Rui Barbosa e o Espiritismo
Jorge Rizzini
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Quantas outras, não somos nós os que vamos chamar esses leais companheiros de além-túmulo, e com eles renovar a prática interrompida... Rui Barbosa
RUI BARBOSA, DOTADO DE ALTA espiritualidade de que a maioria de suas obras dá testemunho, não se deixou prender no emaranhado das religiões. Acreditava numa força divina que governava o universo, e isso lhe bastava. Quase ao término de sua existência, porém, converteu-se ao espiritismo, graças ao estudo contínuo de obras científicas assinadas pelos sábios de sua época; sábios que trataram de toda a fenomenologia espírita, exaustivamente, através de experiências realizadas nos países mais cultos.
Realmente, em sua vastíssima biblioteca, no Rio de Janeiro, exposta à visitação pública, podemos constatar a existência dessas obras, na língua original. Estão grifadas com a tinta vermelha de Rui Barbosa com anotações às margens. Delas daremos os títulos e os respectivos sinais que constam no fichário e que facilitam a consulta do leitor curioso.
Ei-las:
Nouvelles expériences sur la force psychique.
Dessa obra básica do espiritismo experimental, de autoria do cientista inglês William Crookes (o descobridor da matéria radiante), possuía Rui Barbosa duas edições, hoje raras; uma sem data e a outra de 1897. Informações do fichário: G, 10-1, 28 nº 1 e B-10, 3, 29.
Do físico Oliver Lodge, leu Rui Barbosa nada menos do que quatro obras que relatam experiências espíritas. São elas: Raymond or life and death (B-2,5,17); Survival of man (B.2, 4, 23); The proofs of life after death (L-8, 4, 27); La vie et la matière, traduzido por J. Maxwell (L-5, 2, 6).
Do sábio russo Aksakoff: Animisme et spiritisme, em tradução de Berthould Sandow (B-2, 3, 21).
De Ernesto Bozzano, catedrático italiano: Les phénomènes de hantise, em tradução de C. Vesme (E-10, h, 42).
De Myers: Les hallucinations telépathiques (B-2, 3, 20).
De Conan Doyle, o precursor da polícia científica: The new revelation (L-9, 3, 31).
De Léon Denis: Les problèmes de l’être et de la destinée (B-7, 2, 7).
De Alfred Russel Wallace, o rival de Darwin: La place de l’homme dans l’univers (L-8, 5, 22).
De Flammarion, diretor do observatório astronômico de Paris, Rui Barbosa leu seis volumosas obras que tratam de assuntos variados referentes ao espiritismo: Dieu dans la nature, L’homme et les problèmes psychiques, La mort et son mistère, Recits de l’infini, Uranie, Autour de la mort.
Charles Richet (Prêmio Nobel de Medicina) também figura entre os cientistas que estudaram os fenômenos espíritas e que chamaram a atenção de Rui Barbosa. O seu Traité de métapsychique (G-l, f, 16) foi compulsado por Rui até a página 401. As conclusões da gigantesca obra também foram meditadas até a página 793. Acha o escritor Sérgio Valle que o Tratado de metapsíquica, de Richet, foi a última obra lida por Rui Barbosa. Parece-nos que razão assiste ao autor de Silva Mello e os seus mistérios porque, como nos explica, a edição do Tratado é de 1922, e Rui Barbosa veio a falecer a 1 de março de 1923: um ano e pouco após haver adquirido o volume de Richet.
Observa-se, através destas citações, que o gigante Rui ao iniciar-se no espiritismo começou pelos mestres no assunto: adquiriu somente obras de cientistas. Leu-as, grifou-as em vermelho, fez anotações nas margens.
Após essas leituras meditadas ficaria convencido da realidade do espiritismo? Já foi dito que sim. Mais adiante daremos provas concludentes. Foi, talvez, devido a essas obras fundamentais que Rui Barbosa, sendo apóstolo da verdade, tomou da pena e resolveu dar um violento golpe no catolicismo: ele não só traduziu, com grande carinho, O papa e o concílio, como veio a escrever um prefácio, cuja extensão supera a própria obra! Prefácio com cerca de trezentas páginas! Rui Barbosa nos mostra os grandes crimes cometidos pelos papas, as falcatruas encobertas por um falso véu místico e examina algumas das resoluções tomadas em concílios vários que visavam, não o benefício do catolicismo no sentido espiritual, mas os cofres do Vaticano e o poder cada vez mais crescente de seus dirigentes. Tudo isso montado em documentos examinados à luz de sua poderosa inteligência. O papa e o concílio, com o prefácio de Rui Barbosa, foi um dos maiores golpes sofridos pela Igreja de Roma. Obra, como essa, com tal poder combativo, só conhecemos a História dos papas, do dicionarista Maurice Lachâtre. Inútil dizer que, tanto uma como a outra, viram suas edições perseguidas pelo Vaticano. Os exemplares encontrados eram queimados como nos velhos tempos da Inquisição.
* * *
A última obra escrita por Rui Barbosa foi a célebre Oração aos moços; escreveu-a no fim da vida. Encontrava-se tão enfermo, que lhe foi impossível lê-la perante os bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo. Leu-a, pois, um seu representante. Último discurso, é nele que o gigante de Haia deixou a seguinte página inspirada pela doutrina dos espíritos; página que bem demonstra sua convicção na impotência da morte.
Ensina Rui Barbosa:
A maior de quantas distâncias logre a imaginação conceber, é a morte; e nem esta separa entre si os que a terrível afastadora de homens arrebatou aos braços uns dos outros. Quantas vezes não entrevemos, nesse fundo obscuro e remotíssimo, uma imagem cara? Quantas vezes não a vemos assomar nos longes da saudade, sorridente ou melancólica, alvoroçada ou inquieta, severa ou carinhosa, trazendo-nos o bálsamo ou o conselho, a promessa ou o desengano, a recompensa ou o castigo, o aviso da fatalidade, ou os presságios do bom agoiro? Quantas nos vem conversar afável e tranquila, ou pressurosa e sobressaltada, com o afago nas mãos, a doçura na boca, a meiguice no semblante, o pensamento na fronte, límpida ou carregada, e lhe saímos do contato, ora seguros e robustecidos, ora transidos de cuidado e pesadume, ora cheios de novas inspirações, e cismando, para a vida, novos rumos? Quantas outras, não somos os que vamos chamar esses leais companheiros de além-túmulo, e com eles renovar a prática interrompida, ou instar com eles por alvitre, em vão buscado, uma palavra, um movimento do rosto, um gesto, uma réstia de luz, um traço do que lá se sabe, e aqui se ignora?
Melhores palavras não poderia Rui Barbosa oferecer aos jovens doutorandos da Faculdade de Direito. Morreu o gigante, pois, plenamente convencido da realidade espiritual apregoada pelos cientistas, cujas obras o Conselheiro lera com vivo interesse.
Infelizmente, ao tempo de Rui Barbosa ainda não haviam aparecido as obras mediúnicas de Francisco Cândido Xavier, caso contrário teria ele dado um parecer. Mas anos depois de seu desencarne, ele próprio veio reafirmar o que dissera na Oração aos moços, fazendo-se porta-voz do Além através da mediunidade de Chico Xavier! A esse respeito, leia-se a obra mediúnica Falando à Terra.
* * *
Como os biógrafos de Rui omitem esse aspecto de sua vida, daremos mais uma prova concludente de sua adesão ao espiritismo.
Quem a fornece, porém, não sou eu; é um católico praticante, o que lhe dá, talvez, maior validade. Trata-se de um depoimento do professor Ataliba Nogueira, secretário da Educação em São Paulo, político renomado e ex-amigo de Rui Barbosa.
Em 1949 pronunciou o professor Ataliba Nogueira uma conferência sobre o Conselheiro, na cidade de Campinas. Pela sua importância foi reproduzida pelo Diário do Povo de Campinas em 6 de novembro de 1949 e pelo Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, em 8 de novembro de 1952.
Ora, estavam numa estação de águas Rui Barbosa, Ataliba Nogueira e inúmeras senhoras e moças. Corria o mês de abril de 1912. A conversa, alegre, de súbito versou sobre a possibilidade dos fatos espirituais. Rui Barbosa já se encontrava em seus aposentos, recolhido. Alguém, então, lembrou-se das experiências com o “copinho”. Todos aprovaram a tentativa de comunicação com o Alto. Aproximaram-se de uma mesa, sobre ela distribuíram em forma circular pedaços de papel, cada qual representando uma letra do alfabeto. No centro, colocaram um copo. O genro de Rui Barbosa, o historiador Antônio Batista Pereira, a um lado, sorria para o grupo. O professor Ataliba Nogueira, porém, católico praticante, reprovava a experiência. Diz ele que o grupo, entre alegria e um pouco de receio, dedicava-se “a uma espécie de distração, de modo algum consoante com as leis religiosas, porém, que as senhoras praticavam como se fosse inocente jogo de damas”. “Inocente jogo de damas”, diz Ataliba Nogueira. Veremos, porém, a que resultados chegaram essas pessoas com o inocente “jogo”.
Mas, deixemos que o próprio Ataliba nos conte:
Certa noite, porém, Antônio Batista Pereira, que assistia à sessão, de pé, disse que o cálice estava denotando alguma inquietação, manifestando, com isso, ter que revelar algum segredo.
Batista Pereira, então, sentou-se à mesa e, com as moças e senhoras, “colocou a ponta do dedo sobre o cálice”, o qual continuava a percorrer as letras, formando sentenças, cujo significado não dizia respeito a nenhum dos presentes.
Terminado o escrito – prossegue Ataliba Nogueira –, verificou-se que era uma mensagem em inglês, dirigida por algum “espírito” ao ilustre hóspede. Ficaram todos estarrecidos, e diante da indecisão geral, Batista Pereira opinou que deviam levá-la imediatamente a Rui. Batem à porta, o Conselheiro, de pijama, recebe o papel e fica emocionado: “É o estilo dele, o estilo perfeito! E o assunto! O mesmo que conversamos em nossa despedida em Haia”. Mas, é possível... Trata-se de William Stead – explica Rui –, o meu amigo e grande jornalista inglês, cuja morte os periódicos noticiam hoje, no afundamento do navio Titanic.
E o professor Ataliba Nogueira, sem meditar na tremenda verdade que o “inocente jogo de damas” revelava (a prova de que continuamos vivos após a morte, e que podemos, como espíritos, falar aos vivos), profundamente tristonho por ver que Rui Barbosa dera autenticidade à mensagem, exclama, talvez com os braços abertos para o público que o ouvia em Campinas:
“E ele (Rui Barbosa) acreditava nestas histórias de espiritismo!”
E não era para acreditar depois de uma prova tão notável? A exclamação de Ataliba Nogueira chega a ser engraçada.
O que o professor Ataliba Nogueira ignorava, infelizmente, é que o genial jornalista William Stead, a quem Rui Barbosa chamava de “o amigo”, fora médium, autor de livros espíritas e um dos mais valentes propagandistas do espiritismo na Europa. Rui o conheceu em Haia e, posteriormente, veio a ler obras espíritas. Não nos diz Ataliba Nogueira qual o conteúdo da mensagem vinda através do “copinho”. Faz apenas Rui Barbosa exclamar, emocionado: “É o estilo dele, o estilo perfeito! E o assunto! O mesmo que conversamos em nossa despedida em Haia”. Que assunto seria? Certamente, a comunicação mediúnica. O melhor meio para identificar-se seria, sem dúvida, voltar ao assunto espírita iniciado com Rui durante a despedida em Haia, e provar, ele próprio, a realidade do fenômeno. Notemos que após o desencarne William Stead comunicou-se (fato notável), imediatamente, com quase todos os seus amigos, inclusive os residentes nos mais longínquos países.
A “prova do copo”, porém, para Rui Barbosa não passava de mais uma diante das centenas de que ele tomara conhecimento através dos cientistas Crookes, Richet, Lombroso, Flammarion e outros.
Compreende-se agora tenha o Conselheiro ardorosamente combatido a Igreja Católica e, ao fim da vida, falando aos moços de São Paulo, apregoado a impotência da morte diante da eternidade chamada “espírito”!
Quanto a Antônio Batista Pereira, conhecido historiador e genro de Rui Barbosa, esqueceu Ataliba Nogueira de nos informar que também se tornou espírita. Mas, o genro de Rui Barbosa, como todo bom espírita, sempre se regozijou em dizê-lo, publicamente.
E agora nossas palavras finais sobre William Stead. A respeito de seu caráter, conta Rui Barbosa que ele tinha “uma independência superior a todos os interesses, uma austereza, que o levou, testamenteiro de Cecil Rhodes, opulência colossal entre os arquimilionários ingleses e americanos, a dar um pontapé nos milhões esterlinos, que o seu testamento lhe assegurava, rompendo com o potentado e o argentário, de quem era o mais prezado amigo, para denunciar os crimes da sua política africana”.
William Stead, considerado o criador da imprensa moderna (entre as suas inovações destaca-se a introdução da ilustração e da entrevista no jornalismo), morreu em 15 de abril de 1912. Seu desencarne revestiu-se de intensa beleza trágica. Tinha Stead 63 anos de idade quando o transatlântico Titanic – o maior navio do mundo, no qual viajava, bateu em um iceberg e começou a naufragar. William Stead, heroicamente, ajudou os tripulantes a salvar crianças e senhoras, enquanto os passageiros – encontravam-se a bordo 2.223 pessoas – corriam de um lado para o outro, gritavam, jogavam-se da amurada do navio ao mar. Depois, já lhe sendo impossível a salvação, Stead ajoelhou-se no convés e, para acalmar a tripulação, começou a cantar o hino religioso Nearer to thee, my God. Em seguida, sentou-se em uma cadeira, enquanto o navio afundava concentrou-se na leitura de um livro espírita – e desencarnou, dando a nós outros um inexcedível exemplo de convicção espírita.
Nota do autor: Para maiores informações sobre William Thomaz Stead, deve o leitor consultar os livros My father, de sua filha Estelle William Stead, e Live of William Thomaz Stead, de autoria de F. Whyte, além das grandes enciclopédias internacionais, como a Britânica, Webster’s e Larousse. Será, também, de grande proveito a leitura do artigo sobre Stead de autoria de Sílvio Brito Soares, estampado na revista Reformador, edição de julho de 1962. Quanto às famosas experiências mediúnicas de Stead, consultem-se as obras de Denis e Delanne.
Jorge Rizinni do livro:
Escritores e Fantasmas
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