos que figuravam nas revistas espíritas da época apareciam assinados com pseudônimos, sempre substituídos ou com iniciais.
Não gostava de figurar nos grandes acontecimentos que ocorreram nas etapas de fim de século e princípio deste, apesar de se saber que o organizador, o que impulsionava vontades era ele.
Inimigo da espetaculosidade, dotado da modéstia dos grandes... exemplo para quem queira buscar, na história, modelo de conduta, modelo de ação, modelo de virtudes morais.
Em 1890, lança o projeto de fundação de uma Central Espírita, conforme foi aconselhada pelo Mestre Kardec. Em fins de 1899, retoma essa ideia e consegue formar uma Comissão integrada por Ovidio Ribaudi, Rodrígues Freire, Canter, Cosme Mariño e ele.
Em 14 de junho de 1900, é fundada a CONFEDERACIÓN ESPIRITISTA ARGENTINA, sendo seu presidente, Cosme Mariño e seu 1º Vice-presidente, Antonio Ugarte.
Eleito Presidente em 10 de julho de 1904.
Eleito Presidente em 6 de janeiro de 1907.
Desencarna em 2 de abril de 1918, este OBREIRO DA VERDADE.
Teve uma filha, María Luísa, ativa colaboradora, como sua esposa.
(Dados extraídos da revista La Idea, número 313 - junho/1950 e do suplemento livro da Idea: Perfil de um arquétipo: Antonio Ugarte, autor César Bogo.)
- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles, a razão e a universalidade.




